18 março, 2014

Desfloras-me
desfloro-te
porque temos flores
um para o outro
o teu ritmo
em mim
sobre mim
tão novo
para mim
é muito antigo
é como o dos animais
ganho a minha virgindade
que te dou
e que não perco
sou sempre virgem
a minha dor
o meu sangue
são a tua dor
o teu sangue

Adília Lopes
Portugal 1960
in “Dobra – Poesia Reunida"
Assirio & Alvim

Construir em Vez de CombaterCreio que uma das atitudes fundamentais do homem humano deve ser a de reconhecer em si, numa falta de compreensão ou numa falta de acção, a origem das deficiências que nota no ambiente em que vive; só começamos, na verdade, a melhorar quando deixamos de nos queixar dos outros para nos queixarmos de nós, quando nos resolvemos a fornecer nós mesmos ao mundo o que nos parece faltar-lhe; numa palavra, quando passamos de uma atitude de pessimista censura a uma atitude de criação optimista, optimista não quanto ao estado presente, mas quanto aos resultados futuros. O mesmo terá já dado um grande passo para impedir os ataques, quando aceitar que só puderam existir porque a sua acção não foi o que deveria ter sido; quando se lembrar ainda de que toda a sua coragem se não deve empregar a combater, mas a construir. 

Agostinho da Silva, in 'Textos e Ensaios Filosóficos'

17 março, 2014


O sentido da vida revelado no amor

O amor é o nosso verdadeiro destino. Não encontramos o sentido da vida sozinhos, e sim com outro. Não descobrimos o segredo de nossas vidas apenas por meio de estudo e de cálculo em nossas meditações isoladas. O sentido de nossa vida é um segredo que nos tem de ser revelado no amor, por aquele que amamos. E, se esse amor for irreal, o segredo não será encontrado, o sentido jamais se revelará, a mensagem jamais será decodificada. No melhor dos casos, receberemos uma mensagem embaralhada e parcial, que nos enganará e confundirá. Só seremos plenamente reais quando nos permitir-nos amar — seja uma pessoa humana ou Deus.

Thomas Merton
Love and Living, de Thomas Merton
Editado por Naomi Burton Stone e Patrick Hart, OCSO
(A Harvest/HBJ Book, Harcourt Brace Jovanovich, San Diego, New York, London), 1985. p. 27

No Brasil: Amor e Vida, (Martins Fontes Editora, São Paulo), 2004. p. 28
in http://reflexoes-merton.blogspot.pt/

Roda (a Saia) dos Alimentos

Cores e sabores da serra e do mar,
pela sua saúde e bem estar!

O que nos alimenta é fruto de uma troca que mantemos com o que nos rodeia, em consciência da importância que esse alimento tem para o nosso bem estar, de modo a nos permitir viver na plenitude do nosso ser. Para além dos alimentos sólidos que nos dá a Mãe Natureza, vivemos de estados energéticos pouco palpáveis que nos permitem assimilar emoções e sentimentos que nos preenchem o outro lado da vida.

A nossa “alimentação” pode melhorar a nossa energia, vitalidade e flexibilidade assim como o nosso bem estar mental e criatividade. O estar bem nutrido permite-nos desenvolver as nossas capacidades intuitivas, instintivas e intelectuais e consente-nos chegar a níveis mais elevados de crescimento espiritual. Relevamos saúde se estivermos em sintonia com o que sentimos, pensamos, dizemos e fazemos, numa consciência e aceitação com o que nos envolve.

O aspeto espiritual da alimentação compreende a escolha, a preparação, a aceitação e o ato de mastigar a comida. O alimento que é selecionado com cuidado, preparado com amor, aceite com gratidão e ingerido com pureza, torna-se um tônico para a alma e para o corpo. O ingrediente básico é a consciência. Onde a consciência é limpa, preenchida com amor e desapego, a comida é purificada e isso também purifica o corpo. Como resultado, a mente torna-se limpa, ficando livre de desejos e da atração aos órgãos dos sentidos. Importa também referir, que nessa escolha, conhecimento é necessário flexibilidade e reajuste a cada momento em que vivemos.

Alimente-se num todo, tirando partido de cada parte. Consuma alimentos saudáveis, de produção biológica e sazonal, com diversidade e de preferência não refinados. Opte por um estilo de vida simples e descontraído, faça desporto, dance, e sobretudo partilhe e dê amor a quem o rodeia.

Temos o livre arbítrio para escolhermos comer e viver como quisermos, mas há uma responsabilidade inerente a cada uma das escolhas que fazemos. Não existem alimentos proibidos mas existe um critério a partir do qual podemos escolher duma forma mais responsável e consciente. A nossa saúde e a felicidade começam em cada um de nós, e as nossas vidas são em grande parte, um reflexo das nossas escolhas e prioridades.

Neste festival pretendemos aos poucos sensibilizar e demonstrar a importância da “alimentação” e dos nossos hábitos de vida para a nossa saúde, bem estar e despertar de consciência.


a.tereso



DANÇA DOS MERIDIANOS


Dançar é celebrar a vida nos seus vários campos, viver em harmonia com a (nossa) natureza que nos envolve.  Dançar é partilhar de nós na nossa verdadeira essência, é criar diálogos com a energia cósmica num movimento fluido, transparente e consciente daquilo que representamos. Dançar é sorrir cada dia e sermos, aceitarmos e fazermos o que vem de dentro de nós. E nós somos energia, importa que ela todos os dias possa fluir como se de uma simples dança se tratasse.
Convidamo-lo então a dançar num todo, conhecendo os vários canais energéticos do nosso corpo, num simples dar de mãos com a dança. Em simples exercícios desenvolver uma maior consciência de quem somos, do nosso corpo, permitindo-nos libertar na dança através da nossa criatividade e inocência.

O projeto tem como objetivo integrar a dança com exercício fluidos de interligação com alguns sistemas de autocura.
Neste caso partindo do conhecimento dos meridianos, pretende-se entrelaçar este conhecimento com o DO-IN, e zonas reflexas do nosso corpo. O DO-IN (de forma muito simples) é uma conhecimento milenar de automassagem e cuja prática estimula a auto cura e neste processo promove a circulação de energia.

O nosso corpo tem centenas de pontos que compõem estes meridianos. Se os estimularmos, mesmo que de forma ténue, conseguimos ativar a energia do nosso corpo. Este processo de conhecimento do nosso corpo também permite fazer uma ligação mais intima entre nós (cabeça) e nós (corpo/emoção).

Reunir este conhecimento numa dança é uma forma descontraída de apresentar estes sistemas e permite uma fácil absorção de conhecimentos. O prazer da dança no contacto com nós mesmos e com outros será refletida no prazer de sermos capazes de cuidarmos de nós mesmos.

Pretende-se então desenvolver uma oficina que entrelace a dança, o movimento  com o conhecimento sensorial do nosso corpo, em formas de expressão, que de certo modo possam ser uma simples terapia de relaxamento e permissão sensorial.

a.torres/ a.tereso

P.s. - Texto de candidatura para para o Andanças 2014. 

14 março, 2014

memória


Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão

carlos drummond de andrade

Desenvolveu-se uma nova repartição no meu coração sem que alguém saiba explicar como e porquê. Desconfio até que já existisse e só agora tenha sido preenchida. Não se assemelha a nenhum ventrículo e a nenhuma artéria. Não dói por estar cheia, nem criava angustia quando estava meio vazia. Não sei se tem nome, mas penso que lhe dei função. Não bombeia sangue, nem armazena, o seu papel não é meramente mecânico. Os meus sonhos cabem nesse espaço e ai os aprendi a armazenar. É pequeno, sequer sonho muito. Um dia se o meu coração parar de bater sei que não vai parar por completo. A energia que tem lá dentro não se acaba, continuará até que se acabe estrelas no céu. Não existe explicação para aquilo que tem o seu lugar. Como veio, poderá um dia ir, sem que seja necessário entender e saber porquê. Esta bolha que tenho cá dentro, pode ser da dimensão do universo, porque poderá ter o mesmo entendimento e pequenez. E sabem, o tamanho das coisas são como nós as vemos, e não mais que isso. O meu universo está nesta pequena repartição que se apoderou do meu coração, e lá cabe tudo quanto eu imagino e sonho. Por mais que eu lá queira por as minhas ilusões, lá não entram por o espaço estar confiado a mim, ao que sou e quero ser. Ser um pouco de cada nada no preenchimento dos vazios que me habitam, e me permitem libertar no despertar do que sinto. Mas mais alguma coisa houvesse para lá deixar, e não teria o que lá mais pôr. A cada vazio um preenchimento, uma bolha de ar que oxigena o sangue que nutre cada célula em mim. Esse espaço é o núcleo do meu ser que me alimenta e transporta para a tua dimensão. Uma outra que só agora descobri mas que preencho a cada noite com vias lácteas de estrelas e com infinitos asteróides para que vejas a imensidão deste planeta que tenho para ti. 

a.tereso