30 julho, 2014

Há mulheres que trazem o mar nos olhos


Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes 
e calma

Sophia de Mello Breyner Andresen


A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER




“Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo ‘esboço’ não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.”





A Insustentável Leveza do Ser é um dos livros que mais me marcou e que eu mais gosto. É um livro publicado em 1984 por Milan Kundera. É busca da essência do amor que se mostra de tonalidades múltiplas mas todas genuínas, num festival de sentidos sem tabus assentes nas mais diversas fundamentações desde a saída de Adão do paraíso a uma filosofia do excremento como dúvida sobre a existência de Deus, o amor é revelado numa complexa arquitectura de assombrosas, muitas vezes estonteantes, mas riquíssimas expressões das mais básicas necessidades sentimentais de cada um e das insuficências das suas pungentes solidões. Já me senti muito Teresa outrora, e depois Tomas! Agora sou eu mesmo com o que sinto e vivo...


"Todos nós temos necessidade de ser olhados. Podíamos ser divididos em quatro categorias consoante o tipo de olhar sob o qual desejamos viver. A primeira procura o olhar de um número infinito de olhos anónimos ou, por outras palavras, o olhar do público. É o caso do cantor alemão e da estrela americana, como é também o caso do jornalista de queixo de rabeca. Estava habituado aos seus leitores, e quando o semanário foi proibido pelos russos teve a impressão de ficar com a atmosfera cem vezes mais rarefeita. Para ele, ninguém podia substituir os olhos anónimos. Sentia-se quase a sufocar, até que um dia percebeu que a polícia lhe seguia todos os passos, que o seu telefone estava sob escuta e que chegava a ser discretamente fotografado na rua. De repente, tinha outra vez olhos anónimos a acompanharem-no: já podia voltar a respirar! Interpelava num tom teatral os microfones escondidos na parede. Voltava a encontrar na polícia o público que julgava ter perdido para sempre. 
Na segunda categoria, incluem-se aqueles que não podem viver sem o olhar de uma multidão de olhos familiares. São os incansáveis organizadores de jantares e de cocktails. São mais felizes que os da primeira categoria porque, quando estes perdem o público, imaginam que as luzes se apagaram para sempre na sala da sua vida. É o que, mais dia menos dia, lhes acontece a todos. Marie-Claude e a filha são deste género. Vem em seguida a terceira categoria, a categoria daqueles que precisam de estar sempre sob o olhar do ser amado. A sua condição é tão perigosa como a das pessoas do primeiro grupo. Se os olhos do ser amado se fecham, a sala fica mergulhada na escuridão. É neste tipo de pessoas que devemos incluir Tereza e Tomas. Finalmente, há uma quarta categoria, bem mais rara, que são aqueles que vivem sob os olhares imaginários de seres ausentes. São os sonhadores. Por exemplo, Franz. Foi até à fronteira cambojana unicamente por causa de Sabina. Dentro do autocarro, que a estrada tailandesa faz baloiçar violentamente, só sente o seu longo olhar poisado em si."




Dá-me a Tua Mão
Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir – nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.
Clarice Lispector 

29 julho, 2014

que o meu coração esteja sempre aberto

que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas
aves que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor do que conhecer
e se os homens não as ouvem estão velhos

que o meu pensamento caminhe pelo faminto
e destemido e sedento e servil
e mesmo que seja domingo que eu me engane
pois sempre que os homens têm razão não são jovens

e que eu não faça nada de útil
e te ame muito mais que verdadeiramente
nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse
chamar a si todo o céu como um sorriso


e.e. cummings
livrodepoemas
trad. cecília rego pinheiro
assírio & alvim
1999

O Amor não deveria ser exigente,
senão, ele perde as asas e não pode voar;
torna-se enraizado na terra e fica muito mundano.
Então ele é sensualidade e traz grande infelicidade e sofrimento.
O amor não deveria ser condicional, nada se deveria esperar dele.
ele deveria estar presente, por estar presente, e não por alguma recompensa, e não por algum resultado.
Se houver algum motivo nele, novamente seu amor não poderá se tornar o céu. Ele está confinado ao motivo;o motivo se torna sua definição, sua froteira.
Um amor não motivado não tem fronteiras:
É a fragância do coração.


OSHO

The Constant Gardener

Livro de John le Carré escrito em 2001, que deu origem a um filme em 2005 dirigido pelo Fernando Meirelles. Foi sem duvida um filme que me marcou muito pela sua história e poesia que nele contém, que mesmo sendo trágico relata a dimensão do amor a vários níveis. 
Creio que de forma pouco humilde me considero um fiel jardineiro, pela minha paixão por flores e jardinagem e por cultivar alguns princípios silvestres de desapego e liberdade para coma Natureza. Tenho um longo percurso e a cada instante vão florindo mais e a cada ano são mais a flores que abrem. Importa cuidarmos do nosso jardim interior para que tais flores possam florir dos poucos nadas da vida. A cada flor um momento de ternura e amor. Talvez seja essa a essência da vida, deixar-nos florir para que a semente do amor possa fecundar a nossa existência. 

Kothbiro
Artist: Ayub Ogada
Album: En Mana Kuoyo (1993)

Fuga dos olhares penetrantes

Desvio o meu olhar do teu para não me expor aos sentidos e permitir guardar por mais uns instantes o que te quero dizer baixinho ao ouvido da alma. Espelho de timidez e insegurança por não saber o que dizem os teus, no simples pestanejar da casualidade da vida. Estou aqui no agora, perante o teu olhar e a dança, em pequenos movimentos de envolvimento sonoro. Desvio o olhar. Olha-me nos olhos, dizes-me! Bem tento e bem quero, mas os pés servem de refúgio ao teu olhar. Termina a dança, mas a vontade é de permanecer nos teus braços. Desnudo-me perante ti e dos teus olhos, para que nesse olhar possas ver o espelho do meu coração. Procuro-te quando não te tenho debaixo dos meus olhos, para dançarmos de novo. Fuga dos olhares penetrantes que se seduzem e penetram, nos silêncios inacabados de duas almas que se dançam...
a.tereso


Os olhos são o espelho da alma

Segundo Alexander Lowen, os olhos são o espelho da alma porque refletem diretamente o processo de energia do corpo. Muitas pessoas evitam o contato dos olhos, porque têm medo daquilo que seus olhos possam revelar. As pessoas ficam embaraçadas com o fato de outras pessoas perceberem seus sentimentos, por isso desviam o olhar ou olham fixamente. 
Ainda segundo o Dr Lowen, o contato dos olhos é uma das formas mais fortes e íntimas de contato entre as pessoas. Este contato envolve a comunicação do sentimento num nível mais profundo do que o verbal, porque o contato dos olhos é uma forma de toque.  Quando a pessoa está carregada de energia, seus olhos brilham. O brilho dos olhos de uma pessoa é, assim, um bom sinal de seu estado de saúde. Qualquer depressão no nível de energia de uma pessoa diminui a luz de seus olhos. Na morte, os olhos se tornam opacos.  Ao mesmo tempo, o grau da carga de energia dos olhos revela o grau da força do ego. O indivíduo que tem ego forte, consegue olhar diretamente nos olhos de outra pessoa. Este indivíduo pode fazer isso facilmente, porque está seguro de si mesmo.
Olhar para outra pessoa é uma forma de auto-afirmação, tanto quanto o olhar-se é uma forma de auto-expressão.