09 setembro, 2014


noite

Encontraram-no caído
Ao fundo daquela rua;
Chamaram-no pelo nome, era eu!
- O poeta andava à lua
E adormeceu...

Foi o que disse e jurou
Pela sua salvação
A perdida
Que viu tudo da janela...

E o guarda soube por Ela,
Pelo pranto que chorava,
Quem era na minha vida
O guarda que me guardava...

- Andar à lua é proibido...
Mas Ela pagou a lei
Por um beijo que lhe dei
Antes ou depois de ter caído,
Nem eu sei...

miguel torga
o outro livro de job
1936
Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços meu pecado de pensar. (…)

07 setembro, 2014

OS DIAS


3

Naquele tempo, viver era a melhor coisa do mundo.
Quando nascia o sol todas as pessoas viam
e os homens eram crianças para além dos montes.
Era uma planície, grande como convém a todas as
                                                             planícies
E plana porque tudo estava certo.
Naquele tempo tínhamos sido criados e éramos iguais
                                                   às ervas e às flores.
Tu,
tão perfeita que era impossível não seres,
tão erguida como um riso de andorinha,
tu estavas ao meu lado, naturalmente fresca,
e não havia motivos nem razões porque sabíamos
                                                                  tudo.
A nossa teologia era o beijo da criança mais próxima
e ao deitarmo-nos na terra como folhas da mesma
                                                                 planta,
gratos, reduzidos, conscientes.
Olhando para cima, o céu abria-se e todos os Anjos
                                  vinham sentar-se no rebordo
e riam como nós pequenas gargalhadas.
Eu cantava canções mais belas do que não tendo
                                                            palavras
e ouvias-me em silêncio e de olhos abertos,
                    exactamente como a todos os sons.

pedro tamen
princípio de sol
circulo de leitores
s/d


xxv - as bolas de sabão


As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as cousas,
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser.

Algumas mal se vêem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer cousa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente.

alberto caeiro
Que Há para Lá do Sonhar?Céu baixo, grosso, cinzento 
e uma luz vaga pelo ar 
chama-me ao gosto de estar 
reduzido ao fermento 
do que em mim a levedar 
é este estranho tormento 
de me estar tudo a contento, 
em todo o meu pensamento 
ser pensar a dormitar. 

Mas que há para lá do sonhar? 


Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'

ENCONTROS E DEVANEIOS SENTIMENTAIS
Encontros e devaneios sentimentais que se cruzam com desencontros naturais de quem sente por quem não sente, e se traduz em realidades oblíquas que moldam seres e momentos que ficam e permanecem na insegurança de quem somos. A vida permite-nos crescer em cada desencontro e amar em cada singularidade sempre que acreditamos, sentimos encontrar quem nos possa vir a complementar e permitir SER. Parece simples, mas a carga que damos a essa índole pessoa, acaba por limitar o que pensamos, sentimos e vivemos. Sonhos para te encontrar, porque para mim isto e aquilo, sendo na realidade pouco mais do que se vive e sente, sem que se tenha que encontrar uma justificação lógica. Se lógica houver é a do momento, é a da vida, simplesmente, sem ânsias para a viver, vivendo-a na sua plenitude e na consciência de cada um em entrelaçamento com a natureza que nos rodeia. Gosto de ti, como se nada mais houvesse, como se a minha felicidade depende-se doutra pessoa que ainda mal conheço. Simples paixões , preliminares do amor, que se subjugam ao prazer do conhecimento e se coloca à prova a cada monotonia diária. Cada sentimento, cada coisa a seu tempo, sem que haja tempo para que o carinho e a amizade enraíze no conhecimento e no diálogo dos corpos, permanência singular de duas almas que se tocam. Nem sempre encontramos quem esperamos ou queremos esperar, e a cada desencontro um encontro connosco mesmos, crescimento emancipado para se continuar a caminhar sem que a razão, o juízo nos condicione e amarre a outro tempo que não o viver plenamente para Amar, sem desejos, premeditações e racionalismos. O amor acontece sem que tenhamos de esperar muito. Se tiveres à espera, pode ser que nunca chegue ou então passe por ti sem dares conta...
a.tereso

SOU
... assombrada pelos meus fantasmas,
pelo que é mítico e fantástico
- a vida é sobrenatural.
E eu caminho em corda bamba até o limite de meu sonho.
As vísceras torturadas pela voluptuosidade
Guiam-me, fúria dos impulsos. Antes de me organizar,
tenho que me desorganizar internamente.
Para experimentar o primeiro e passageiro
estado primário de liberdade.
Da liberdade de errar, cair e levantar-me.

Clarice Lispector