27 abril, 2014


A nudez da palavra que te despe.
Que treme, esquiva.
Com os olhos dela te quero ver,
que te não vejo.
Boca na boca, através de que boca
posso eu abrir-te e ver-te?
É meu receio que escreve e não o gosto
do sol de ver-te?
Todo o espaço dou ao espelho vivo
e do vazio te escuto.
Silêncio de vertigem, pausa, côncavo
de onde nasces, morres, brilhas, branca?
És palavra ou és corpo unido em nada?
É de mim que nasces ou do mundo solta?
Amorosa confusão, te perco e te acho,
à beira de nasceres tua boca toco
e o beijo é já perder-te.


António Ramos Rosa
Portugal (Faro) 1924-2013
in Antologia Poética

25 abril, 2014

BAGAÇO

http://vimeo.com/92419637

VALORES DE ABRIL


Já oiço falar do 25 de Abril à mais de 25 anos. Mas para ser sincero, não sei o que é hoje o 25 de Abril. Tão pouco sei o que é uma Liberdade sem valores, agarrada ao passado, e tão pouco consciente no presente. Se o não sei, é porque não passei por aquilo que quem tem mais de 60 anos viveu e passou antes de 1974. O que sei recebi-o de mão beijada, de herança, da revolução dos cravos, dos valores, dos princípios, de homens e mulheres que talvez hoje já não existam...
Como a ganhámos, perdemo-la tenho ideia. Não sei qual foi o momento e se temos consciência disso. Se até então comandámos o nosso destino, e tínhamos como lema “o povo é quem mais ordena”, a uma dada altura demos a nossa responsabilidade aos outros, para que outros tomassem conta das nossas vidas... “Vendemos a alma ao diabo”, se me permitem!
Creio que foi esse momento que nos fez perder a liberdade. Quando nos acomodamos e nos sujeitamos ao pousio da nossa atitude. Quando o dinheiro europeu nos comprou os princípios e a consciência, e entregamos aos outros a responsabilidade que cabia a cada um assumir. Dêmos a liberdade por nada, e com nada ficamos. Um nada de consciência, de valores, que foi o mote de quem fez a revolução de Abril.
Iludimo-nos com a liberdade, com as auto estradas, com os facilitismos, com os créditos, e com isso ganhámos umbiguismo, comodismo, desinteresse, perda de identidade. Nem tudo são rosas com espinhos, também há cravos. Também houve muitas coisas boas... que nós, que não vivemos o 25 de Abril não conseguimos ter a idea!
Mas deixemo-nos de viver no passado, sobretudo quem o não viveu. É importante recuperar os valores de abril, cultivar uma consciência crítica com atitude e responsabilidade. É importante fazer uma nova “revolução de abril”, ou de maio, ..., mas interior, assente na responsabilidade que cada um tem, perante um todo que nos pertence. Importa recuperar esse comunitarismo, esse entrelaçar de mãos e pensarmos novamente num todo, e não em cada parte. Todos somos responsáveis, e não este e aqueloutro.
É preciso inscrever/ esquecer Abril, e dar um passo em frente. Voltar a assumir a nossa responsabilidade e perceber o que realmente é importante. Deixemo-nos de ilusões políticas e assumimos o nosso papel de cidadãos. Em marcha lenta que se invada as escadarias do parlamento, e nos façamos sentir. Estamos vivos! Temos opinião e queremos inscrever a liberdade, com tudo o que ela implica. O 25 de Abril é aqui e agora, em aceitação e consciência!
Bem haja, a.tereso

24 abril, 2014

“Todos nós queremos, ou precisamos de ser amados. A necessidade de amor é um dos impulsos humanos mais básicos. Podemos cobrir esta necessidade com padrões de auto-proteção ou aparência de auto-suficiência (...) Mas ela está sempre presente seja oculta, seja visivelmente (...) O amor chama-nos de muitas e variadas formas. No entanto, enquanto a maioria das pessoas procura por amor no emaranhado das relações humanas, o místico é atraído para uma profundidade que vai além da superfície - nas palavras de Rumi "voltar à raiz da raiz do teu próprio ser". E aqui nós descobrimos um dos maiores segredos humanos: que a fonte e resposta a esta necessidade primária não está separada de nós, mas faz parte de nossa natureza essencial, do nosso verdadeiro ser.

Citando Rumi: 
“No minuto em que eu ouvi a minha primeira história de amor
Comecei a procurar-te, sem saber
como estava cego.
Os amantes não se encontram finalmente num determinado lugar.
Eles estão um no outro desde sempre”.”


Llewellyn Vaughan-Lee, The Need for Love: Reflections by a Mystic

18 abril, 2014

A primeira condição para libertar os outros é libertar-se a si próprio; quem apareça manchado de superstição ou de fanatismo ou incapaz de separar e distinguir ou dominado por sentimentos e impulsos, não o tomarei eu como guia do povo; antes de tudo uma clara inteligência, eternamente crítica, senhora do mundo e destruidora das esfinges; […]

Hei-de vê-lo depois despido de egoísmos, atento somente aos motivos gerais; o seu bem será sempre o bem alheio; terá como inferior o q
ue se deleita na alegria pessoal e não põe sobre tudo o serviço dos outros; à sua felicidade nada falta senão a felicidade de todos; esquecido de si, batalhará, enquanto lhe restar um alento, para destruir a ignorância e a miséria que impedem seus irmãos de percorrer a ampla estrada em que ele marcha.

Nenhuma vontade de domínio; mandar é do mundo de aparências, tornar melhor de um sólido universo de verdades; […]

Será grato aos contrários, mesmo aos que vêm armados da calúnia e da injúria; compassivo da inferioridade que demonstram fará tudo que puder para que melhorem e se elevem; responderá à mentira com a verdade e ao ódio com o bem; tenazmente se recusará a entrar nos caminhos tortuosos, se o conseguirem abater, tocará com humildade a terra a que o lançaram, descobrirá sempre que do seu lado esteve o erro e de novo terá forças para a luta; e se o aplaudirem pense logo que houve um erro também.


- Agostinho da Silva, “Quanto aos noviços”, Considerações [1944], in Textos e Ensaios Filosóficos I, pp. 119-120.

Este beijo em tua fronte deponho!
Vou partir. E bem pode, quem parte,
francamente aqui vir confessar-te
que bastante razão tinhas, quando
comparaste meus dias a um sonho.
Se a esperança se vai, esvoaçando,
que me importa se é noite ou se é dia...
ente real ou visão fugidia?
De maneira qualquer fugiria.
O que vejo, o que sou e suponho
não é mais do que um sonho num sonho.

Fico em meio ao clamor, que se alteia
de uma praia, que a vaga tortura.
Minha mão grãos de areia segura
com bem força, que é de ouro essa areia.
São tão poucos! Mas, fogem-me, pelos
dedos, para a profunda água escura.
Os meus olhos se inundam de pranto.
Oh! meu Deus! E não posso retê-los,
se os aperto na mão, tanto e tanto?
Ah! Meu Deus! E não posso salvar
um ao menos da fúria do mar?
O que vejo, o que sou e suponho
será apenas um sonho num sonho?


Edgar Allan Poe
USA 1809-1849
in Antologia de Contos e Poemas
Ed. Veja

Mudam-se os Tempos...


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Ref: E se tudo o mundo é composto de mudança,
Troquemo-lhes as voltas que ainda o dia é uma criança.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

Mas se tudo o mundo é composto de mudança,
Troquemo-lhes as voltas que ainda o dia é uma criança.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

Mas se tudo o mundo é composto de mudança,
Troquemo-lhes as voltas que ainda o dia é uma criança.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Mas se tudo o mundo é composto de mudança,
Troquemo-lhes as voltas que ainda o dia é uma criança.


 Luís de Camões e José Mário Branco

https://www.youtube.com/watch?v=tTTdJ5FM1mY