25 janeiro, 2014

Não Posso Adiar o Amor

Não posso adiar o amor para outro século 
não posso 
ainda que o grito sufoque na garganta 
ainda que o ódio estale e crepite e arda 
sob montanhas cinzentas 
e montanhas cinzentas 

Não posso adiar este abraço 
que é uma arma de dois gumes 
amor e ódio 

Não posso adiar 
ainda que a noite pese séculos sobre as costas 
e a aurora indecisa demore 
não posso adiar para outro século a minha vida 
nem o rneu amor 
nem o meu grito de libertação 

Não posso adiar o coração 


António Ramos Rosa, in "Viagem Através de uma Nebulosa"


Não é um poeta de quem saiba muito, e só à pouco tempo veio ter comigo. Gosto do que vou lendo e aos poucos vamos partilhando interesses e sensações. É bonito e vou sentindo-o aos poucos...http://antonioramosrosa.blogspot.pt/p/biografia.html

Walden (ou a Vida nos Bosques)

"Dirige teu olhar para dentro de ti
E mil regiões encontrarás ali,
Ainda ignotas. Percorre tal via
E mestre serás em tua cosmografia"





Henry David Thoreau em 1845 decidiu isolar-se à beira do Lago Walden, entre a mata, onde construiu com as próprias mãos uma cabana. Lá viveu por cerca de dois anos, alimentando-se às próprias custas com a comida que plantava e as atividades solitárias que desenvolvia, entre elas a observação da natureza, contemplação e o estudo do ambiente e de si mesmo. Em "Walden" escreveu as suas memórias dessa experiência. Seus escritos interiorizados, moralizantes, críticos, com uso de elementos da natureza como analogias é absolutamente mordaz e impactante.

Numa sociedade de crescente consumo e capitalização, Thoreau destacou-se pela rebeldia em escolher não participar, evitar a mercadorização do indivíduo, praticar o afastamento da valorização através do dinheiro da existência. Thoreau profetizou a monetarização da sociedade e não quis contribuir com ela. Amava a Natureza e por extensão o homem que se molda por si, o homem naturalmente humano.





"Só quando nos perdemos, em outras palavras, só quando perdemos o mundo, é que começamos a nos encontrar, entendemos onde estamos e compreendemos a infinita extensão de nossas relações"

A relovução de uma palha

"O agricultor tornou-se atarefado demais quando começámos a estudar o mundo e a decidir que seria bom fazer isto ou fazer aquilo. Toda a minha pesquisa se baseou em não fazer isto ou não fazer aquilo. Estes trinta anos ensinaram-me que os agricultores estariam numa situação bem melhor se não fizessem praticamente nada."


Ao longo das últimas décadas, Masanobu Fukuoka (microbiologista, falecido em 2008) assistiu à degradação da terra e da sociedade japonesas, enquanto o seu país seguia o modelo de desenvolvimento económico e industrial americano, deixando para trás uma rica herança de trabalho simples e próximo da terra. Mas Fukuoka estava decidido a não abandonar a agricultura tradicional. Pelo contrário, refinou-a de tal modo que o seu método de agricultura natural, mantendo o mesmo rendimento por hectare que o dos camponeses seus vizinhos, exige menos trabalho e desgasta menos a Natureza do que qualquer outro método agrícola.

Nesta obra, além de descrever a agricultura natural em si, Fukuoka relata os acontecimentos que o levaram a desenvolver o seu método e o impacto deste na terra, em si próprio e nas pessoas a quem o ensinou, explicando a razão que o leva a acreditar que ele oferece um modelo de sociedade prático e estável baseado na simplicidade e na permanência.


Partindo do princípio de que curar a terra e purificar o espírito humano são a mesma coisa, A Revolução de Uma Palha tem por objectivo mudar as nossas atitudes para com a Natureza, a agricultura, a alimentação e a saúde física e espiritual.

Masanobu Fukuoka (1913-2008), agricultor/filósofo japonês da ilha Shikoku deu palestras e praticou agricultura até poucos anos antes da sua morte. Este seu livro foi de uma enorme inspiração para mim, devido á sua simplicidade e maneira de dar a conhecer a relação de um homem com a (sua) natureza envolvente, numa simbiose apaixonante que nos torna pequenos perante o individualismo que teima a permanecer em nós.


Amor Desmistificado


O sentimento de um homem apaixonado produz por vezes efeitos cómicos ou trágicos, porque em ambos os casos, é dominado pelo espírito da espécie que o domina ao ponto de o arrancar a si próprio; os seus actos não correspondem à sua individualidade. Isto explica, nos níveis superiores do amor, essa natureza tão poética e sublimadora que caracteriza os seus pensamentos, essa elevação transcendente e hiperfísica, que parece fazê-lo afastar da finalidade meramente física do seu amor. É porque o impelem então o génio da espécie e os seus interesses superiores.
Recebeu a missão de iniciar uma série indefinida de gerações dotadas de determinadas características e constituídas por certos elementos que só se podem encontrar num único pai e numa única mãe; só essa união pode dar existência à geração determinada que a objectivação da vontade expressamente exige. O sentimento que o amante tem de agir em circunstâncias de semelhantes transcendência, eleva-o de tal modo sobre as coisas terrestres e mesmo acima de si próprio, e tranforma-lhe os desejos físicos numa aparência de tal modo suprasensível, que o amor é um acontecimento poético, mesmo na existência do homem mais prosaico, o que o faz cair por vezes em ridículo. 

Arthur Schopenhauer, in 'Metafísica do Amor'

O amor é o objetivo último de quase toda preocupação humana; é por isso que ele influencia nos assuntos mais relevantes, interrompe as tarefas mais sérias e por vezes desorienta as cabeças mais geniais.

24 janeiro, 2014

EU SEGURO

Quando o tempo for remendo,
Cada passo um poço fundo
E esta cama em que dormimos
For muralha em que acordamos,
Eu seguro
E o meu braço estende a mão que embala o muro.

Quando o espanto for de medo,
O esperado for do mundo
E não for domado o espinho 
Da carne que partilhamos,
Eu seguro.
O sustento é forte quando o intento é puro.

Quando o tempo eu for remindo,
Cada poço eu for tapando
E esta pedra em que dormimos
Já for rocha em que assentamos,
Eu seguro.
Deixo às pedras esse coração tão duro.

Quando o medo for saindo
E do mundo eu for sarando
Dessa herança eu faço o manto 
Em que ambos cicatrizamos 
E seguro.
Não receio o velho agravo que suturo. 

Abraços rotos, lassos,
Por onde escapam nossos votos.
Abraso os ramos secos, 
Afago, a fogo, os embaraços
E seguro,
Alastro essa chama a cada canto escuro.

Quando o tempo for recobro,
Cada passo abraço forte
E o voto que concordámos
É o amor em que acordamos,
Eu seguro:
Finco os dedos e este fruto está maduro.

Quando o espanto for em dobro,
o esperado mais que a morte,
Quando o espinho já sarámos
No corpo que partilhamos,
Eu seguro.
O que então nascer não será prematuro.

Uníssonos no sono,
O mesmo turno e o mesmo dono,
Um leito e nenhum trono.
Mesmo que brote o desabono
Eu seguro,
Que o presente é uma semente do futuro.

Teledisco do tema "Eu Seguro" retirado do álbum "O Grande Medo do Pequeno Mundo" (2013) de Samuel Úria com a participação de Márcia

Lições de um ladrão


Certa vez um rei, desejoso de conhecer melhor aqueles que frequentemente precisava julgar, decidiu tomar lições com um ladrão. Queria saber como eles agiam, como pensavam, enfim, queria aprender com eles para entendê-los.
Mandou, portanto, chamar um famoso ladrão e propôs-lhe que lhe desse aulas.
– Como? – perguntou, indignado o ladrão. – E quem disse a Vossa Majestade que eu sou um ladrão? As pessoas se enganam a meu respeito.
O rei insistiu, prometendo-lhe pagar dez moedas de ouro a cada lição.
– De maneira alguma, Majestade. Há aqui um engano. Sou um homem de bem! Não sou capaz de dar essas aulas, pois nunca roubei nada na minha vida!
E, pedindo licença, retirou-se do palácio, mostrando-se ofendido.
O rei não sabia o que pensar. Dali a pouco, porém, percebeu que seu anel de esmeraldas sumira. Havia sido furtado! "Que audácia ele tem!", pensou. E mandou encarcerar o ladrão.
Mas este continuava a protestar sua inocência.
Naquela noite, o rei não conseguia dormir. Seu senso de justiça parecia abalado. E se aquele realmente não fosse o ladrão?
Assim pensando, desceu disfarçadamente ao subterrâneo das prisões e dirigiu-se à cela daquele que acabara de condenar.
Muito admirado, ouviu-o rezar e suplicar que os deuses o protegessem, pois era inocente, inocente, inocente!
O rei ficou muito impressionado com aquela cena. E na mesma hora, mandou que o soltassem, convencido de sua inocência.
Só então pode dormir.
No dia seguinte, o famoso ladrão, apresentou-se ao rei:
– Majestade, venho cobrar-lhe as trinta moedas de ouro.
– Trinta moedas? Mas do que se trata? Eu não lhe devo nada! Você não me deu lição alguma!
– Como não? – respondeu o ladrão. E fazendo um movimento de mãos, fez aparecer o anel de esmeraldas furtado.
Ante a estupefação do rei, continuou:
– A primeira lição é: faça-se sempre passar por um homem honesto, respeitador das leis. A segunda lição é: roube sem que ninguém perceba. E a terceira é: mesmo capturado, negue. Negue até o fim, diante de todos, até mesmo dos deuses. Podemos continuar com as lições?
Conto filosófico (?)

VEM


Vem,
Te direi em segredo
Aonde leva esta dança.

Vê como as partículas do ar
E os grãos de areia do deserto
Giram desnorteados.

Cada átomo
Feliz ou miserável,
Gira apaixonado
Em torno do sol.

RUMI