24 fevereiro, 2014



PERSONAGEM: Gertrudes Rica Peça
Pudesse eu dizer-te amiúde quem sou nos meus juízos de liberdade, para que tu te libertasses nos meus e nos teus (pre)conceitos. Fundamentos à minha imagem de raiz tradicional, embalados em valsas mandadas, jeitos da terra, encadeados por danças de roda e jogos de criança. Aqui vai, aqui fico eu! Um ser pequeno que se constrói, não pertence a ninguém, parte de dentro para fora e da descoberta do dia a dia. Posso isto e aquilo, não posso por isto e sem razão. A liberdade começa no sentir, pensar, dizer e fazer o mesmo. Pouco mais que isso, e um sorriso mais. Um simples aceitar de cada uma cor do arco íris. A pequena inocência nuns pés de cigarra cantante, dentro de cada ser individual, numa perspectiva colectiva de que o mundo é à nossa imagem e semelhança. Sou um ar de vestido de céu, e tenho em mim toda a sobreposição de cores do universo. Sorri, o entrudo permite que sejas. Por isso sê feliz em liberdade.

Autor: Anacleto Teixeira (filho)

21 fevereiro, 2014

sem ti


E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
Sem álamos,
Sem luas.

Só nas minhas mãos
ouço a música das tuas.

eugénio de andrade
poesia
coração do dia
fundação eugénio de andrade
2000
Para além da curva da estrada 
Talvez haja um poço, e talvez um castelo, 
E talvez apenas a continuação da estrada. 
Não sei nem pergunto. 
Enquanto vou na estrada antes da curva 

Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.


Alberto Caeiro

19 fevereiro, 2014

Nunca um olhar me seduziu tanto quanto o dela. Dois continentes da mais pura sensualidade, do mais terno acolhimento, da mais devassa cumplicidade. Há duas semanas que não saio de casa: só a ideia de deixá-la sozinha é um sacrilégio. Trocá-la por quê? Pela porra do emprego? Pela companhia dos amigos, essa corja de mal-amados? Pela vidinha, a expediência lamacenta das obrigações e dos compromissos? Deixo-me ficar. A ideia de estar a faltar ao trabalho, de cortar ligações com as pessoas, de responder mal a quem me telefone, de, enfim, deitar tudo a perder, erotiza ainda mais os nossos jogos de amor.

A vidinha, de JP Simões, em O vírus da vida.

18 fevereiro, 2014


Não te preocupes em ser, sentir e dizer o que és. Saberei ouvir, respeitar e continuar na mesma frequência de onda. Aceito com naturalidade o que me tens para dizer. Aceito por paixão, se quiseres permanecer em silêncio de palavras, omissões de pensamentos, e desejos de gestos. Saberei o que me tens para dizer e não dizer, e aceito-o como se do contrário se trata-se. Se por ventura me disseres o que não estou à espera, ficar-te-ei grato. Sentir já é bom, mesmo que seja uma breve descrição sentimental definida em pequenos movimentos, interrompida pela timidez do acaso. Nada te peço e pouco te dou. E mais te posso dar, porque o mereces. E de tudo o que tenho para te oferecer, leva contigo a simplicidade do meu sorriso. Não te preocupes, pode ser que a vida perante tantos acasos de perguntas, nos acabe por dar por acaso as respostas...

a.tereso
28-01-2014

PRIMEIRO AMOR

Gostava muito dele
mas nunca lhe disse isso
porque a minha criada tinha-me avisado
se gostar de um rapaz
nunca lhe diga que gosta dele
se diz
ele faz pouco de si para sempre
os rapazes são maus
eu não era bela
nem sabia quem tinha pintado Os pestíferos de Jaffa
resolvi  assim escrever-lhe cartas anónimas
escrevia o rascunho num caderno pautado
não sei hoje o que escrevia
mas sei que nunca escrevi
gosto muito de ti
e depois pedia a uma rapariga muito bonita
que passasse as cartas a limpo
eu acreditava que quem tinha uns cabelos
assim loiros e a pele assim fina
devia ter uma letra muito melhor do que a minha
agora que conto isto
vejo que deixo muitas coisas de fora
por exemplo que o meu primeiro amor
não foi este mas o Paulo
o irmão da rapariga bonita

adília lopes
resumo
a poesia em 2009
assírio & alvim
2010

17 fevereiro, 2014


Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.

(excerto do poema «Tríptico», publicado em A Colher na Boca, 1961)
HERBERTO HELDER
Poesia Toda
Lisboa, Assírio & Alvim, 1990





HERBERTO HELDER

Nasceu no Funchal, na ilha da Madeira, em 1930, no seio de uma família de origem judaica. Em 1946, veio para Lisboa, onde terminou o liceu. Depois de uma rápida passagem pelo curso de Direito, em Coimbra, frequentou durante três anos a Faculdade de Letras de Lisboa.

Ao longo dos anos, Herberto Helder desempenhou várias profissões e viajou para vários países estrangeiros. Personagem discretíssima, foi distinguido em 1983 com o Prémio de Poesia do Pen Club Português, pelo livro A Colher na Boca. Em 1994, foi-lhe atribuído o Prémio Pessoa pelo conjunto da sua obra, distinção que recusou.

Talvez seja a irreverência peculiar da natureza que o invade que me permita reconhecer e identificar nele um ser supra sensorial, num universo em redundância com o mundo dos sentidos...