07 setembro, 2014


xxv - as bolas de sabão


As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as cousas,
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser.

Algumas mal se vêem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer cousa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente.

alberto caeiro
Que Há para Lá do Sonhar?Céu baixo, grosso, cinzento 
e uma luz vaga pelo ar 
chama-me ao gosto de estar 
reduzido ao fermento 
do que em mim a levedar 
é este estranho tormento 
de me estar tudo a contento, 
em todo o meu pensamento 
ser pensar a dormitar. 

Mas que há para lá do sonhar? 


Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'

ENCONTROS E DEVANEIOS SENTIMENTAIS
Encontros e devaneios sentimentais que se cruzam com desencontros naturais de quem sente por quem não sente, e se traduz em realidades oblíquas que moldam seres e momentos que ficam e permanecem na insegurança de quem somos. A vida permite-nos crescer em cada desencontro e amar em cada singularidade sempre que acreditamos, sentimos encontrar quem nos possa vir a complementar e permitir SER. Parece simples, mas a carga que damos a essa índole pessoa, acaba por limitar o que pensamos, sentimos e vivemos. Sonhos para te encontrar, porque para mim isto e aquilo, sendo na realidade pouco mais do que se vive e sente, sem que se tenha que encontrar uma justificação lógica. Se lógica houver é a do momento, é a da vida, simplesmente, sem ânsias para a viver, vivendo-a na sua plenitude e na consciência de cada um em entrelaçamento com a natureza que nos rodeia. Gosto de ti, como se nada mais houvesse, como se a minha felicidade depende-se doutra pessoa que ainda mal conheço. Simples paixões , preliminares do amor, que se subjugam ao prazer do conhecimento e se coloca à prova a cada monotonia diária. Cada sentimento, cada coisa a seu tempo, sem que haja tempo para que o carinho e a amizade enraíze no conhecimento e no diálogo dos corpos, permanência singular de duas almas que se tocam. Nem sempre encontramos quem esperamos ou queremos esperar, e a cada desencontro um encontro connosco mesmos, crescimento emancipado para se continuar a caminhar sem que a razão, o juízo nos condicione e amarre a outro tempo que não o viver plenamente para Amar, sem desejos, premeditações e racionalismos. O amor acontece sem que tenhamos de esperar muito. Se tiveres à espera, pode ser que nunca chegue ou então passe por ti sem dares conta...
a.tereso

SOU
... assombrada pelos meus fantasmas,
pelo que é mítico e fantástico
- a vida é sobrenatural.
E eu caminho em corda bamba até o limite de meu sonho.
As vísceras torturadas pela voluptuosidade
Guiam-me, fúria dos impulsos. Antes de me organizar,
tenho que me desorganizar internamente.
Para experimentar o primeiro e passageiro
estado primário de liberdade.
Da liberdade de errar, cair e levantar-me.

Clarice Lispector

06 setembro, 2014

A partir de uma folha reconstruí a árvore 
e tudo me foi dado porque ofereci 
ao abandonado deus da inércia mineral 
e de privilégio em privilégio reconheci o nada 
do meu tronco original e a sua redonda substância 
Baixei as pálpebras como quem entra num túmulo 
e penetrei na nuvem obscura de uma secreta pupila 
onde quem morre nasce e os deuses assomam 
os colos degolados Entrei na selva de uma 
gruta
e vi as chamas e as sombras na dança dos desejos
Colhi então uma pequena folha azul no chão vermelho
e coloquei-a no ombro de uma mulher maravilhosa
E de carícia em carícia formou-se uma folhagem
e o tronco tenso da árvore no próprio corpo dela
e no meu corpo unânime solidamente vivo


António Ramos Rosa

04 setembro, 2014

Mais Nada se Move em Cima do Papelmais nada se move em cima do papel 
nenhum olho de tinta iridescente pressagia 
o destino deste corpo 

os dedos cintilam no húmus da terra 
e eu 
indiferente à sonolência da língua 
ouço o eco do amor há muito soterrado 

encosto a cabeça na luz e tudo esqueço 
no interior desta ânfora alucinada 

desço com a lentidão ruiva das feras 
ao nervo onde a boca procura o sul 
e os lugares dantes povoados 
ah meu amigo 
demoraste tanto a voltar dessa viagem 

o mar subiu ao degrau das manhãs idosas 
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão 

assim me habituei a morrer sem ti 
com uma esferográfica cravada no coração 


Al Berto, “O Medo”
Negando o que não é amor
O que é o amor? Não estamos discutindo teorias sobre o que o amor deveria ser. Estamos observando o que chamamos de amor: “Amo a minha mulher.” Não sei o que é que você ama; e duvido que você ame algo. Sabe o que significa amar? Será que o amor é prazer? O amor é ciúme? Um homem ambicioso é capaz de amar? – ele pode dormir com a mulher, gerar alguns filhos. E um homem que esteja lutando para se tornar importante na política, ou no mundo dos negócios, ou no mundo da religião (onde deseja se tornar um santo, deseja ser sem desejo), tudo isso faz parte da ambição, da agressão, do desejo. O homem competitivo é capaz de amar? E vocês todos são competitivos, não é verdade? – melhor emprego, melhor posição, melhor casa, ideias mais nobres, imagens mais perfeitas de si mesmos; vocês conhecem bem as situações por que passam. Isso é amor? Você é capaz de amar ao passar por toda essa tirania, quando pode dominar sua mulher ou seu marido, ou os seus filhos? Quando você está buscando o poder, há possibilidade de amar?
Portanto, na negação do que não é amor, existe amor. Entendem senhores? Precisam negar tudo que não seja amor, o que significa não ter ambição, não ser competitivo, não ser agressivo, não ser violento nem na fala, nem em ato, nem em pensamento. Quando você nega o que não é amor, então sabe o que é amor.
Mind in Meditation, pp 10-11