06 setembro, 2014

A partir de uma folha reconstruí a árvore 
e tudo me foi dado porque ofereci 
ao abandonado deus da inércia mineral 
e de privilégio em privilégio reconheci o nada 
do meu tronco original e a sua redonda substância 
Baixei as pálpebras como quem entra num túmulo 
e penetrei na nuvem obscura de uma secreta pupila 
onde quem morre nasce e os deuses assomam 
os colos degolados Entrei na selva de uma 
gruta
e vi as chamas e as sombras na dança dos desejos
Colhi então uma pequena folha azul no chão vermelho
e coloquei-a no ombro de uma mulher maravilhosa
E de carícia em carícia formou-se uma folhagem
e o tronco tenso da árvore no próprio corpo dela
e no meu corpo unânime solidamente vivo


António Ramos Rosa

04 setembro, 2014

Mais Nada se Move em Cima do Papelmais nada se move em cima do papel 
nenhum olho de tinta iridescente pressagia 
o destino deste corpo 

os dedos cintilam no húmus da terra 
e eu 
indiferente à sonolência da língua 
ouço o eco do amor há muito soterrado 

encosto a cabeça na luz e tudo esqueço 
no interior desta ânfora alucinada 

desço com a lentidão ruiva das feras 
ao nervo onde a boca procura o sul 
e os lugares dantes povoados 
ah meu amigo 
demoraste tanto a voltar dessa viagem 

o mar subiu ao degrau das manhãs idosas 
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão 

assim me habituei a morrer sem ti 
com uma esferográfica cravada no coração 


Al Berto, “O Medo”
Negando o que não é amor
O que é o amor? Não estamos discutindo teorias sobre o que o amor deveria ser. Estamos observando o que chamamos de amor: “Amo a minha mulher.” Não sei o que é que você ama; e duvido que você ame algo. Sabe o que significa amar? Será que o amor é prazer? O amor é ciúme? Um homem ambicioso é capaz de amar? – ele pode dormir com a mulher, gerar alguns filhos. E um homem que esteja lutando para se tornar importante na política, ou no mundo dos negócios, ou no mundo da religião (onde deseja se tornar um santo, deseja ser sem desejo), tudo isso faz parte da ambição, da agressão, do desejo. O homem competitivo é capaz de amar? E vocês todos são competitivos, não é verdade? – melhor emprego, melhor posição, melhor casa, ideias mais nobres, imagens mais perfeitas de si mesmos; vocês conhecem bem as situações por que passam. Isso é amor? Você é capaz de amar ao passar por toda essa tirania, quando pode dominar sua mulher ou seu marido, ou os seus filhos? Quando você está buscando o poder, há possibilidade de amar?
Portanto, na negação do que não é amor, existe amor. Entendem senhores? Precisam negar tudo que não seja amor, o que significa não ter ambição, não ser competitivo, não ser agressivo, não ser violento nem na fala, nem em ato, nem em pensamento. Quando você nega o que não é amor, então sabe o que é amor.
Mind in Meditation, pp 10-11

03 setembro, 2014


Highly Sensitive


Acorda amor, que já virou um outro dia,
E a gente pode fazer tudo hoje,
Não me deixe pra depois,
Sempre tenho um bom motivo pra nós dois.
Os medos que a gente tem em cada noite
A gente pode deixar lá,
Não me deixe pra depois,
Sempre tenho um bom motivo pra nós dois.
(...)

Mallu Magalhães

01 setembro, 2014


A maioria dos relacionamentos humanos se restringe à troca de palavras – o reino do pensamento. É fundamental trazer um pouco de silêncio e calma, sobretudo aos seus relacionamentos íntimos.

Nenhum relacionamento pode existir sem a sensação de espaço que vem com o silêncio e a calma. Meditar ou passar um tempo juntos, em silêncio, na natureza, por exemplo.

Se as duas pessoas forem caminhar, ou mesmo se ficarem sentadas uma ao lado da outra no carro ou em casa, elas irão se sentir bem por estarem juntas, em silêncio e na calma.

Nem o silêncio nem a calma precisam ser criados.

Eles já estão presentes, embora perturbados e obscurecidos pelo barulho da mente. Basta abrir-se para eles.

Se falta um espaço de silêncio e calma, o relacionamento será dominado pela mente e correrá o risco de ser invadido por problemas e conflitos. Se há silêncio e calma, eles se tornam capazes de dominar qualquer coisa.

Ouvir com verdadeira atenção é outra forma de trazer calma ao relacionamento. Quando você realmente ouve o que o outro tem a dizer, a calma surge e se torna parte essencial do relacionamento.

Mas ouvir com atenção é uma habilidade rara. Em geral, as pessoas concentram a maior parte de sua atenção no que estão pensando. Na melhor das hipóteses ficam avaliando as palavras do outro ou apenas usam o que o outro diz para falar de suas próprias experiências. Ou então não ouvem nada, pois estão perdidas nos próprios pensamentos. Ouvir com atenção é muito mais do que escutar.

Ouvir com atenção é estar alerta, é abrir um espaço em que as palavras são acolhidas.

As palavras se tornam então secundárias, podendo ou não fazer sentido.

Bem mais importante do que aquilo que você está ouvindo é o ato em si de ouvir, o espaço de presença consciente que surge à medida que você ouve. Esse espaço é um campo unificador feito de atenção em que você encontra a outra pessoa sem as barreiras separadoras criadas pelos conceitos do pensamento.

A outra pessoa deixa de ser o “outro”. Nesse espaço, você e ela se tornam uma só consciência.
Eckhart Tolle

31 agosto, 2014


Silêncio que se vai amar


Silêncio que se vai amar
Todos os amores começam assim. No silêncio de um olhar, no
silêncio de uma mão dependente da outra, de outra mão vadia
a vaguear pela cidade nocturna do teu corpo, no silêncio dos lábios
trincados, trocados, massajados, abraçados e voltados a abraçar.
Todos os amores são silêncio estendido.

E todos os silêncios merecem o amor.
(Excerto)

Pedro Chagas Freitas
Portugal;Azurém,Guimarães 1979
in prometo falhar
Editor: Marcador

30 agosto, 2014

Explicação da Eternidade

devagar, o tempo transforma tudo em tempo. 
o ódio transforma-se em tempo, o amor 
transforma-se em tempo, a dor transforma-se 
em tempo. 

os assuntos que julgámos mais profundos, 
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis, 
transformam-se devagar em tempo. 


por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

foste eterna até ao fim.
 

José Luís Peixoto, in "A Casa, A Escuridão".