31 julho, 2014


AUTO RETRATO POÉTICO

Se me pedissem para me descrever poeticamente diria que me sinto metade Alberto Caeiro e Cesário Verde. Tenho pontualmente estados de Al Berto e Adília Lopes. Nuances de Maria Teresa Horta. Personalidade de Clarice Lispector. Sonhos de Pablo Neruda e E. E. Cummings. Posso ser exagerado como o Tom Jobim, mas é isto que sinto!

Acho que também tenho um pouco de Manuel Cristo! 

Quem me dera ter tudo isto e continuar a ser quem sou...




SILÊNCIO
Que o teu silêncio seja doce e suave. De esperança e em sintonia. Tudo acontece naturalmente, sem que sejam necessárias as palavras. Basta os sentidos e os impulsos. Não é preciso mais. Que nos deixemos ir, de dança em dança à descoberta dos sentidos. Sem palavras. As respostas acabaram por aparecer. Sem pressão, com olhares e gestos. E a cada instante um simples beijo, de carinho e desejo. Tudo se constrói aos poucos na vida. Sem pressa. Nada é certo e tudo é novidade para que se limite no inicio. Por isso peço para que não digas nada. Deixa que o silêncio se pronuncie e perdure. Deixa que as palavras tenham tempo de germinar. Deixa que esse teu silêncio seja por os meus lábios estarem colados aos teus.
a.tereso


A Alma Gémea



Nenhum sonho custa tanto a abandonar como o sonho de ter uma alma gémea, nem que seja noutro canto do mundo, uma alma tão perto da nossa como a vida. O que é a alma? É o que resta depois de tudo o que fizemos e dissemos. Podemos traí-la e contrariá-la, mesmo sem saber, porque nunca podemos conhecê-la. Só através duma alma gémea. Fácil dizer. Agora como é que consigo falar? 
As almas gémeas quase nunca se encontram, mas, quando se encontram, abraçam-se. Naqueles momentos em que alguém diz uma coisa, que nunca ouvimos, mas que reconhecemos não sei de onde. E em que mergulhamos sem querer, como se estivéssemos a visitar uma verdade que desconfiávamos existir, de onde desconfiamos ter vindo, mas aonde nunca tínhamos conseguido voltar. 
O coração sente-se. A alma pressente-se. O coração anda aos saltos dentro do peito, a soluçar como um doido, tão óbvio que chega a chatear. Mas a alma é uma rocha branca onde estão riscados os sinais indecifráveis da nossa existência. Não muda, não se mostra, não se dá a conhecer. O coração ama. Mas é na alma que o amor mora. Todos os amores. Toda a vida. A alma deixa o coração à solta, como tonto que ele é, e despreocupa-se e desprende-se do corpo, porque tem mais que fazer. E o que faz a alma? Mandar escondidamente na parte da nossa vida que não tem expressão material ou física. Está mal dito, mas está certo, porque estas coisas não se podem sequer dizer. O quem e o quê não lhe interessam. A alma não deseja, não tem saudades, não sofre nem se ri; a alma decide o que o coração e a razão podem decidir. A alma não é uma essência ou um espírito; é a fonte, o repositório, a configuração interior. Expressões horríveis, onde as palavras escorregam para se encontrarem. Só resta repetir. A alma é de tal maneira que é aquilo, exactamente, de que não se pode falar. A não ser que se encontre uma alma gémea. Gémea não é igual. É parecida. Não é um espelho. É uma janela. Não é um reflexo. É uma refracção. (...) O desejo de encontrar uma alma gémea não é o desejo de reafirmarmos a unicidade da nossa existência através de outro que é igual a nós. É precisamente o contrário. É poder descansar dessa demanda. No fundo, todos nós duvidamos que tenhamos uma alma. Senão não falávamos tanto dela. Os melhores ainda são aqueles que a deixam a Deus. Uma alma gémea é a prova que não estamos sozinhos. Ou seja: é a prova de que a alma existe. Não faz nem diz o mesmo que fazemos e dizemos — mas tem uma forma de fazer e dizer tão parecida com a nossa, que deixa de interessar o que é dito e feito. Uma alma gémea faz curto-circuito com os fusíveis corpo/coração/razão. Não é o «quê» — é o «porquê». O estado normal de duas almas gémeas é o silêncio. Não é o «não ser preciso falar» - é outra forma de falar, que consiste numa alma descansar na outra. Não é a paz dos amantes nem a cumplicidade muda dos amigos. Não precisa de amor nem de amizade para se entender. As almas acharam-se. Não têm passado. Não se esforçaram. Estão. É essa a maior paz do mundo. Como é que um ninho pode ser ninho doutro ninho? Duas almas gémeas podem ser. Como é que se reconhece a alma gémea? No abraço. O coração pára de bater. A existência é interrompida. No abraço do irmão, do amigo, da amante, há sensação, do corpo, do tempo, do coração. Há sempre a noção dum gesto posterior. No abraço de duas almas gémeas, mesmo quando se amam, o abraço parece o fim. Uma pessoa sente-se, ao mesmo tempo, protegida e protectora. E a paz é inteira - nenhum outro gesto, nenhuma outra palavra, é precisa para a completar. Pode passar a vida toda. Não importa. Quando duas almas gémeas se abraçam, sente-se o alívio imenso de não ter de viver. Não há necessidade, nem desejo, nem pensamento. A sensação é de sermos uma alma no ar que reencontrou a sua casa, que voltou finalmente ao seu lugar, como se o outro corpo fosse o nosso que perdêramos desde a nascença. 

Miguel Esteves Cardoso, in 'Explicações de Poruguês'

Canção Boba

Uma canção boba só para te dizer
Em umas notinhas o que nunca consegui
O que nunca soube como te dizer
Em umas notinhas agora vais entender
De todos os jeitos sempre tentei falar,
Tentei gritar, chorar
Mas nunca consegui te dizer
O que importa, que eu sempre amei você
Agora que já sabes o que tinha pra dizer
Por favor não duvide pois consegui escrever
As notinhas nunca vao esquecer
Que eu sempre amei, amei você
(...)

30 julho, 2014

Desperta-me de noite


Desperta-me de noite
o teu desejo
na vaga dos teus dedos
com que vergas
o sono em que me deito

É rede a tua língua

em sua teia
é vício as palavras
com que falas

A trégua

a entrega
o disfarce

E lembras os meus ombros

docemente
na dobra do lençol que desfazes

Desperta-me de noite

com o teu corpo
tiras-me do sono
onde resvalo

E eu pouco a pouco

vou repelindo a noite
e tu dentro de mim
vai descobrindo vales. 

Maria Teresa Horta

Aos poucos
Sempre que te vejo, trago comigo um pouco mais de ti. Desta vez trouxe o teu cheiro nas minhas mãos e a imagem dos teus sapatos. Como na história, não precisas de deixar cair um para ir ao teu encontro. Já te encontrei! Calças o número certo. Não foi fácil encontrar-te, mas não sabia onde te procurar.
Apareces-te do nada, e nada é por acaso!
O teu cheiro não te o posso descrever. Mas ainda o tenho em mim. Basta pensar em ti para o sentir. Os teus pés ainda não os vi, mas pelos teus sapatos são bonitos e delicados. Cada dedo é bem recortado...
Por esta noite chega. Vivo de pequenas coisas, em que o pouco é muito. Tenho-te aos poucos. Aos poucos quero-te muito.
a.tereso

Há mulheres que trazem o mar nos olhos


Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes 
e calma

Sophia de Mello Breyner Andresen