Precisamos de reacender a chama da nossa relação com a Natureza. Talvez seja preciso mais do que apenas amizade - precisamos de nos voltar a apaixonar pela natureza, namorar com a Natureza. E a melhor maneira de compor esta relação é estar com a Natureza, sentado debaixo de uma árvore, trabalhando uma porção de terra, caminhando numa clareira - um Peregrino e não um turista no Planeta Terra. Em face de todos os problemas ambientais do mundo, como podemos avançar enquanto Peregrinos da Terra? O primeiro passo é identificarmo-nos verdadeiramente com o ensinamento sábio de Gandhi - "ser a mudança que queremos ver “: não pregar se não praticarmos. O segundo passo é transmitir aos outros as bênçãos desta nova relação. E o terceiro é organizarmo-nos com os outros para alcançar a mudança de forma mais eficaz. Ter coração - ser um Peregrino da Terra não requer nenhum treino, cursos universitários ou livros, simplesmente voltar a ter a compreensão da interdependência de tudo.
Satish Kumar
24 fevereiro, 2014
Era uma vez um pintor que tinha um aquário
Era uma vez um pintor que tinha um aquário e, dentro do aquário, um peixe encarnado. Vivia o peixe tranqüilamente acompanhado pela sua cor encarnada, quando a certa altura começou a tornar-se negro a partir – digamos – de dentro. Era um nó negro por detrás da cor vermelha e que, insidioso, se desenvolvia para fora, alastrando-se e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário, o pintor assistia surpreendido à chegada do novo peixe.
O problema do artista era este: obrigado a interromper o quadro que pintava e onde estava a aparecer o vermelho do seu peixe, não sabia agora o que fazer da cor preta que o peixe lhe ensinava. Assim, os elementos do problema constituíam-se na própria observação dos fatos e punham-se por uma ordem, a saber:
1)peixe, cor vermelha, pintor, em que a cor vermelha era o nexo estabelecido entre o peixe e o quadro, através do pintor;
2)peixe, cor preta, pintor, em que a cor preta formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
Ao meditar acerca das razões por que o peixe mudara de cor precisamente na hora em que o pintor assentava na sua fidelidade, ele pensou que, lá dentro do aquário, o peixe, realizando o seu número de prestidigitação, pretendia fazer notar que existia apenas uma lei que abrange tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Essa lei seria a metamorfose. Compreendida a nova espécie de fidelidade, o artista pintou na sua tela um peixe amarelo.
Herberto Hélder
O problema do artista era este: obrigado a interromper o quadro que pintava e onde estava a aparecer o vermelho do seu peixe, não sabia agora o que fazer da cor preta que o peixe lhe ensinava. Assim, os elementos do problema constituíam-se na própria observação dos fatos e punham-se por uma ordem, a saber:
1)peixe, cor vermelha, pintor, em que a cor vermelha era o nexo estabelecido entre o peixe e o quadro, através do pintor;
2)peixe, cor preta, pintor, em que a cor preta formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
Ao meditar acerca das razões por que o peixe mudara de cor precisamente na hora em que o pintor assentava na sua fidelidade, ele pensou que, lá dentro do aquário, o peixe, realizando o seu número de prestidigitação, pretendia fazer notar que existia apenas uma lei que abrange tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Essa lei seria a metamorfose. Compreendida a nova espécie de fidelidade, o artista pintou na sua tela um peixe amarelo.
Herberto Hélder
Pegue num sorriso e doe-o a quem jamais o teve.
Pegue num raio de sol e faça-o voar para onde reina a noite.
Descubra uma fonte e faça banhar-se quem vive no lodo.
Pegue numa lágrima e ponha-a no rosto de quem jamais chorou.
Pegue na coragem e ponha-a no ânimo de quem não sabe lutar.
Descubra a vida e narre-a a quem não sabe entendê-la.
Pegue na esperança e viva na sua luz.
Pegue na bondade e doe-a a quem não sabe doar.
Descubra o amor e faça-o conhecer ao mundo
Mahatma Gandhi
Pegue num raio de sol e faça-o voar para onde reina a noite.
Descubra uma fonte e faça banhar-se quem vive no lodo.
Pegue numa lágrima e ponha-a no rosto de quem jamais chorou.
Pegue na coragem e ponha-a no ânimo de quem não sabe lutar.
Descubra a vida e narre-a a quem não sabe entendê-la.
Pegue na esperança e viva na sua luz.
Pegue na bondade e doe-a a quem não sabe doar.
Descubra o amor e faça-o conhecer ao mundo
Mahatma Gandhi
PERSONAGEM: Gertrudes Rica Peça
Pudesse eu dizer-te amiúde quem sou nos meus juízos de liberdade, para que tu te libertasses nos meus e nos teus (pre)conceitos. Fundamentos à minha imagem de raiz tradicional, embalados em valsas mandadas, jeitos da terra, encadeados por danças de roda e jogos de criança. Aqui vai, aqui fico eu! Um ser pequeno que se constrói, não pertence a ninguém, parte de dentro para fora e da descoberta do dia a dia. Posso isto e aquilo, não posso por isto e sem razão. A liberdade começa no sentir, pensar, dizer e fazer o mesmo. Pouco mais que isso, e um sorriso mais. Um simples aceitar de cada uma cor do arco íris. A pequena inocência nuns pés de cigarra cantante, dentro de cada ser individual, numa perspectiva colectiva de que o mundo é à nossa imagem e semelhança. Sou um ar de vestido de céu, e tenho em mim toda a sobreposição de cores do universo. Sorri, o entrudo permite que sejas. Por isso sê feliz em liberdade.
Autor: Anacleto Teixeira (filho)
21 fevereiro, 2014
sem ti
E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
Sem álamos,
Sem luas.
Só nas minhas mãos
ouço a música das tuas.
eugénio de andrade
poesia
coração do dia
fundação eugénio de andrade
2000
Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.
Alberto Caeiro
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.
Alberto Caeiro
19 fevereiro, 2014
Nunca um olhar me seduziu tanto quanto o dela. Dois continentes da mais pura sensualidade, do mais terno acolhimento, da mais devassa cumplicidade. Há duas semanas que não saio de casa: só a ideia de deixá-la sozinha é um sacrilégio. Trocá-la por quê? Pela porra do emprego? Pela companhia dos amigos, essa corja de mal-amados? Pela vidinha, a expediência lamacenta das obrigações e dos compromissos? Deixo-me ficar. A ideia de estar a faltar ao trabalho, de cortar ligações com as pessoas, de responder mal a quem me telefone, de, enfim, deitar tudo a perder, erotiza ainda mais os nossos jogos de amor.
A vidinha, de JP Simões, em O vírus da vida.
A vidinha, de JP Simões, em O vírus da vida.
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