10 agosto, 2014

já que sentir é primeiro

[vi]

já que sentir é primeiro
quem presta alguma atenção
à sintaxe das coisas
nunca há-de beijar-te por inteiro;

por inteiro ensandecer
enquanto a primavera está no mundo
o meu sangue aprova,
e beijos são melhor fado
que sabedoria
senhora eu juro por toda a flor. Não chores
- o melhor movimento do meu cérebro vale menos que
o teu palpitar de pálpebras que diz

somos um para o outro: então
ri, reclinada nos meus braços
que a vida não é um parágrafo

e a morte julgo nenhum parêntesis

e. e. cummings
xix poemas
trad. jorge fazenda lourenço
assírio & alvim
1998

09 agosto, 2014

No Silêncio...

No silencio da noite que não passa
Minha'álma sai a procura da tua
O frio é intenso e me trespassa
Um vento que assobia lá na rua

Sozinha converso com a solidão
Que escuta atenta como irmã
Olho o relógio e já é de manhã
Desabafei coisas do meu coração

Respiro lavo o rosto e escovo os cabelos
Por segundos penso diante do espelho
Meus sonhos estão presos em castelos

O sol já acordou e está brilhando
Por ser sábio lhe peço um conselho
Desisto ou continuo sonhando?


Carol Carolina
Se temos de esperar,
que seja para colher a semente boa
que lançamos hoje no solo da vida.
Se for para semear,
então que seja para produzir
milhões de sorrisos,
de solidariedade e amizade.
Cora Coralina

07 agosto, 2014

o moço pastor que ali vem cantar


III

o moço pastor que ali vem cantar
a sombra que deu
aos montes que têm o rio a passar
outro azul no céu

vê perto seu canto que ouvido se esconde
e é o que ele sabe
mas longe na noite sem fim lhe responde
a mesma verdade

que é a estação fria como está nos ramos
e na lua-cheia
pequeno cordeiro que há anos e anos
ele pastoreia


mário cesariny
manual de prestidigitação
vizualizações
assírio & alvim
1981

06 agosto, 2014

Corpo

 

Corpo
que te seja leve o peso das estrelas
e de tua boca irrompa a inocência nua
dum lírio cujo caule se estende e
ramifica para lá dos alicerces da casa
abre a janela debruça-te
deixa que o mar inunde os órgãos do corpo
espalha lume na ponta dos dedos e toca
ao de leve aquilo que deve ser preservado
mas olho para as mãos e leio
o que o vento norte escreveu sobre as dunas
levanto-me do fundo de ti humilde lama
e num soluço da respiração sei que estou vivo
sou o centro sísmico do mundo
Al Berto, O Medo, Lisboa: Assírio & Alvim, 1998

Pedaços de ti
Digo parte do que sinto, pois é pouco dizê-lo, e são poucas as palavras para descrever o que os meus olhos dizem aos teus.
Digo. Gostei do pedaço de ti ao fim da tarde... Vou querer mais pedaços, para um dia te ter por inteira. Haverá então mais chá para dois, munfins, histórias e encontros de palavras.
Se te interrompo quando falas, é para que te percas ou recomeces tudo de novo. Assim ganho mais tempo e pode ser que o chá se perlongue. Um dia, a seguir ao chá vem um jantar. Tudo aos poucos. E depois de um jantar, um despertar. Tudo muito devagarinho. Assim, pode ser que um dia te tenha para toda a vida.
a.tereso

04 agosto, 2014

ESCUTE


Escute seu coração.
Ele conhece todas as coisas,
porque veio da Alma do Mundo
e um dia retornará para ela.

A felicidade aparece
para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam
e tentam sempre.

E para aqueles que reconhecem
A importância das pessoas
que passam por suas vidas.

Clarice Lispector