19 junho, 2014

COZINHAR A UMA SÓ MÃO

Cozinhamos a uma só mão para que a energia se concentre e disperse pelos alimentos.

Parte de nós mistura-se com o paladar do desejo e com os olhares de ternura que se trocam 
com o chorar da cebola. 

Não ligamos à receita, pois a criatividade vive em nós e não permite o simples corte dos sentidos. Sente-se e deixamo-nos ir pelo cheiro do estrugido.

Coloca-se o millet e deixamo-lo voar no calor do nosso corpo. Adicionamos água para que a energia flutue e nos leve para outro sítio. Levanta-se a fervura! Venha o sal, para que a nossa vida ganhe mais sabor. Sabor de mar e de quem navega pelos sonhos. 

Mexe-se mais uma vez, a uma só mão. Sinto-te em mim! 

Fecha-se a panela, abre-se o coração e esperamos por 10 min. na surpresa do que possa dai surgir. Desliga-se o lume sem nada esperarmos. Assim fica por um pedaço enquanto nos arrumamos. Está pronto a servir. Hum, soltinho como queríamos. 

Damo-nos a provar e saboreamo-nos numa só boca.

a.tereso
(12 de Novembro de 2013)



18 junho, 2014


Quantas voltas tem a dança em tantas voltas contadas?
Um segredo de criança escondido em mil gargalhadas
Tantas mãos que foram dadas na ternura de um abraço
Quantas vontades caladas na volta meiga de um passo

Quantas horas de viagem na alegria de te ver
Quanta falta de coragem, tanta coisa por dizer
E acabamos a esconder vá-se lá saber porquê
Nestas coisas do querer os sinais são para quem os lê
...
Faz de conta que o poente acontece a qualquer hora
Quando a noite se faz quente e um beijo se demora
Já o frio se foi embora ao tocar da tua mão
Que há-de ser de nós agora faz sentido sim ou não

Dá-me uma dança, faz-me acreditar
Uma lembrança p’ra eu levar
Que eu tenho sempre vontade de voltar e te dizer
Se ainda der p’ra disfarçar
Ensina-me a dançar

É a valsa do começo, é a vida a esvoaçar
É a pele a soltar um arrepio
É uma cor que eu não conheço, um sabor de acreditar
É uma praia cor de um desafio
...
Dá-me uma dança, faz-me acreditar
Uma lembrança p’ra eu levar
Que eu tenho sempre vontade de voltar e te dizer
Se ainda der p’ra disfarçar
Ensina-me a dançar
Ensina-me a dançar
Ensina-me a dançar



Não sei como consigo
amar-te tanto
se querer-te assim na minha fantasia
é amar-te em mim
e não saber já quando
de querer-te mais eu vou morrer um dia
perseguir a paixão até ao fim é pouco
exijo tudo até perder-me
enquanto, e de um jeito tal que desconhecia
poder amar-te ainda
um outro tanto

Maria Teresa Horta, in “Inquietude” quasi (06)

17 junho, 2014




Convido-te a habitar no Amor. Deixa de me vires visitar só pela noite. Quero-te no meu despertar, no meu dia a dia. Pega nas tuas coisas, resolve o teu passado e vem sem medo. Vem em ti e junta os teus fragmentos de medo com os meus. Misturamo-los e fazemos um só coração, com um único bater. Não ligues à desarrumação e ao recheio. São muitos anos de porta aberta à espera que chegues. Apesar de arrumar todas as semanas a casa é como se ela estivesse sempre por arrumar. Tens espaço para as tuas coisas e partilho tudo de mim contigo. O sótão ficará para nos amarmos a ver as estrelas ou a ouvir chover. Quero-te comigo em todas as estações. A minha casa é pequena, mas fica do tamanho dos nossos sonhos. A chave já tu a tens, quando entrares manda-a pela janela. 

a.tereso
(junho de 2013)
Algo que escrevi com pureza e sentimento, fez nestes dias um ano. E por incrível que pareça o que me fez despontar estas palavras, voltou a surgir sem que o tempo e o sentimento o fizessem prever. Algo simples e livre que nos permite ser, seres reais e sentimentais em sintonia com a imensidão do mar. Sinto-me pequeno perante o inatismo dos sentidos... 

DIÁRIO DE UMA PAIXÂO

Procuro o teu perfume, teu ombro, tua mão no respirar momo das casas.
Revolvo-me no branco dos lencóis, como o mar se revolve contra as parades, em maré viva.
O sopro de teu sono humedece-me o peito Manhã confusa nevoenta luz
onde se quebra o pesadelo. Procuro-te, peixe alucinante, no fundo lodoso de mim.
O dia nasce com um travo de sol frio, e dum lado para o outro, dentro do exíguo quarto.
O ténue tecido das cortinas separa o sonho vivido em ti da cidade há muito acordada.
Prolongo esse instante de ilusão, espio o teu corpo desesperadamente nu.
No espelho já não sei quem sou. Adivinho-te, paro o olhar naqueles olhos-reflexo
para me lembrar dos teus. Dentro do espelho apareceu então a lívida pele do tempo
que nos separou. Uma flor áspera cresce nos lábios, exterminadora. E na manhã mole
das flores minerais, sem forças nem esperma, meu corpo aproxima-se do mortal eclipse.
Mil partículas fosforescentes explodem convulsivas. Convulsiva borboleta do cio.
De novo o teu perfume de essência rara, álcoois nocturnos, mão, minha mão sozinha e nua
prolongando-se em forma de caroço. Palpável zinabre absorvido em espasmo lúcido, furioso.
Latejando no estilhaço cristalino da paixão, segregado no silêncio iminente da morte.
Desço as escadas, abro a porta com a solidão terrível de sonâmbulo na boca.
Compro o jornal, cigarros, o céu abre-se gelado por cima da sórdida teia dos arranha-céus.
O café, estremeço num amargor que evoca novamente a tua ausência.


Al Berto
(Portugal 1948-1997)
in O Medo

VERTIGEM
Quando sob o meu
está o teu corpo
e eu nado dentro
do desejo e enlaço

os teus ombros as ancas
e o dorso
enquanto o espasmo se faz
num outro abraço

Desprendo a boca
depois
no grito solto
 
Mordo-te os pulsos
ambos
no orgasmo

Volto ao de cima
da água
do meu gosto

Bebo-te a vertigem
e em seguida o hálito


in «366 Poemas que falam de amor», por Vasco Graça Moura,
Ver Ref.s em Livros de Apoio

16 junho, 2014

e só agora penso:

e só agora penso:
porque é que nunca olho quando passo defronte de mim
                                                                     mesmo?
para não ver quão pouca luz tenho dentro?
ou o soluço atravessado no rosto velho e furioso.
agora que o penso e vejo mesmo sem espelho?
─ cem anos ou quinhentos ou mil anos devorados pelo
                                  fundo e amargo espelho velho:
e penso que só olhar agora ou não olhar é finalmente
                                                               o mesmo

herberto helder
a morte sem mestre
porto editora
2014