14 março, 2014


Senti uma vontade violenta de me desmoronar em ti. Não, não era fazer amor. Fazer amor não existe, porra, o amor não se faz. O amor desaba sobre nós já feito, não o controlamos – por isso o sistema se cansa tanto a substituí-lo pelo sexo, coisa gráfica, aparentemente moldável. Também não era foder, fornicar, copular – essas palavras violentas com que tentamos rebentar o amor. Como se fosse possível. Como se o amor não fosse exactamente essa fornicação metafísica que não nos diz respeito – sofremos-lhe apenas os estilhaços, que nos roubam vida e vontade. Eu queria oferecer-te o meu corpo para que o absorvesses no teu. Para que me fizesses desaparecer nos teus ossos. Eu, educado no preceito alimentar de que os rapazes comem as raparigas, depois de uma vida inteira de domínio dos talheres queria agora ser comido por ti. Queria entregar-me nas tuas mãos.

in "Fazes-me falta" de Inês Pedrosa



à tua espera


Tranquila e serena
a nossa casa
nos quatro cantos
o sol do meio-dia

à tua espera alegre
e descansada
injecto-me de amor às
escondidas

Sobre a garganta passo
os dedos espessos
e a roupa uma a uma
vai caindo

para que então amor
com os teus dedos
quando vieres me vás
depois vestindo

maria teresa horta
candelabro
1964

09 março, 2014


Não te sei explicar porquê. E se porquê houvesse não queria saber. O que sinto é um sentir sem querer, sem procurar, sem ter porque lutar. Nunca senti uma energia tão limpa por quem me tenha apaixonado. Na realidade desconfio que possa estar apaixonado, se nem sequer delineei uma estratégia para te encontrar. Que estratégia se pode engendrar para os sentimentos? Que controlo se tem perante forças que não nos pertencem. Não te quero como cheguei a querer das outras vezes, e o que albergo é um sentimento sem querer, simples e sem vontade de desejo. Não é uma luta, tão pouco um troféu ou uma simples vontade.  É um sentimento livre, puro e consciente no que sou. Nada faço e que posso eu perante o destino? Permito-me somente ser e estar, dar por inteiro em ritmo natural e consciente. Num verbo sem carne. Um consciente sem razão, detentor de um inatismo crescente e real. Nada peço nem quero, e envolvo-me no ritmo que a natureza tem para levar nesta vida até ti. Vou de mãos limpas, peito aberto, para o que acredito e para a natureza que me desperta e alimenta.

a.tereso
(algures pelo início de fevereiro)

Espiritualidade e Alimentação

Enquanto cumprindo os princípios gerais de nutrição, de atração e de satisfação, a comida também tem um componente espiritual.
O aspecto espiritual da dieta compreende a compra, a preparação, a aceitação e o ato de comer a comida. A comida que é selecionada com cuidado, preparada com amor, aceita com gratidão e ingerida com pureza, torna-se um tônico para ambos, para a alma e para o corpo. O ingrediente básico é a consciência. Onde a consciência é limpa, preenchida com amor e desapego, a comida é purificada e isso também purifica o corpo. Como resultado, a mente torna-se limpa, ficando livre de desejos e da atração aos órgãos dos sentidos.
Se você estudar a dieta dos yogis antigos da Índia, você notará que seu enfoque no ato de comer era muito refinado. Havia apenas alguns tipos de comida que eles aceitavam e o yogi não se satisfazia (no sentido de obter prazer) nem se permitia ser influenciado pelos sentidos da visão, olfato e paladar. Um yogi sempre fixará determinados horários para comer e beber e manterá esta disciplina. Um caminho espiritual significa ser atento ao que se consome. Abstinência de carne, ovos, peixe e frango (assim como dos subprodutos da carne, tais como gelatina e coalho), de álcool, tabaco, drogas, excesso de chá e café faz parte do modo de vida da espiritualidade. Por razões espirituais, muitas pessoas evitam, inclusive, cebola, alho e especiarias fortes que atuam como estimulantes ao sistema endócrino e, desta maneira, desestabilizam as emoções. Assim, a dieta de um yogi compreende dois fundamentos principais:
• Não causar sofrimento a outro ser vivo.
• Não superestimular o sistema fisiológico (digestivo, nervoso, e endócrino).
Uma equação básica, com a qual muitos de nós estão familiarizados, é “de acordo com o que você come é a sua mente”. Isto é um princípio fundamental da dieta espiritual. O tipo e a qualidade da comida e a maneira de se comer afetam o estado da mente. A comida que envolve matança de animais carrega uma dívida cármica e isto se torna um fardo na alma humana. Comida ou bebida que têm um efeito estimulante no corpo também carregam uma carga tóxica que gradualmente dão lugar a um processo de doença (câncer, placas arteriais, diabetes, cálculo biliar etc.). A comida que é ingerida num estado de tensão, ansiedade, depressão, raiva ou medo levará esses padrões de pensamento e essas vibrações e, portanto, isso afetará a digestão. Os hormônios estimulados por essas vibrações, por sua vez, criam mais vibrações negativas e hormônios, portanto, o ciclo continua.
Um enfoque espiritual na dieta inclui preparar a comida num estado meditativo com sentimentos de amor e desapego. Quando alguém se sente livre de desejos e cozinha com amor para si mesmo, para a família e amigos, na lembrança de Deus, isso trará um poder sutil que energiza a alma e o corpo. Dentro de parâmetros de uma dieta espiritual precisa, de qualquer modo, é bom aceitar a comida com gratidão e não se tornar muito focado em “eu não posso comer isto ou eu não posso comer aquilo”, a menos que haja necessidades específicas com relação à saúde. Algumas pessoas desenvolveram a arte de combinar alimentos e nos dias de hoje, alimentos orgânicos são mais populares desde que os efeitos dos pesticidas, fertilizantes e antibióticos (que, inclusive, afetam o leite, iogurte, manteiga e queijo) na contaminação da comida se tornaram mais conhecidos. Os macrobióticos estão se tornando mais populares, mas não necessariamente se equiparam com a espiritualidade.
Algumas dessas dietas são boas para a saúde, para o meio ambiente e para a consciência, mas se a pessoa que segue um regime rigoroso se torna muito fanática e cria stress como resultado, então, muitos dos benefícios serão, automaticamente, perdidos.
Espiritualidade inclui, também, compartilhar. Não há nada mais maravilhoso do que compartilhar um alimento cozido lindamente com outros. Ao compartilhar, nós perdemos o senso de apego à comida e ao corpo e dominamos a gula. O sustento natural da comida é realçado pelo poder das vibrações puras e isto também traz benefício num nível espiritual. Um método para trazer harmonia e unidade em qualquer congregação, quer seja uma família, uma companhia ou entre amigos é comer junto. Comida preparada com amor ajudará a gerar esses sentimentos. As mães conhecem o poder da comida para tranquilizar os sentimentos dos filhos e trazer um sentido de contentamento.
* OM SHANTI *
Extraído da Revista Vida Plena – sessão Enfoque – Ano IV – Edição nº 29 – 2007

08 março, 2014

Em liberdade


Em liberdade
somos
nós mulheres o cimo
da raiz

o caule que
suporta
o peso do fruto e da flor

No ventre das mulheres
o sossego é fértil

em nós cresce o amor





Maternidade  (I)

Mães do povo somos:
a raiz

Matriz
de um Portugal novo
corre-nos no ventre
o sangue do país



Maria Teresa Horta

Foram Breves e Medonhas as Noites de Amor

foram breves e medonhas as noites de amor 
e regressar do âmago delas esfiapava-lhe o corpo 
habitado ainda por flutuantes mãos 

estava nu 
sem água e sem luz que lhe mostrasse como era 
ou como poderia construir a perfeição 

os dias foram-se sumindo cor de chumbo
na procura incessante doutra amizade
que lhe prolongasse a vida

e uma vez acordou
caminhou lentamente por cima da idade
tão longe quanto pôde
onde era possível inventar outra infância
que não lhe ferisse o coração

Al Berto, “O Medo”

VOCÊ NÃO É A SUA MENTE
O MAIOR OBSTÁCULO PARA A ILUMINAÇÃO
Iluminação – o que é isso?
Por mais de trinta anos um mendigo ficou sentado no mesmo lugar, debaixo de uma marquise. Até que um dia, uma conversa com um estranho mudou sua vida:
– Tem um trocadinho aí pra mim, moço? – murmurou, estendendo mecanicamente seu velho boné.
– Não, não tenho – disse o estranho. – O que tem nesse baú debaixo de você?
– Nada, isso aqui é só uma caixa velha. Já nem sei há quanto tempo sento em cima dela.
– Nunca olhou o que tem dentro? – perguntou o estranho.
– Não – respondeu. – Para quê? Não tem nada aqui, não!
– Dá uma olhada dentro – insistiu o estranho, antes de ir embora .
O mendigo resolveu abrir a caixa. Teve que fazer força para levantar a tampa e mal conseguiu acreditar ao ver que o velho caixote estava cheio de ouro.
Eu sou o estranho sem nada para dar, que está lhe dizendo para olhar para dentro. Não de uma caixa, mas sim de você mesmo. Imagino que você esteja pensando indignado: "Mas eu não sou um mendigo!"
Infelizmente, todos que ainda não encontraram a verdadeira riqueza – a radiante alegria do Ser e uma paz inabalável – são mendigos , mesmo que possuam bens e riqueza material . Buscam , do lado de fora , migalhas de prazer, a provação, segurança ou amor, embora tenham um tesouro guardado dentro de si, que não só contém tudo isso, como é infinitamente maior do que qualquer coisa oferecida pelo mundo.
A palavra iluminação transmite a idéia de uma conquista sobre-humana – e isso agrada ao ego –, mas é simplesmente o estado natural de sentir-se em unidade com o Ser. É um estado de conexão com algo imensurável e indestrutível. Pode parecer um paradoxo, mas esse "algo" é essencialmente você e, ao mesmo tempo, é muito maior do que você. A iluminação consiste em encontrar a verdadeira natureza por trás do nome e da forma. A incapacidade de sentir essa conexão dá origem a uma ilusão de separação, tanto de você mesmo quanto do mundo ao redor. Quando você se percebe, consciente ou inconscientemente, como um fragmento isolado, o medo e os conflitos internos e externos tomam conta da sua vida.
Adoro a definição simples de Buda para a iluminação: "É o fim do sofrimento." Não há nada de sobre-humano nisso, não é mesmo? Claro que não é uma definição completa. Ela apenas nos diz o que a iluminação não é: não é sofrimento. Mas o que resta quando não há mais sofrimento? Buda silencia a respeito, e esse silêncio implica que teremos de encontrar a resposta por nós mesmos. Como ele emprega uma definição negativa, a mente não consegue entendê-la como uma crença, ou como uma conquista sobre-humana, um objetivo difícil de alcançar. Apesar disso, a maioria dos budistas ainda acredita que a iluminação é algo apenas para Buda e não para eles próprios, pelo menos, não nesta vida. Você usou a palavra Ser. Pode explicar o que quer dizer com isso?
in 

O Poder do Agora, de Eckhart Tolle






O autor, Eckhart Tolle, pseudônimo de Ulrich Tolle, é professor de espiritualidade "contemporânea", considerado mestre e conselheiro espiritual, embora ele não assuma esses títulos. 
Tolle não está alinhado com qualquer religião particular ou tradição, apresenta uma profunda introspecção e conhecimentos sobre
 Psicologia Transpessoal.



Sobre o Ego e a Queda
http://www.youtube.com/watch?v=oOHZR7pzg5M