24 fevereiro, 2014

Era uma vez um pintor que tinha um aquário

Era uma vez um pintor que tinha um aquário e, dentro do aquário, um peixe encarnado. Vivia o peixe tranqüilamente acompanhado pela sua cor encarnada, quando a certa altura começou a tornar-se negro a partir – digamos – de dentro. Era um nó negro por detrás da cor vermelha e que, insidioso, se desenvolvia para fora, alastrando-se e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário, o pintor assistia surpreendido à chegada do novo peixe.

O problema do artista era este: obrigado a interromper o quadro que pintava e onde estava a aparecer o vermelho do seu peixe, não sabia agora o que fazer da cor preta que o peixe lhe ensinava. Assim, os elementos do problema constituíam-se na própria observação dos fatos e punham-se por uma ordem, a saber:

1)peixe, cor vermelha, pintor, em que a cor vermelha era o nexo estabelecido entre o peixe e o quadro, através do pintor;

2)peixe, cor preta, pintor, em que a cor preta formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.

Ao meditar acerca das razões por que o peixe mudara de cor precisamente na hora em que o pintor assentava na sua fidelidade, ele pensou que, lá dentro do aquário, o peixe, realizando o seu número de prestidigitação, pretendia fazer notar que existia apenas uma lei que abrange tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Essa lei seria a metamorfose. Compreendida a nova espécie de fidelidade, o artista pintou na sua tela um peixe amarelo.


Herberto Hélder
Pegue num sorriso e doe-o a quem jamais o teve.
Pegue num raio de sol e faça-o voar para onde reina a noite.
Descubra uma fonte e faça banhar-se quem vive no lodo.
Pegue numa lágrima e ponha-a no rosto de quem jamais chorou.
Pegue na coragem e ponha-a no ânimo de quem não sabe lutar.
Descubra a vida e narre-a a quem não sabe entendê-la.
Pegue na esperança e viva na sua luz.
Pegue na bondade e doe-a a quem não sabe doar.
Descubra o amor e faça-o conhecer ao mundo


Mahatma Gandhi


PERSONAGEM: Gertrudes Rica Peça
Pudesse eu dizer-te amiúde quem sou nos meus juízos de liberdade, para que tu te libertasses nos meus e nos teus (pre)conceitos. Fundamentos à minha imagem de raiz tradicional, embalados em valsas mandadas, jeitos da terra, encadeados por danças de roda e jogos de criança. Aqui vai, aqui fico eu! Um ser pequeno que se constrói, não pertence a ninguém, parte de dentro para fora e da descoberta do dia a dia. Posso isto e aquilo, não posso por isto e sem razão. A liberdade começa no sentir, pensar, dizer e fazer o mesmo. Pouco mais que isso, e um sorriso mais. Um simples aceitar de cada uma cor do arco íris. A pequena inocência nuns pés de cigarra cantante, dentro de cada ser individual, numa perspectiva colectiva de que o mundo é à nossa imagem e semelhança. Sou um ar de vestido de céu, e tenho em mim toda a sobreposição de cores do universo. Sorri, o entrudo permite que sejas. Por isso sê feliz em liberdade.

Autor: Anacleto Teixeira (filho)

21 fevereiro, 2014

sem ti


E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
Sem álamos,
Sem luas.

Só nas minhas mãos
ouço a música das tuas.

eugénio de andrade
poesia
coração do dia
fundação eugénio de andrade
2000
Para além da curva da estrada 
Talvez haja um poço, e talvez um castelo, 
E talvez apenas a continuação da estrada. 
Não sei nem pergunto. 
Enquanto vou na estrada antes da curva 

Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.


Alberto Caeiro

19 fevereiro, 2014

Nunca um olhar me seduziu tanto quanto o dela. Dois continentes da mais pura sensualidade, do mais terno acolhimento, da mais devassa cumplicidade. Há duas semanas que não saio de casa: só a ideia de deixá-la sozinha é um sacrilégio. Trocá-la por quê? Pela porra do emprego? Pela companhia dos amigos, essa corja de mal-amados? Pela vidinha, a expediência lamacenta das obrigações e dos compromissos? Deixo-me ficar. A ideia de estar a faltar ao trabalho, de cortar ligações com as pessoas, de responder mal a quem me telefone, de, enfim, deitar tudo a perder, erotiza ainda mais os nossos jogos de amor.

A vidinha, de JP Simões, em O vírus da vida.

18 fevereiro, 2014


Não te preocupes em ser, sentir e dizer o que és. Saberei ouvir, respeitar e continuar na mesma frequência de onda. Aceito com naturalidade o que me tens para dizer. Aceito por paixão, se quiseres permanecer em silêncio de palavras, omissões de pensamentos, e desejos de gestos. Saberei o que me tens para dizer e não dizer, e aceito-o como se do contrário se trata-se. Se por ventura me disseres o que não estou à espera, ficar-te-ei grato. Sentir já é bom, mesmo que seja uma breve descrição sentimental definida em pequenos movimentos, interrompida pela timidez do acaso. Nada te peço e pouco te dou. E mais te posso dar, porque o mereces. E de tudo o que tenho para te oferecer, leva contigo a simplicidade do meu sorriso. Não te preocupes, pode ser que a vida perante tantos acasos de perguntas, nos acabe por dar por acaso as respostas...

a.tereso
28-01-2014