27 fevereiro, 2014


Mordiscas-me os lábios

Mordiscas-me os lábios
cão pássaro rapaz
(não quero que te vás embora
e sei que vais ter que te ir embora)
quero dormir contigo
com a tua mão
sobre o meu coração
para que saibas
os meus segredos
beliscas-me ao de leve
eu sei que não é um sonho
mas é como um sonho
para mim


Adília Lopes
Portugal 1960
in “Dobra – Poesia Reunida”
Assirio & Alvim

Creio no mundo como num malmequer


Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Alberto Caeiro

O Inominável


Nunca
dos nossos lábios aproximaste 
o ouvido; nunca
ao nosso ouvido encostaste os lábios;
és o silencio,
o duro espesso impenetrável
silêncio sem figura.
Escutamos, bebemos o silencio
Nas próprias mãos
E nada nos une
- nem sequer sabemos se tens nome.

Eugénio de Andrade
(Portugal 1923-2005)
In Poesia

25 fevereiro, 2014


A minha maneira de te amar é simples
aperto-te contra mim
como se houvesse um pouco de justiça no meu
coração e eu ta pudesse dar com o corpo.

Quando revolvo os teus cabelos
algo de belo se forma entre as minhas mãos.

E quase não sei mais nada. Só aspiro
a estar em paz contigo e a estar em paz
com um dever desconhecido
que ás vezes também pesa no meu coração.


Antonio Gamoneda
Espanha 1931
in ”Oração Fria”

24 fevereiro, 2014

Precisamos de reacender a chama da nossa relação com a Natureza. Talvez seja preciso mais do que apenas amizade - precisamos de nos voltar a apaixonar pela natureza, namorar com a Natureza. E a melhor maneira de compor esta relação é estar com a Natureza, sentado debaixo de uma árvore, trabalhando uma porção de terra, caminhando numa clareira - um Peregrino e não um turista no Planeta Terra. Em face de todos os problemas ambientais do mundo, como podemos avançar enquanto Peregrinos da Terra? O primeiro passo é identificarmo-nos verdadeiramente com o ensinamento sábio de Gandhi - "ser a mudança que queremos ver “: não pregar se não praticarmos. O segundo passo é transmitir aos outros as bênçãos desta nova relação. E o terceiro é organizarmo-nos com os outros para alcançar a mudança de forma mais eficaz. Ter coração - ser um Peregrino da Terra não requer nenhum treino, cursos universitários ou livros, simplesmente voltar a ter a compreensão da interdependência de tudo.

Satish Kumar

Era uma vez um pintor que tinha um aquário

Era uma vez um pintor que tinha um aquário e, dentro do aquário, um peixe encarnado. Vivia o peixe tranqüilamente acompanhado pela sua cor encarnada, quando a certa altura começou a tornar-se negro a partir – digamos – de dentro. Era um nó negro por detrás da cor vermelha e que, insidioso, se desenvolvia para fora, alastrando-se e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário, o pintor assistia surpreendido à chegada do novo peixe.

O problema do artista era este: obrigado a interromper o quadro que pintava e onde estava a aparecer o vermelho do seu peixe, não sabia agora o que fazer da cor preta que o peixe lhe ensinava. Assim, os elementos do problema constituíam-se na própria observação dos fatos e punham-se por uma ordem, a saber:

1)peixe, cor vermelha, pintor, em que a cor vermelha era o nexo estabelecido entre o peixe e o quadro, através do pintor;

2)peixe, cor preta, pintor, em que a cor preta formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.

Ao meditar acerca das razões por que o peixe mudara de cor precisamente na hora em que o pintor assentava na sua fidelidade, ele pensou que, lá dentro do aquário, o peixe, realizando o seu número de prestidigitação, pretendia fazer notar que existia apenas uma lei que abrange tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Essa lei seria a metamorfose. Compreendida a nova espécie de fidelidade, o artista pintou na sua tela um peixe amarelo.


Herberto Hélder
Pegue num sorriso e doe-o a quem jamais o teve.
Pegue num raio de sol e faça-o voar para onde reina a noite.
Descubra uma fonte e faça banhar-se quem vive no lodo.
Pegue numa lágrima e ponha-a no rosto de quem jamais chorou.
Pegue na coragem e ponha-a no ânimo de quem não sabe lutar.
Descubra a vida e narre-a a quem não sabe entendê-la.
Pegue na esperança e viva na sua luz.
Pegue na bondade e doe-a a quem não sabe doar.
Descubra o amor e faça-o conhecer ao mundo


Mahatma Gandhi