A Singer e o Sorriso da
Maria Felicidade!
Em pequeno fazia trinta por uma
linha á minha mãe, e mesmo agora ando sempre com a bainha descosida. Sempre fui
irrequieto, mas muito atento ao que se passa em meu redor. Desde cedo mantive
uma relação muito próxima com a minha avó Conceição, mais conhecida por Sra. Maria Felicidade. Neste cose e descose da vida, em zig zag, por pontos ou somente
alinhavada, surgem várias heranças. Uma que acabo de restaurar é a Singer da
minha avó. Pouco sei da história dela, mas sei que terá mais de 100 anos pelo
seu n.º de série, pelas dedadas e desgaste que a envolvia. Serviu ela para que
a minha avó cosesse a sua vida. Apesar de andar mal alinhavado e cosido, com a
vida aos retalhos esta Singer veio dar-me a agulha que procurava no palheiro.
Queres ficar com alguma
coisa da avó? Não, respondi perentoriamente. Após alguma insistência disse que
a ficar era com a manta de retalhos e a máquina de costura. Chegou a mim por um
simples pedido. Como chegam a mim por vezes recordações e sorrisos em pequenos
gestos diários. As pequenas coisas. Ora vejamos. Quando tenho pão duro
lembro-me das sopas de pão com café de cevada que me fazia, com umas valentes colheradas
de açúcar amarelo. Ou as misturadas (sopa de feijão) que comia á sexta feira.
Era dia sagrado, não havia sexta feira que não se comesse! Era tudo da horta,
cuidado pelo meu avó Toino. Via-as crescer. Ainda hoje a minha parte favorita do
pão é a mama e quando a como o meu pensamento foge para as brindeiras que ela
me dava quando fazia pão. Não a largava enquanto não comesse uma. Já era
persistente em pequeno!
Posso ter ficado com a
Singer, a minha avó pode nem sempre se lembrar de mim quando a visito no lar, e
sei que um destes dias poderá partir, mas o seu sorriso e tudo o que está nele
é a maior herança com que eu fiquei. Guardo-as numa gaveta que ela trazia e no meu coração. Este sorrisos que vos deixo é parte de mim e da minha avó
Felicidade. A Singer é o que menos importa, anda de mão em mão a coser
histórias e vidas...
a.tereso