31 agosto, 2014


Silêncio que se vai amar


Silêncio que se vai amar
Todos os amores começam assim. No silêncio de um olhar, no
silêncio de uma mão dependente da outra, de outra mão vadia
a vaguear pela cidade nocturna do teu corpo, no silêncio dos lábios
trincados, trocados, massajados, abraçados e voltados a abraçar.
Todos os amores são silêncio estendido.

E todos os silêncios merecem o amor.
(Excerto)

Pedro Chagas Freitas
Portugal;Azurém,Guimarães 1979
in prometo falhar
Editor: Marcador

30 agosto, 2014

Explicação da Eternidade

devagar, o tempo transforma tudo em tempo. 
o ódio transforma-se em tempo, o amor 
transforma-se em tempo, a dor transforma-se 
em tempo. 

os assuntos que julgámos mais profundos, 
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis, 
transformam-se devagar em tempo. 


por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

foste eterna até ao fim.
 

José Luís Peixoto, in "A Casa, A Escuridão".
Cerimonial do AmorSe não houver esperanças de que o teu amor seja recebido, o que tens a fazer é não o declarar. Poderá desenvolver-se em ti, num ambiente de silêncio. Esse amor proporciona-te então uma direção que permite aproximares-te, afastares-te, entrares, saíres, encontrares, perderes. Porque tu és aquele que tem de viver. E não há vida se nenhum deus te criou linhas de força. 
Se o teu amor não é recebido, se ele se transforma em súplica vã como recompensa da tua fidelidade, se não tens coração para te calares, nessa altura vai ter com um médico para ele te curar. É bom não confundir o amor com a escravatura do coração. O amor que pede é belo, mas aquele que suplica é amor de criado.



















Se o teu amor esbarra com o absoluto das coisas, se por exemplo tem de franquear a impenetrável parede de um mosteiro ou do exílio, agradece a Deus que ela por hipótese retribua o teu amor, embora na aparência se mostre surda e cega. Há uma lamparina acesa para ti neste mundo. Pouco me importa que tu não possas servir-te dela. Aquele que morre no deserto tem a riqueza de uma casa longínqua, embora morra. 
Se eu construir almas grandes e escolher a mais perfeita para a rodear de silêncio, ficarás com a impressão de que ninguém recebe nada com isso. E, no entanto, ela enobrece todo o meu império. Quem quer que passa ao longe, prosterna-se. E nascem os sinais e os milagres. 
Não importa que o amor que alguém nutre por ti seja um amor inútil. Desde que tu lhe correspondas, caminharás na luz. Grande é a oração à qual só responde o silêncio; basta que o deus exista. 
Se o teu amor é aceite e há braços que se abrem para ti, então pede a Deus que salve esse amor de apodrecer. Eu temo pelos corações cumulados. 


Antoine de Saint-Exupéry, in "Cidadela"
a função do amor é fabricar desconhecimento

a função do amor é fabricar desconhecimento 

(o conhecido não tem desejo;mas todo o amor é desejar) 
embora se viva às avessas,o idêntico sufoque o uno 
a verdade se confunda com o facto,os peixes se gabem de pescar 

e os homens sejam apanhados pelos vermes(o amor pode não se 
                  importar 
se o tempo troteia,a luz declina,os limites vergam 
nem se maravilhar se um pensamento pesa como uma estrela 
—o medo tem morte menor;e viverá menos quando a morte acabar) 

que afortunados são os amantes(cujos seres se submetem 
ao que esteja para ser descoberto) 
cujo ignorante cada respirar se atreve a esconder 
mais do que a mais fabulosa sabedoria teme ver 

(que riem e choram)que sonham,criam e matam 
enquanto o todo se move;e cada parte permanece quieta: 

pode não ser sempre assim;e eu digo 
que se os teus lábios,que amei,tocarem 
os de outro,e os teus ternos fortes dedos aprisionarem 
o seu coração,como o meu não há muito tempo; 
se no rosto de outro o teu doce cabelo repousar 
naquele silêncio que conheço,ou naquelas 
grandiosas contorcidas palavras que,dizendo demasiado, 
permanecem desamparadamente diante do espírito ausente; 

se assim for,eu digo se assim for— 
tu do meu coração,manda-me um recado; 
para que possa ir até ele,e tomar as suas mãos, 
dizendo,Aceita toda a felicidade de mim. 
E então voltarei o rosto,e ouvirei um pássaro 
cantar terrivelmente longe nas terras perdidas. 

e.e. cummings
livrodepoemas
trad. cecília rego pinheiro
assírio & alvim
1999

29 agosto, 2014


O TOM DO AMOR
O amor vai te contar um segredo
Não precisa ter medo
Nem sair correndo
O amor nasce pequeno
Cresce, fica estupendo
Às vezes o amor está ali
Você nem tá sabendo
O amor tem formas, formas, aromas,
Vozes, causas, sintomas
O amor...
É mãe, é filho, é amigo,
Às vezes num canto esquecido existe amor
Antigo, antigo
O amor que cuida, parte e assusta
Que erra e pede desculpas
Às vezes o amor quer ferir
E se cura doendo
O amor tem formas, formas, aromas,
Vozes, causas, sintomas
O amor...
É pausa, silêncio, refrão
E explode nessa canção
O amor vai te contar
Um segredo, fica atento, repara bem
Que o meu amor é todo seu
Antigo.
Paulinho Moska

28 agosto, 2014

Anda, vem…

Anda vem... porque te negas,
Carne morena, toda perfume?
Porque te calas,
Porque esmoreces,
Boca vermelha ─ rosa de lume?

Se a luz do dia
Te cobre de pejo,
Esperemos a noite presos num beijo.

Dá-me o infinito gozo
De contigo adormecer
Devagarinho, sentindo
O aroma e o calor
Da tua carne, meu amor!

E ouve, mancebo alado:
Entrega-te, sê contente!
─ Nem todo o prazer
Tem vileza ou tem pecado!

Anda, vem!... Dá-me o teu corpo
Em troca dos meus desejos...
Tenho saudades da vida!
Tenho sede dos teus beijos!

António Botto
Portugal (Concavada, Abrantes) 1897
Brasil (Rio de Janeiro) 1959
in Canções e outros poemas
Editor: Edições  Quasi

Descobri que o mais alto grau de paz interior decorre da prática do amor e da compaixão. Quanto mais nos importamos com a felicidade de nossos semelhantes, maior o nosso próprio bem-estar. Ao cultivarmos um sentimento profundo e carinhoso pelos outros, passamos automaticamente para um estado de serenidade. Esta é a principal fonte da felicidade.
Dalai Lama