18 fevereiro, 2014


Não te preocupes em ser, sentir e dizer o que és. Saberei ouvir, respeitar e continuar na mesma frequência de onda. Aceito com naturalidade o que me tens para dizer. Aceito por paixão, se quiseres permanecer em silêncio de palavras, omissões de pensamentos, e desejos de gestos. Saberei o que me tens para dizer e não dizer, e aceito-o como se do contrário se trata-se. Se por ventura me disseres o que não estou à espera, ficar-te-ei grato. Sentir já é bom, mesmo que seja uma breve descrição sentimental definida em pequenos movimentos, interrompida pela timidez do acaso. Nada te peço e pouco te dou. E mais te posso dar, porque o mereces. E de tudo o que tenho para te oferecer, leva contigo a simplicidade do meu sorriso. Não te preocupes, pode ser que a vida perante tantos acasos de perguntas, nos acabe por dar por acaso as respostas...

a.tereso
28-01-2014

PRIMEIRO AMOR

Gostava muito dele
mas nunca lhe disse isso
porque a minha criada tinha-me avisado
se gostar de um rapaz
nunca lhe diga que gosta dele
se diz
ele faz pouco de si para sempre
os rapazes são maus
eu não era bela
nem sabia quem tinha pintado Os pestíferos de Jaffa
resolvi  assim escrever-lhe cartas anónimas
escrevia o rascunho num caderno pautado
não sei hoje o que escrevia
mas sei que nunca escrevi
gosto muito de ti
e depois pedia a uma rapariga muito bonita
que passasse as cartas a limpo
eu acreditava que quem tinha uns cabelos
assim loiros e a pele assim fina
devia ter uma letra muito melhor do que a minha
agora que conto isto
vejo que deixo muitas coisas de fora
por exemplo que o meu primeiro amor
não foi este mas o Paulo
o irmão da rapariga bonita

adília lopes
resumo
a poesia em 2009
assírio & alvim
2010

17 fevereiro, 2014


Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.

(excerto do poema «Tríptico», publicado em A Colher na Boca, 1961)
HERBERTO HELDER
Poesia Toda
Lisboa, Assírio & Alvim, 1990





HERBERTO HELDER

Nasceu no Funchal, na ilha da Madeira, em 1930, no seio de uma família de origem judaica. Em 1946, veio para Lisboa, onde terminou o liceu. Depois de uma rápida passagem pelo curso de Direito, em Coimbra, frequentou durante três anos a Faculdade de Letras de Lisboa.

Ao longo dos anos, Herberto Helder desempenhou várias profissões e viajou para vários países estrangeiros. Personagem discretíssima, foi distinguido em 1983 com o Prémio de Poesia do Pen Club Português, pelo livro A Colher na Boca. Em 1994, foi-lhe atribuído o Prémio Pessoa pelo conjunto da sua obra, distinção que recusou.

Talvez seja a irreverência peculiar da natureza que o invade que me permita reconhecer e identificar nele um ser supra sensorial, num universo em redundância com o mundo dos sentidos...


14 fevereiro, 2014

Each day is valentine's day

p://www.youtube.com/watch?v=jvXywhJpOKs

in My Funny Valentine, Chet Baker

Primeiro de Todos os Meus Sonhos

o primeiro de todos os meus sonhos era sobre
um amante e o seu único amor,
caminhando devagar(pensamento no pensamento)
por alguma verde misteriosa terra

até o meu segundo sonho começar—
o céu é agreste de folhas;que dançam
e dançando arrebatam(e arrebatando rodopiam
sobre um rapaz e uma rapariga que se assustam)

mas essa mera fúria cedo se tornou
silêncio:em mais vasto sempre quem
dois pequeninos seres dormem(bonecas lado a lado)
imóveis sob a mágica

para sempre caindo neve.
E então este sonhador chorou:e então
ela rapidamente sonhou um sonho de primavera
—onde tu e eu estamos a florescer
e. e. cummings

Depois de algum tempo ...

“Depois de algum tempo, você aprende a diferença, a sutil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começa a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas. E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.

E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão. Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo. E aprende que não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam... E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la, por isso. Aprende que falar pode aliviar dores emocionais.

Descobre que se levam anos para se construir confiança e apenas segundos para destruí-la, e que você pode fazer coisas em um instante das quais se arrependerá pelo resto da vida. Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida. E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher. Aprende que não temos que mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam, percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos.

Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa, por isso sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a última vez que as vejamos. Aprende que as circunstâncias e os ambientes tem influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos. Começa a aprender que não se deve comparar com os outros, mas com o melhor que pode ser. Descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser, e que o tempo é curto. Aprende que não importa onde já chegou, mas onde está indo, mas se você não sabe para onde está indo, qualquer lugar serve. Aprende que, ou você controla seus atos ou eles o controlarão, e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados.

Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências. Aprende que paciência requer muita prática. Descobre que algumas vezes a pessoa que você espera que o chute quando você cai é uma das poucas que o ajudam a levantar-se.

Aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas do que com quantos aniversários você celebrou. Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha. Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.

Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel. Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame, não significa que esse alguém não o ama, contudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.
Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem que aprender a perdoar-se a si mesmo. Aprende que com a mesma severidade com que julga, você será em algum momento condenado. Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não pára para que você o conserte. Aprende que o tempo não é algo que possa voltar para trás.

Portanto... plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores. E você aprende que realmente pode suportar... que realmente é forte, e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais. E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida!"


William Shakespeare
Cartas a Sandra

" Sandra.(...) Vou ver se ouço, não sei se serei capaz. Penso em ti mas tu não vens, como ouvir sem ti ao pé? É uma música de um prazer que não devia haver na sua dolência melancolia. Vem nela uma amargura terna do que passou, de um lugar incerto, talvez de uma tarde no jardim à beira-rio onde estivéssemos os dois em silêncio. Porque é curioso, raro me lembro do que tivéssemos dito alguma vez. E lembro-me é de te olhar e tu sorrires e não me dizeres nada. E sempre , quase sempre no tempo em que te conheci. Mesmo a tua morte que foi difícil, é muito raro lembrá-la. Também é raro pensar-te quando já envelhecias e eu atravessava a tua imagem até ao tempo do teu esplendor. Porque tu não nasceste para a velhice e a morte. Não franzas o teu rosto, deixa-me dizer. Até ao tempo da tua plenitude, que foi quando os deuses, como te disse, deram o seu trabalho por concluído e te entregaram à vida. A balada enche todo o espaço desta sala, ressoa ainda lá fora na noite. É uma balada de uma longa amargura sem razão, a mais difícil de suportar. E então fecho o aparelho. Mas logo sinto sobre mim a espessura de um silêncio que me aturde. E abro-o outra vez. Era bom que tu fosses mais compreensiva e te sentasses aqui um pouco ao meu lado. E eu prometeria não dizer nada, era só estares. Mas o espectáculo vai terminar. Ouço a balada de despedida nas guitarras como um dobre de sinos. Despedida de tudo, de nada, é bom ouvir e ceder um pouco ainda a uma certa dispersão de mim com esta música de um tempo antiquíssimo. E fecho definitivamente o aparelho, venho um pouco até à varanda. A aldeia adormece com a vigília das lâmpadas errantes pelas ruas, a montanha imobiliza-se no seu peso. Tento divisar os caminhos que a percorrem, imaginá-los para a excursão que um dia faríamos até ao alto. Vejo o choupo ao lado do portão, agita-se um pouco à aragem da noite. E de súbito, num curto-circuito da memória, lembro-me de quando aqui vieste comigo pela primeira vez. Era o fim do Verão, nós tínhamos ido à praia depois do casamento e eu prometera à Tia Joana estarmos com ela alguns dias. Vai-nos perguntar se casámos pela Igreja e tu vais mentir-lhe, disseste. Não digas nada, disse eu, deixa o caso comigo. Rolámos no comboio, um em face do outro, tu olhavas os campos verdes com o ar sério e um pouco distante que sempre te conheci. E eu olhava-te em silêncio, perturbado ainda de que te amava mas pouco depois recuperavas o teu mistério e impossível. E é onde agora te vejo, sempre, quando te penso. Podia pensar-te lembrar-te nos momentos de alguma desavença para que a tua fascinação recuasse para fora de ti. Ou quando simplesmente eu via em ti apenas , como dizer-te? a materialidade que te pertencia. Nunca lembro, estou cego para te ver assim. E o que flutua à minha volta é a tua irrealidade para te amar como nunca te amei."

Vergílio Ferreira, in " Cartas a Sandra", Ed. Círculo de Leitores, Maio de 1997




Este homem reuniu em si diversas facetas, a de filósofo e a de escritor, a de ensaísta, a de romancista e a de professor. Contudo, foi na escrita que mais se destacou, sendo dos intelectuais contemporâneos mais representativos. Toda a sua obra está impregnada de uma profunda preocupação ensaística.
Vergílio foi também um existencialista por natureza. A sua produção literária reflecte uma séria preocupação com a vida e a cultura. Este escritor confessou a Invocação ao meu Corpo (1969) trazer em si “ a força monstruosa de interrogar”, mais forte que a força de uma pergunta. ”Porque a pergunta é uma interrogação segunda ou acidental e a resposta a espera para que a vida continue. Mas o que eu trago em mim é o anúncio do fim do mundo, ou mais longe, e decerto, o da sua recriação”. Este pensador tecia reflexões constantes acerca do sentido da vida, sobre o mistério da existência, acerca do nascimento e da morte, enfim, acerca dos problemas da condição humana.


in http://bmgouveiavf.blogspot.pt/2006/10/biografia.html