09 julho, 2014


Gostava deste fim de semana te convidar para ir tomar um café. Nada mais que trocar uns beijos e uns olhares. Sou sincero. O café é um pretexto. Nem sequer necessitamos de entrar. Pudemos ficar por um qualquer jardim. Quero mesmo é sentir-te mais perto. Poder tocar-te, acariciar-te. Sem dizer uma palavra sequer para não complicar o que é simples. Não fazer promessas, não criar ilusões, não emaranhar. Ser simples. Fazer como os jovens de hoje. Primeiro fazer e se der tempo depois pensa-se no que se faz. O meu problema é pensar demais. Querer imaginar o que vem a seguir. Dai este meu convite. Uns beijos primeiro, troca de essências e não pensar no que possa vir depois. E ficar por ai. Não preciso de mais. Assim temos pretexto para outro café. Para voltar a repetir e ir acrescentando qualquer coisa. Por exemplo uns sorrisos. Dar-nos aos poucos, para saborearmo-nos a cada momento. Sem pressa, sem ansias, sem medos. Uma descoberta na plenitude do tempo. A paixão é isto e talvez mais. Deixar-nos ir. Viver o momento e senti-lo de todas as maneiras, como se esses instantes fossem os mais importantes das nossas vidas. E são, independente do que venha a seguir. A felicidade é o agora. Aha. Lembrei-me não tomo café, pode ser um chá?

a.tereso

Quase nada 

O amor
é uma ave a tremer
nas mãos de uma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz.

Eugénio de Andrade, Poemas

No delinear de uma mazurca,
o diálogo de dois corpos que se saboreiam
na natureza dos sentidos.

Instante, prolongado pela partilha
de suores e olhares,
e pelo desejo de não haver fim.

Trago-te em mim,
e a simplicidade do acaso,
faz com que continue a dançar.

28-06-11
(A primeira mazurka que eu senti que na realidade a estava a viver e dançar, deu origem nesta forma de expressão. Foi no meu primeiro raiz de aldeia, com uma pessoa especial... Ambos pouco sabíamos dançar, mas a dança por vezes é mais que isso!

08 julho, 2014

ESTA NOITE MORRERÁS

Quando a lua vier tocar-me o rosto
terás partido do meu leito
e aquele que procurar a marca dos teus passos
encontra urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
Esta noite morrerás.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
terás partido do meu leito
e uma gota de sangue ressequido
é a marca dos teus passos.
No coração do tempo pulsa um maquinismo ínscio
e na casa do tempo a hora é adorno.
Quando a lua vier tocar-me o rosto a tua sombra extinta marca
o fim de um eclipse horário de uma partida iminente e o tempo
apaga a marca dos teus passos sobre o meu nome.
Constante.
O mar é isso.
A lua vir tocar-me o rosto e encontrar urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
O mar é tu morreste.
O mar é ser noite e vir a lua tocar-me o rosto quando tu par-
tiste e no meu leito crescem folhas sangue.
A febre é uma pira incompreensível como a aparição da lua
e a opacidade do mar.
No meu leito a lua vai tocar-me o rosto e a tua ausência é um
prisma, um girassol em panóplia.
Agora a lua chega devagar e o mar é o leito de tu teres
partido, uma infrutescência de eu procurar a marca dos teus
passos por sobre o meu rosto.
A noite é eu procurar a marca dos teus passos.
Esta noite a lua terá um halo de concêntricas florações
de gotas do teu sangue e a irisada sombra do meu leito
é o teu rosto iminente.
A lua é uma seta.
Tu partiste é o silêncio em forma de lança.
Esta noite vou erguer-me do meu leito e quando a lua vier
tocar-me o rosto vou uivar como um lobo.
Vou clamar pelo teu sangue extinto.
Vou desejar a tua carne viva, os teus membros esparsos,
a tua língua solta.
O teu ventre, lua.
Vou gritar e enterrar as unhas nos teus olhos até que
o mar se abra e a lua possa vir tocar-me o rosto.
Esta noite vou arrancar um cabelo e com a tua ausência faço
um pêndulo para interrogar a lua por tu teres partido e a marca
dos teus passos ser a razão mágica de a lua poder surgir de
noite e urtigas crescerem no meu leito.
E se encontrar a marca dos teus passos vou crivar-lhe
o coração de alfinetes para que tu partiste seja a razão
mágica de tu poderes morrer-te.
Quando a lua vier em forma de lança vai trespassar um pássaro
para lhe ler nas entranhas a direcção tu partiste e a marca dos
teus passos consiste nos olhos abertos de um pássaro esventrado.
Ah, mas o luar é uma pluma do meu leito e a lua é o colo de
tu morreste para poderes enfim tocar-me o rosto.


Ana Hatherly
Portugal (Porto) 1929
in Poemas de Amor
Antologia de Poesia Portuguesa

Há momentos na vida

Há momentos na vida em que sentimos tanto
a falta de alguém que o que mais queremos
é tirar esta pessoa de nossos sonhos
e abraçá-la.

Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que se quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.

As pessoas mais felizes
não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor
das oportunidades que aparecem
em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passam por suas vidas.

O futuro mais brilhante
é baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida
quando perdoar os erros
e as decepções do passado.

A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar
duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar
porque um belo dia se morre.

Clarice Lispector 

07 julho, 2014

Senti uma vontade violenta de me desmoronar em ti. Não, não era fazer amor. Fazer amor não existe, porra, o amor não se faz. O amor desaba sobre nós já feito, não o controlamos – por isso o sistema se cansa tanto a substituí-lo pelo sexo, coisa gráfica, aparentemente moldável. Também não era foder, fornicar, copular – essas palavras violentas com que tentamos rebentar o amor. Como se fosse possível. Como se o amor não fosse exactamente essa fornicação metafísica que não nos diz respeito – sofremos-lhe apenas os estilhaços, que nos roubam vida e vontade. Eu queria oferecer-te o meu corpo para que o absorvesses no teu. Para que me fizesses desaparecer nos teus ossos. Eu, educado no preceito alimentar de que os rapazes comem as raparigas, depois de uma vida inteira de domínio dos talheres queria agora ser comido por ti. Queria entregar-me nas tuas mãos.

in "Fazes-me falta" de Inês Pedrosa

O amor é a arte de encontrar no rosto do outro o espelho dos nossos sonhos.
Sonho. Não Sei quem Sou

Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento, 
Minha alma não tem alma.
Se existo é um erro eu o saber. Se acordo
Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.
Não tenho ser nem lei.
Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme inconsciente de alheios corações,
Coração de ninguém.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"