11 junho, 2014

O Amor em VisitaDai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra 
e seu arbusto de sangue. Com ela 
encantarei a noite. 
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher. 
Seus ombros beijarei, a pedra pequena 
do sorriso de um momento. 
Mulher quase incriada, mas com a gravidade 
de dois seios, com o peso lúbrico e triste 
da boca. Seus ombros beijarei. 

Cantar? Longamente cantar. 
Uma mulher com quem beber e morrer. 
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave 
o atravessar trespassada por um grito marítimo 
e o pão for invadido pelas ondas - 
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes. 
Ele - imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento 
de alegria e de impudor. 
Seu corpo arderá para mim 
sobre um lençol mordido por flores com água. 

Em cada mulher existe uma morte silenciosa. 
E enquanto o dorso imagina, sob os dedos, 
os bordões da melodia, 
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue, 
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto. 
- Oh cabra no vento e na urze, mulher nua sob 
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito, 
mulher de pés no branco, transportadora 
da morte e da alegria. 

Dai-me uma mulher tão nova como a resina 
e o cheiro da terra. 
Com uma flecha em meu flanco, cantarei. 
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue, 
cantarei seu sorriso ardendo, 
suas mamas de pura substância, 
a curva quente dos cabelos. 
Beberei sua boca, para depois cantar a morte 
e a alegria da morte. 

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro 
pescoço de planta, 
onde uma chama comece a florir o espírito. 
À tona da sua face se moverão as águas, 
dentro da sua face estará a pedra da noite. 
- Então cantarei a exaltante alegria da morte. 

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela 
despenhada de sua órbita viva. 
- Porém, tu sempre me incendeias. 
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite 
imagem pungente 
com seu deus esmagado e ascendido. 
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura. 
Entontece meu hálito com a sombra, 
tua boca penetra a minha voz como a espada 
se perde no arco. 
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua 
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo 
se desfibra - invento para ti a música, a loucura 
e o mar. 

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso, 
a inspiração. 
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa. 
Vou para ti com a beleza oculta, 
o corpo iluminado pelas luzes longas. 
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos 
transfiguram-se, tuas mãos descobrem 
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça 
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou 
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo - 
eu sou a beleza. 
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem 
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada 
beleza. 

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti 
que me vem o fogo. 
Não há gesto ou verdade onde não dormissem 
tua noite e loucura, não há vindima ou água 
em que não estivesses pousando o silêncio criador. 
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos 
originais. 
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra 
a carne transcendente. E em ti 
principiam o mar e o mundo. 

Minha memória perde em sua espuma 
o sinal e a vinha. 
Plantas, bichos, águas cresceram como religião 
sobre a vida - e eu nisso demorei 
meu frágil instante. Porém 
teu silêncio de fogo e leite repõe a força 
maternal, e tudo circula entre teu sopro 
e teu amor. As coisas nascem de ti 
como as luas nascem dos campos fecundos, 
os instantes começam da tua oferenda 
como as guitarras tiram seu início da música nocturna. 


Mais inocente que as árvores, mais vasta 
que a pedra e a morte, 
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto, 
tinge a aurora pobre, 
insiste de violência a imobilidade aquática. 
E os astros quebram-se em luz 
sobre as casas, a cidade arrebata-se, 
os bichos erguem seus olhos dementes, 
arde a madeira - para que tudo cante 
pelo teu poder fechado. 
Com minha face cheia de teu espanto e beleza, 
eu sei quanto és o íntimo pudor 
e a água inicial de outros sentidos. 

Começa o tempo onde a mulher começa, 
é sua carne que do minuto obscuro e morto 
se devolve à luz. 
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras 
com uma imagem. 
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito 
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade 
uma ideia de pedra e de brancura. 
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves, 
que te alimentas de desejos puros. 
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola, 
a sombra canta baixo. 

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua, 
onde a beleza que transportas como um peso árduo 
se quebra em glória junto ao meu flanco 
martirizado e vivo. 
- Para consagração da noite erguerei um violino, 
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada 
darei minha voz confundida com a tua. 
Oh teoria de instintos, dom de inocência, 
taça para beber junto à perturbada intimidade 
em que me acolhes. 

Começa o tempo na insuportável ternura 
com que te adivinho, o tempo onde 
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde 
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida 
ingénua e cara, o que pressente o coração 
engasta seu contorno de lume ao longe. 
Bom será o tempo, bom será o espírito, 
boa será nossa carne presa e morosa. 
- Começa o tempo onde se une a vida 
à nossa vida breve. 

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna 
salina, imagem fechada em sua força e pungência. 
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado 
em torno das violas, a morte que não beijo, 
a erva incendiada que se derrama na íntima noite 
- o que se perde de ti, minha voz o renova 
num estilo de prata viva. 

Quando o fruto empolga um instante a eternidade 
inteira, eu estou no fruto como sol 
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada 
matriz de sumo e vivo gosto. 
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices 
das nuvens florescem, a resina tinge 
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã. 
E estás em mim como a flor na ideia 
e o livro no espaço triste. 

Se te aprendessem minhas mãos, forma do vento 
a cevada pura, de ti viriam cheias 
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses 
em minha espuma, 
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso? 
- No entanto és tu que te moverás na matéria 
da minha boca, e serás uma árvore 
dormindo e acordando onde existe o meu sangue. 

Beijar teus olhos será morrer pela esperança. 
Ver no aro de fogo de uma entrega 
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus 
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante 
do meu perpétuo instante. 
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face 
se encha de um minuto sobrenatural, 
devo murmurar cada coisa do mundo 
até que sejas o incêndio da minha voz. 

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso 
jovem da carne aspiram longamente 
a nossa vida. As sombras que rodeiam 
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto 
seu bárbaro fulgor, o rosto divino 
impresso no lodo, a casa morta, a montanha 
inspirada, o mar, os centauros 
do crepúsculo 
- aspiram longamente a nossa vida. 

Por isso é que estamos morrendo na boca 
um do outro. Por isso é que 
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento 
da brisa, no sorriso, no peixe, 
no cubo, no linho, 
no mosto aberto 
- no amor mais terrível do que a vida. 

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz 
o perfume da tua noite. 
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua 
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre 
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca 
ao círculo de meu ardente pensamento. 
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam 
sobre o teu sorriso imenso. 
Em cada espasmo eu morrerei contigo. 

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente 
das urzes, um silêncio, uma palavra; 
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua 
vermelha. 
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos, 
casa de madeira do planalto, 
rios imaginados, 
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas 
maravilhosas da noite. Ó meu amor, 
em cada espasmo eu morrerei contigo. 

De meu recente coração a vida inteira sobe, 
o povo renasce, 
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora 
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma 
de crepúsculos e crateras. 
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome 
encanta pela noite equilibrada, imponderável - 
em cada espasmo eu morrerei contigo. 

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se 
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro 
da tua entrega. Bichos inclinam-se 
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando 
contra o ar. Tua voz canta 
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com 
o lento desejo do teu corpo. 
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo 
eu morrerei contigo. 


Herberto Helder, in 'O Amor em Visita'

10 junho, 2014


Os Pêssegos

Lembram adolescentes nus:
a doirada pele das nádegas
com marcas de carmim, a penugem
leve, mais encrespada e fulva
em torno do sexo distendido
e fácil, vulnerável aos desejos
de quem só o contempla e não ousa
aproximar dos flancos matinais
a crepuscular lentidão dos dedos.


Eugénio de Andrade
O passado é uma memória, é um pensamento que surge no presente.
O futuro é apenas uma antecipação, é outro pensamento que surge no agora.
O que verdadeiramente temos é este momento, só isso.
Passamos a maior parte de nossas vidas esquecendo esta verdade, fugindo dela, olhando por cima dela.
E o horror é que temos sucesso nisso.
Conseguimos nunca nos conectar com o momento presente e encontrar a satisfação aqui e agora, porque estamos sempre com a esperança de ser feliz no futuro.
E o futuro nunca chega.
Mesmo quando pensamos que estamos no momento presente, de forma muito sutil, muitas vezes estamos olhando por cima dele, antecipando em nossas mentes o que está por vir.
Estamos sempre buscando a solução de um "problema".
E é possível simplesmente deixar o problema, seja que só por um momento e aproveitar o que é real na sua vida no presente.
Esta não é uma questão de novas informações ou obter mais informações, ela exige uma mudança de atitude.
Isso requer uma mudança na atenção à sua experiência no momento presente.


Fonte: Livro 'O Poder do Agora'
Eckhart Tolle

Um homem que ama é puro ainda que possa ser sexual

"O homem intelectual, cheio de conhecimentos – o conhecimento é diferente da sabedoria -, o homem que tem esquemas, que quer salvar o mundo, que está cheio de conceitos, de projeções mentais, esse é o homem que está preso no sexo. Por causa da superficialidade de sua vida, do vazio de seu coração, o sexo se torna importante; e isso é o que está acontecendo na presente civilização. Temos cultivado excessivamente o nosso intelecto, e a mente se encontra presa em suas próprias criações, tais como o rádio, o automóvel, os entretenimentos mecânicos, o conhecimento tecnológico e aos diversos hobbies aos quais a mente se entrega. Quando uma mente se acha assim presa, para ela existe somente um alivio: o sexo. Senhores, observem o que ocorre com cada um de vocês, não olhem para outra pessoa. Ela é árida, vazia, opaca, tediosa, não é assim? Recorrem aos seus serviços, desempenham tarefas, repetem seus mantras, praticam seus rituais. Quando se encontram no serviço, estão submetidos, embotados, são obrigados a seguir uma rotina; em sua religião, se tornam mecânicos, aceitam meramente a autoridade.

Assim, religiosamente, no mundo dos negócios, na sua educação, na sua vida cotidiana, o que de fato ocorre? Não existe um estado de ser criativo, não é verdade?Não são felizes, não possuem vitalidade, não são pessoas alegres. Tanto no intelectual como no religioso, econômico, social e político, estão embotados, regimentados, não é assim? Essa regimentação é o resultado de seus próprios temores, de suas próprias esperanças e frustrações; e posto que para uma ser humano tão atrapalhado não há liberação possível, é natural que recorra ao sexo para liberar-se; ali pode dar-se o gosto, ali pode buscar a felicidade. Deste modo, o sexo se torna automático, habitual, rotineiro; e isso também chega a ser um processo embotador e nocivo. De fato, essa é a vida de vocês; verão que é assim se a consideram, se não tratam de se iludir, de buscar por mecanismos de fuga. O fato real é que não são criativos. Podem engendrar criaturas, inumeráveis criaturas, porém, isso não é uma ação criativa, é uma ação acidental da existência. 

Portanto, uma mente que não é alerta, vital, um coração que não é afetuoso, pleno, como pode ser criativo? E, ao não serem criativos, vocês buscam estímulo por meio do sexo, do entretenimento, dos cinemas, teatros, observando como outros interpretam enquanto vocês permanecem como meros expectadores; outros pintam a paisagem ou dançam, e vocês não são mais do que observadores. Isso não é criação. Assim mesmo, no mundo são impressos tantos livros porque vocês tão somente lêem. Não são criadores. Onde não há criação, a única liberação é mediante ao sexo, e então, convertem suas esposas em prostitutas, Senhores, vocês não tem idéias das implicações, da perversidade, da crueldade de tudo isto. Se é que se sentem incomodados. Não pensam sobre isso. Fecham suas mentes; em conseqüência, o sexo se tornou um imenso problema na moderna civilização: ou a promiscuidade ou o hábito mecânico doa Lívio sexual no matrimonio. O sexo continuará sendo um problema, no entanto não há um estado criativo do ser. Vocês podem usar o controle da natalidade, podem adotar diversas práticas, porém, não estão livres do sexo. A sublimação não é liberdade, nem o é a repressão nem o controle. Existe liberdade somente quando há afeto, quando há amor. O amor é puro e, quando falta o amor, tratar de nos tornar puros mediante a sublimação do sexo é mera estupidez. O fator purificante é o amor, não o nosso desejo de ser puros. O homem que ama é puro ainda que possa ser sexual; e sem amor, atualmente o sexo é o que é em suas vidas: uma rotina, um processo desagradável, algo para ser evitado, ignorado, para prescindir dele para comprazer-se nele." 

OBRAS COMPLETAS, Volume V – Bangalore, 8 de agosto de 1948
j. krishnamurti

09 junho, 2014


Conseguir:
Unir a alma e o espírito em uma unidade inseparável
Ter o sopro maleável de uma criança
Polir a visão interior até torná-la sem mácula
Amar os homens e reger o estado sem-agir
No abrir e fechar da porta do céu ser como a fêmea de um pássaro
Penetrar nos quatro quadrantes sem saber.
Gerar e criar
Gerar e não possuir
Agir sem depender
Presidir e não controlar.
Eis a vida secreta.

Dao De Jing

04 junho, 2014

DIVINA MÃE 

Ao tocar minhas mãos
me presenteou com a cura 
e abriu as portas para a Verdade.
Ao sorrir
me uniu ao seu amor
e nos tornamos um só coração.
Com um único olhar
tomou meu Ser

e revelou a Presença que EU SOU!

Agora,
EU SOU amor, sabedoria e poder divino
EU SOU a Luz e Unidade Divina
EU SOU gratidão!

Eu sou o que EU SOU,
... UM!


Vishuddha Prakriti

Dança Balança Europeu e Nacional


um jogo de cadeiras, um jogo de poder

Venho por este meio fazer um balanço das ultimas eleições europeias, e perspetivar as próximas eleições legislativas.
Atualmente verifico o que outrora se apelidou de Decadentismo Europeu, pela fragmentação que se evidência a nível estratégico, económico e social na Europa. Há cada vez mais desemprego, subjugação e pobres (de barriga e espírito), isso leva a que partidos extremistas ganhem evidência e poder nos seus países, com os seus programas nacionalistas, estratégias extremistas de apoio ao emprego, semicerrando-se em si e ao mundo. Os partidos do poder, apesar de o manterem, deixam aos poucos a sua supremacia, evidenciando algum nervosismo, pelo surgimento de novos partidos e (novas) forças políticas.
Surge também com maior expressão os partidos ecológicos/ verdes, com ideias arejadas e com estratégias ajustadas a um novo mundo globalizado e consumista, que se esquece de viver em comunidade, com princípios comuns e harmonia com a (sua) Natureza. Importa perceber a aplicabilidade dessas ideias, e a capacidade desses partidos em colocar em prática essas estratégias.
Creio que parte desse decadentismo se deve à classe que ocupou/ ocupa o setor político. Na origem da democracia, e nem sempre assim era, quem assumia a RESPONSABILIDADE política eram individualidades com experiencia e provas dadas na sociedade que assumiam esse papel pelos seus valores e práticas. Essas individualidades, apesar de nem sempre o fazerem na sua plenitude, defendiam um bem comum, através de uma estratégia imparcial e idónea. Mas esses princípios já não regem os políticos e quem faz política, e o governo é em seu interesse e não sob o lema do interesse comum.
A verdade é que já poucos sabem quais são os seus verdadeiros interesses, iludindo-se e esquivando-se das suas responsabilidades enquanto cidadãos, delegando a outros o poder que lhes cabe. A abstenção é um não partido, que a cada votação ganha mais força, e que se apela que resolva o que cada um pode resolver. Importava dar expressão aos votos em branco e nulos, para averiguar a veracidade da abstenção e perceber se o desinteresse era pela política ou na falta de ideias e estratégias da classe política. A este respeito existe medo.
O que se passa a  nível interno é o que se passa na generalidade dos países (sobretudo os latinos). A classe política vive para a oposição, o não confronto de ideias e soluções. Política do “bota a baixo”, do “eu faço diferente”, “as tuas ideias não servem”, “quando para ai for faço melhor e diferente”, ect..

Nestas eleições europeias o partido que proclamou vitória foi o que mais perdeu, pela sua arrogância e falta de verdade, terminando numa crise interna e de valores políticos no seio do seu partido. A meu ver este resultado indica que o PS é visto com reticências para assumir a governação do país, e isso é uma grande derrota. Mas houve mais derrotados. O partido do (des)governo, apesar da aliança e do programa delineado para o país, sai com uma derrota amena pois quase obteve um empate percentual com o partido vencedor. O PSD nunca sozinho tinha obtido tão pequena percentagem (inf.30%), e tendo concorrido em aliança com o CDS-PP não chegou a obter essa percentagem. Foi uma grande derrota para ambos os partidos da coligação, mas que passa despercebida não tendo o PS atingido uma vitória esmagadora. Importa perceber o que irá acontecer no futuro. O voto útil nestas eleições ficou numa individualidade que não tem medo de falar, e diz o que o que se quer ouvir. Importa perceber se com o tempo não cairá no mercantilismo partidário e ficará sem voz.
Importa perspetivar as próximas legislativas, e tecer algumas reflecções sobre o que se passou nestas europeias. É certo que estes atos eleitorais são distintos, mas percebe-se que se as legislativas fossem hoje, existiria quase um empate entre as forças habituais do poder PSD e PS, e que a governabilidade só era possível com entendimento e dialogo entre partidos.
É muito possível que os partidos da coligação (PPD-PSD e CDS-PP) não irão concorrer às legislativas como aliança, para não perderem votos, e o PS irá ter um novo líder, que transmita mais confiança e capacidade de liderança, de modo a alterar este panorama político de desgovernação futura por não entendimento e falta de maioria política.
Creio que a solução é o diálogo interpartidário e isso deve de uma vez por todas acontecer. Mas não só entre partidos habituais do poder, com vícios e doenças que não tem cura. Importa dar expressão a novos partidos que surgiram ou possam surgir, com novas ideias e valores, para que a classe política vigente possa entender que é tempo de mudar, e de criar diálogos entre partidos, para que num todo se crie uma estratégia em conjunto de governabilidade, com responsabilidade e diálogo critico.
Importa neste tempo que ainda falta, cada um criar o seu partido, fazer uma avaliação do seu estado, dos seus objetivos, de modo a perceber que estratégia quer para este mundo em mudança. A mudança começa em cada um de nós, assumindo as suas responsabilidades, e deixando de lado o umbiguismo, partido que se apoderou de todos nós, e que não nos permite viver em liberdade e consciência com a (nossa) natureza. A política somos nós, e nós é que fazemos política! 
a.tereso