28 julho, 2014

Não Sei Falar De Amor

(...)
E soubesse eu artifícios
de falar sem o dizer
não ia ser tão difícil
revelar-te o meu querer...
A timidez ata-me a pedras
e afunda-me no rio
quanto mais o amor medra
mais se afoga o desvario...
E retrai-se o atrevimento
a pequenas bolhas de ar...
E o querer deste meu corpo
vai sempre parar ao mar...
Oh vizinho e a novela?,
será que ele ficou com ela?
e eu não sei falar de amor...
Oh vizinho e o respeito?
não se leva nada a peito...
e eu não sei falar de amor...
refrão
Oh vizinho então Adeus
vou cuidar de sonhos meus
que eu não sei falar de amor...
DEOLINDA
O Silêncio

Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando castanhos irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas


eugénio de andrade

27 julho, 2014


Aquelas crianças que várias vezes Fernando Pessoa apontou como a melhor coisa que há no mundo, aquele Menino eternamente criança e humano que era Alberto Caeiro o Deus verdadeiro e supremo que faltava no universo, a essas diariamente as sacrificam as nossas escolas, diariamente as crucificam, diariamente as imolam nas aras da Eficiência. O que permitiu à Europa dominar Portugal, chegando ao extremo de lhe apresentar o que há de mais estrangeiro, de mais alheio à índole nacional como inteiramente nacionalista, foi o pecado de ter levantado como valores supremos de vida humana os do adulto, o saber, o trabalho e aquela separação de sujeito-objecto que permite a filosofia, a ciência e a técnica. A Europa se vendeu ao Diabo e o dinheiro que nisso ganhou lhe serviu para comprar Portugal.
E comprando-o, destruiu o último refúgio que ainda poderia haver no mundo para as qualidades infantis, que se deveriam conservar até à Morte como qualidades distintivamente humanas, as da imaginação, em vez do saber, do jogo, em vez do trabalho, da totalidade, em vez da separação; são essas e não as outras as que têm demonstrado os grandes criadores de ciência, os grandes artistas, ou os grandes políticos.
Agostinho da Silva, Um Fernando Pessoa, 1959.

Este Seu Olhar


Este seu olhar quando encontra o meu
Fala de umas coisas
Que eu não posso acreditar
Doce é sonhar, é pensar que você
Gosta de mim como eu de você
Mas a ilusão quando se desfaz
Dói no coração de quem sonhou
Sonhou demais, ah! se eu pudesse entender
O que dizem os seus olhos
Tom Jobim

26 julho, 2014


A Singer e o Sorriso da Maria Felicidade!
Em pequeno fazia trinta por uma linha á minha mãe, e mesmo agora ando sempre com a bainha descosida. Sempre fui irrequieto, mas muito atento ao que se passa em meu redor. Desde cedo mantive uma relação muito próxima com a minha avó Conceição, mais conhecida por Sra. Maria Felicidade. Neste cose e descose da vida, em zig zag, por pontos ou somente alinhavada, surgem várias heranças. Uma que acabo de restaurar é a Singer da minha avó. Pouco sei da história dela, mas sei que terá mais de 100 anos pelo seu n.º de série, pelas dedadas e desgaste que a envolvia. Serviu ela para que a minha avó cosesse a sua vida. Apesar de andar mal alinhavado e cosido, com a vida aos retalhos esta Singer veio dar-me a agulha que procurava no palheiro.
Queres ficar com alguma coisa da avó? Não, respondi perentoriamente. Após alguma insistência disse que a ficar era com a manta de retalhos e a máquina de costura. Chegou a mim por um simples pedido. Como chegam a mim por vezes recordações e sorrisos em pequenos gestos diários. As pequenas coisas. Ora vejamos. Quando tenho pão duro lembro-me das sopas de pão com café de cevada que me fazia, com umas valentes colheradas de açúcar amarelo. Ou as misturadas (sopa de feijão) que comia á sexta feira. Era dia sagrado, não havia sexta feira que não se comesse! Era tudo da horta, cuidado pelo meu avó Toino. Via-as crescer. Ainda hoje a minha parte favorita do pão é a mama e quando a como o meu pensamento foge para as brindeiras que ela me dava quando fazia pão. Não a largava enquanto não comesse uma. Já era persistente em pequeno!
Posso ter ficado com a Singer, a minha avó pode nem sempre se lembrar de mim quando a visito no lar, e sei que um destes dias poderá partir, mas o seu sorriso e tudo o que está nele é a maior herança com que eu fiquei. Guardo-as numa gaveta que ela trazia e no meu coração. Este sorrisos que vos deixo é parte de mim e da minha avó Felicidade. A Singer é o que menos importa, anda de mão em mão a coser histórias e vidas...
a.tereso


Poderia dizer-te que começo a sentir um fraquinho por ti! 
Mas na intermitência das palavras poderá ser esse diminutivo pouco expressivo perante o que nasce cá dentro. Uma sementinha que se desenvolve com cada palavra escrita e não dita. Talvez seja então mais que um fraquinho, algo vivaz e enraizado. Um sentido de descoberta, mais que uma simples aventura, um querer consciente e presente. Um nada de tudo o que sou, perante o tudo que és. Não sei como veio e por que caminhos palmilhou. Isso não importa. As flores silvestres espalham-se com o vento e enraízam para dar flor. A vida é para ser vivida, e sentida também. A razão só atrapalha o coração. Assumo-o, é algo mais forte para ser tratado por um diminutivo, ou uma expressão curriqueira. Os sentimentos não são curriqueiros. Ou até são nos dias de hoje. Não se está para a vida assim, assim, nem para os sentimentos. Por isso digo-te, mexes-te comigo. Não que tenha ficado com a cabeça para os pés. Talvez da cabeça para o coração e daí para os restante corpo. Estou para ai virado! Por isso apetecia-me dar-te um beijo, só para ver no que dava. Talvez viesse outro, e com outro um estalo. Devagar então! E eu não tenho pressa. Digo-te ao ouvido. Ainda é segredo. E se tivesse podia ir andando. É uma vontade sem a ter, de te querer ver e sentir quando não estás por perto. Distraio-me nos afazeres e vou ter contigo. Uma fuga de ideias, para a ideia de te ter junto a mim. Isto poderá ser diagnosticado com uma qualquer doença, mas para mim é algo mais. Não dói, é bom. É um calor sem febre, sem dor. Por agora é só descobrir o que se passa, de olhar em olhar. De brincadeira em brincadeira. Em silêncios e distâncias. Delineando cada movimento, num tempo indefinido de coisas que se vivem, e se sentem. Convido-te a habitar nesta pequena casa de árvore. Como se fazia antigamente quando éramos pequenos. Comecemos por ai, pequenino, com a inocência de uma criança. E quando somos crianças as coisas acontecem e crescem sem darmos conta. Como a tal semente. Vamos por ai então sem olharmos para trás. Que sejamos crianças e deixemo-nos levar pelo inatismo dos sentidos... Queres vir brincar?
a.tereso

Farto de voar
Farto de voar
Pouso as palavras no chão
Entro no mar
Sinto o sal de mão em mão
Tenho um barco na vida espetado
Só suspenso por fios dum lado
E do outro a cair
a cair
no arpão
no arpão

Levo a dormir
Sonhos que andei para trás
Ergo o porvir
Trago nos bolsos a paz
Tenho um corpo na morte espetado
Só suspenso por balas de um lado
E do outro a escapar
a escapar
de raspão
de raspão

Ponho a girar
Cantos que ninguém encerra
De par em par
Abro as janelas para a terra
Tenho um quarto na fome espetado
Só suspenso por água de um lado
E de outro a cair
a cair
no alçapão
no alçapão

Farto de voar
Pouso as palavras no chão
Entro no mar
Sinto o sal de mão em mão
Tenho um barco na vida espetado
Só suspenso por fios dum lado
E do outro a cair
a cair
no arpão
no arpão


                 Sérgio Godinho, in "os sobreviventes"

Márcia - Às vezes o Amor (Sérgio Godinho)

https://www.youtube.com/watch?v=hq7AJQMyHnI