06 agosto, 2014


Pedaços de ti
Digo parte do que sinto, pois é pouco dizê-lo, e são poucas as palavras para descrever o que os meus olhos dizem aos teus.
Digo. Gostei do pedaço de ti ao fim da tarde... Vou querer mais pedaços, para um dia te ter por inteira. Haverá então mais chá para dois, munfins, histórias e encontros de palavras.
Se te interrompo quando falas, é para que te percas ou recomeces tudo de novo. Assim ganho mais tempo e pode ser que o chá se perlongue. Um dia, a seguir ao chá vem um jantar. Tudo aos poucos. E depois de um jantar, um despertar. Tudo muito devagarinho. Assim, pode ser que um dia te tenha para toda a vida.
a.tereso

04 agosto, 2014

ESCUTE


Escute seu coração.
Ele conhece todas as coisas,
porque veio da Alma do Mundo
e um dia retornará para ela.

A felicidade aparece
para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam
e tentam sempre.

E para aqueles que reconhecem
A importância das pessoas
que passam por suas vidas.

Clarice Lispector

01 agosto, 2014

POSSO

posso tocar disse ele
eu vou gritar disse ela
uma vez só disse ele
é gostoso disse ela
posso mexer disse ele
mexer quanto disse ela
então muito disse ele
por que não disse ela
vamos disse ele
não tão longe disse ela
o que é tão longe disse ele
aí mesmo disse ela
posso virar disse ele
mas é amor disse ela
se você quer disse ele
vai me matar disse ela
a vida é quem quer disse ele
e sua mulher disse ela
vai disse ele
ai disse ela
ótimo disse ele
sem parar disse ela
não mesmo disse ele
devagar disse ela
j-jaaá? disse ele
aaahhh! disse ela
você é divina disse ele
e você é meu disse ela.

e.e.cummings

31 julho, 2014


AUTO RETRATO POÉTICO

Se me pedissem para me descrever poeticamente diria que me sinto metade Alberto Caeiro e Cesário Verde. Tenho pontualmente estados de Al Berto e Adília Lopes. Nuances de Maria Teresa Horta. Personalidade de Clarice Lispector. Sonhos de Pablo Neruda e E. E. Cummings. Posso ser exagerado como o Tom Jobim, mas é isto que sinto!

Acho que também tenho um pouco de Manuel Cristo! 

Quem me dera ter tudo isto e continuar a ser quem sou...




SILÊNCIO
Que o teu silêncio seja doce e suave. De esperança e em sintonia. Tudo acontece naturalmente, sem que sejam necessárias as palavras. Basta os sentidos e os impulsos. Não é preciso mais. Que nos deixemos ir, de dança em dança à descoberta dos sentidos. Sem palavras. As respostas acabaram por aparecer. Sem pressão, com olhares e gestos. E a cada instante um simples beijo, de carinho e desejo. Tudo se constrói aos poucos na vida. Sem pressa. Nada é certo e tudo é novidade para que se limite no inicio. Por isso peço para que não digas nada. Deixa que o silêncio se pronuncie e perdure. Deixa que as palavras tenham tempo de germinar. Deixa que esse teu silêncio seja por os meus lábios estarem colados aos teus.
a.tereso


A Alma Gémea



Nenhum sonho custa tanto a abandonar como o sonho de ter uma alma gémea, nem que seja noutro canto do mundo, uma alma tão perto da nossa como a vida. O que é a alma? É o que resta depois de tudo o que fizemos e dissemos. Podemos traí-la e contrariá-la, mesmo sem saber, porque nunca podemos conhecê-la. Só através duma alma gémea. Fácil dizer. Agora como é que consigo falar? 
As almas gémeas quase nunca se encontram, mas, quando se encontram, abraçam-se. Naqueles momentos em que alguém diz uma coisa, que nunca ouvimos, mas que reconhecemos não sei de onde. E em que mergulhamos sem querer, como se estivéssemos a visitar uma verdade que desconfiávamos existir, de onde desconfiamos ter vindo, mas aonde nunca tínhamos conseguido voltar. 
O coração sente-se. A alma pressente-se. O coração anda aos saltos dentro do peito, a soluçar como um doido, tão óbvio que chega a chatear. Mas a alma é uma rocha branca onde estão riscados os sinais indecifráveis da nossa existência. Não muda, não se mostra, não se dá a conhecer. O coração ama. Mas é na alma que o amor mora. Todos os amores. Toda a vida. A alma deixa o coração à solta, como tonto que ele é, e despreocupa-se e desprende-se do corpo, porque tem mais que fazer. E o que faz a alma? Mandar escondidamente na parte da nossa vida que não tem expressão material ou física. Está mal dito, mas está certo, porque estas coisas não se podem sequer dizer. O quem e o quê não lhe interessam. A alma não deseja, não tem saudades, não sofre nem se ri; a alma decide o que o coração e a razão podem decidir. A alma não é uma essência ou um espírito; é a fonte, o repositório, a configuração interior. Expressões horríveis, onde as palavras escorregam para se encontrarem. Só resta repetir. A alma é de tal maneira que é aquilo, exactamente, de que não se pode falar. A não ser que se encontre uma alma gémea. Gémea não é igual. É parecida. Não é um espelho. É uma janela. Não é um reflexo. É uma refracção. (...) O desejo de encontrar uma alma gémea não é o desejo de reafirmarmos a unicidade da nossa existência através de outro que é igual a nós. É precisamente o contrário. É poder descansar dessa demanda. No fundo, todos nós duvidamos que tenhamos uma alma. Senão não falávamos tanto dela. Os melhores ainda são aqueles que a deixam a Deus. Uma alma gémea é a prova que não estamos sozinhos. Ou seja: é a prova de que a alma existe. Não faz nem diz o mesmo que fazemos e dizemos — mas tem uma forma de fazer e dizer tão parecida com a nossa, que deixa de interessar o que é dito e feito. Uma alma gémea faz curto-circuito com os fusíveis corpo/coração/razão. Não é o «quê» — é o «porquê». O estado normal de duas almas gémeas é o silêncio. Não é o «não ser preciso falar» - é outra forma de falar, que consiste numa alma descansar na outra. Não é a paz dos amantes nem a cumplicidade muda dos amigos. Não precisa de amor nem de amizade para se entender. As almas acharam-se. Não têm passado. Não se esforçaram. Estão. É essa a maior paz do mundo. Como é que um ninho pode ser ninho doutro ninho? Duas almas gémeas podem ser. Como é que se reconhece a alma gémea? No abraço. O coração pára de bater. A existência é interrompida. No abraço do irmão, do amigo, da amante, há sensação, do corpo, do tempo, do coração. Há sempre a noção dum gesto posterior. No abraço de duas almas gémeas, mesmo quando se amam, o abraço parece o fim. Uma pessoa sente-se, ao mesmo tempo, protegida e protectora. E a paz é inteira - nenhum outro gesto, nenhuma outra palavra, é precisa para a completar. Pode passar a vida toda. Não importa. Quando duas almas gémeas se abraçam, sente-se o alívio imenso de não ter de viver. Não há necessidade, nem desejo, nem pensamento. A sensação é de sermos uma alma no ar que reencontrou a sua casa, que voltou finalmente ao seu lugar, como se o outro corpo fosse o nosso que perdêramos desde a nascença. 

Miguel Esteves Cardoso, in 'Explicações de Poruguês'

Canção Boba

Uma canção boba só para te dizer
Em umas notinhas o que nunca consegui
O que nunca soube como te dizer
Em umas notinhas agora vais entender
De todos os jeitos sempre tentei falar,
Tentei gritar, chorar
Mas nunca consegui te dizer
O que importa, que eu sempre amei você
Agora que já sabes o que tinha pra dizer
Por favor não duvide pois consegui escrever
As notinhas nunca vao esquecer
Que eu sempre amei, amei você
(...)