05 julho, 2014

Superai-me, ó homens superiores, as pequenas virtudes, as mesquinhas prudências, os escrúpulos ínfimos como grãos de areia, a agitação própria de formigas, o contentamento deplorável, a felicidade da maioria! E mais vale desesperardes do que render-vos. E, em verdade, gosto de vós, porque não sabeis viver nos dias de hoje, ó homens superiores. É por isso mesmo que viveis…da melhor maneira! — NietzscheAssim Falou Zaratustra

Na vasta produção literária de Nietzsche, o poema filosófico Assim Falou Zaratustra é geralmente considerado como obra fundamental para qualificar a complexa personalidade do apaixonado filósofo. Os princípios de um credo nietzschiano encontram aqui, mais do que em qualquer outra obra, a sua expressão num estilo vigoroso que ora lembra a solenidade dos profetas bíblicos, ora recorda a contundência cáustica e a mordacidade dos enciclopistas. Na figura de Zaratustra, Nietzsche procura delinear o novo tipo de homem a que aspirava. Zaratustra é, de facto, o indivíduo que, tendo passado através de todas as experiências, se encontra «para lá do bem e do mal» e está decidido a tornar-se senhor absoluto das suas próprias paixões, seguindo a moral criadora de um «eu» divinizado. 




http://educaterra.terra.com.br/voltaire/artigos/nietzsche_ultimo2.htm

“Vós dizeis-me: “A vida é uma carga pesada”. Mas, para que é esse vosso orgulho pela manhã e essa vossa submissão, à tarde?
A vida é uma carga pesada; mas não vos mostreis tão contristados. Todos somos jumentos carregados.
Que parecença temos com o cálice de rosa que treme porque o oprime uma gota de orvalho?
É verdade: amamos a vida não porque estejamos habituados à vida, mas ao amor.
Há sempre o seu quê de loucura no amor; mas também há sempre o seu quê de razão na loucura.
E eu, que estou bem com a vida, creio que para saber de felicidade não há como as borboletas e as bolhas de sabão, e o que se lhes assemelhe entre os homens.
Ver revolutear essas almas aladas e loucas, encantadoras e buliçosas, é o que arranca a Zaratustra lágrimas e canções.
Eu só poderia crer num Deus que soubesse dançar.
E quando vi o meu demônio, pareceu-me sério, grave, profundo e solene: era o espírito do pesadelo. Por ele caem todas as coisas.
Não é com cólera, mas com riso que se mata. Adiante! matemos o espírito do pesadelo!
Eu aprendi a andar; por conseguinte corro. Eu aprendi a voar; por conseguinte não quero que me empurrem para mudar de sítio.
Agora sou leve, agora vôo; agora vejo por baixo de mim mesmo, agora salta em mim um Deus”.
Assim falava Zaratustra.”

~ Friedrich Nietzsche, em “Assim Falou Zaratustra” (capítulo “Ler e Escrever”)
espera

Dei-te a solidão do dia inteiro,
Na praia deserta, brincando com a areia,
No silêncio que apenas quebrava a maré cheia
A gritar o seu eterno insulto,
Longamente esperei que o teu vulto
Rompesse o nevoeiro.

sophia de mello breyner andresen
obra poética I
dia do mar 1947
caminho
1999

04 julho, 2014

as amoras

O meu país sabe às amoras bravas
no verão.    
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

eugénio de andrade
Todo o teu amor
Eu vi de longe
De longe, de longe
Dava pra sentir o teu encanto
Eu juro, eu juro
Meu amor é teu
Mas dou-te mais uma vez
Meu bem
Saudade é pra quem tem
(..)
Marcelo Camelo
https://www.youtube.com/watch?v=URD3-bID9d8
Ao longo da minha experiência foi-me dado observar o comportamento das pessoas, e com isso fiz romances. Eles ficam, no entanto, muito aquém do que aconteceu, porque há uma coisa que se chama a timidez da alma, e o que nos é revelado pode ser-nos proibido também.


Agustina Bessa-Luís

03 julho, 2014




Obra-prima do escritor francês Boris Vian, A espuma dos dias faz uso de imagens poéticas e surreais para apresentar um universo absurdo. Trata-se da história dos amigos Colin, Chick, Nicolas, Chloé, Alise e Isis, que vivem em Paris num ambiente repleto de referências ao jazz e ao existencialismo dos anos 1950.
Colin, um jovem muito rico, se apaixona por Chloé e gasta toda a sua fortuna em flores para tratar justamente da flor que cresce no pulmão de Chloé e ameaça matá-la. A angústia de Colin ao tentar salvar sua esposa acaba por deformar tudo a sua volta. 
Chick, grande amigo de Colin, se casa com Alise, mas parece mais preocupado com sua fixação pelo filósofo Jean Sol Partre, o que leva sua mulher à loucura. Nicolas, o chef de cozinha de Colin, vive aventuras ao apaixonar-se por Isis, amiga de Chloé e Alise.
A doença de Chloé, que progride conforme avança a leitura do romance, contamina o clima da história: o que de início era belo, claro e iluminado vai se tornado sombrio, triste e fúnebre. A leitura revela-se profunda sobre a vida e o amor, mesmo que sob uma aparente ingenuidade e simplicidade.
O Ameaçado


É o amor. Terei de esconder-me ou fugir.
Crescem os muros do seu cárcere, como um sonho atroz.
A formosa máscara mudou mas como sempre é a única.
De que me servirão os meus talismãs: o exercício das letras,
a vaga para cantar os seus mares e as suas espadas, a serena
amizade, as galerias da Biblioteca, as coisas comuns, os
hábitos, o jovem amor da minha mãe, a sombra militar dos
meus mortos, a noite intemporal, o sabor do sonho?

Estar contigo ou não estar contigo é a medida do meu tempo.
Já o cântaro se quebra sobre a fonte, já o homem se levanta
à voz da ave, já se escureceram os que olham por detrás das
janelas, mas a sombra não trouxe a paz.
É, já sei, o amor: a ansiedade e o alívio de ouvir a tua voz,
a espera e a memória, o horror de viver no sucessivo.

É o amor com as suas mitologias, com as suas pequenas
magias inúteis.
Há uma esquina pela qual não me atrevo a passar.
Já os exércitos me cercam, as hordas.
(Esta habitação é irreal; ela não a viu.)
O nome de uma mulher me denuncia.
Dói-me por todo o corpo uma mulher.


Jorge Luis Borges
Argentina; Buenos Aires 1899
Suiça; Genebra 1986
in  Obra Poética
Editor: Quetzal