18 novembro, 2014


O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Manoel de Barros

tu eras também uma pequena folha


Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

pablo neruda

dentro de mim a tua memória é um ruído


Dentro de mim a tua memória é um ruído
de velocípedes que vão
silenciosamente  onde a altura
do meio-dia desce
ao mais incandescente crepúsculo
entre portões e casas
e suspirando encostas
de janelas reabertas ao verão.
Só, apenas para mim, distante
permanece um gemido de comboios,
de almas que se vão embora.

E aí, leve, vais tu sobre o vento
perdes-te na noite.


vittorio sereni
frontiera
edizione di corrente
milano 1941

08 novembro, 2014


"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive"

- Ricardo Reis 

03 novembro, 2014

Viver em sociedade é um desafio porque às vezes ficamos presos a determinadas normas que nos obrigam a seguir regras limitadoras do nosso ser ou do nosso não-ser... 
Quero dizer com isso que nós temos, no mínimo, duas personalidades: a objetiva, que todos ao nosso redor conhece; e a subjetiva... Em alguns momentos, esta se mostra tão misteriosa que se perguntarmos - Quem somos? Não saberemos dizer ao certo!!!
Agora de uma coisa eu tenho certeza: sempre devemos ser autênticos, as pessoas precisam nos aceitar pelo que somos e não pelo que parecemos ser... Aqui reside o eterno conflito da aparência x essência. E você... O que pensa disso? 



clarice lispector

Horto de Incêndio (Entrevista a Al Berto)

by manuel margarido

Em Março de 1997, o editor Manuel Hermínio Monteiro entrevista o poeta Al Berto, a propósito da edição daquele que viria a ser o seu último livro de poemas originais publicado, Horto de Incêndio. O poeta faleceria em Julho desse ano.
Horto de Incêndio
(Entrevista a Al Berto)
Manuel Hermínio Monteiro
Esta curta entrevista, com um evidente carácter de urgência, foi feita como complemento do seu último livro Horto de Incêndio. Não esperava tanta brevidade nas respostas. Hoje, parece-me, faz todo o sentido. Como julgo natural que a grande maioria dos leitores de Al Berto sejam jovens que viam nele a intensidade chispante de um cantor rock deambulando pelas noites de Lisboa com uma disponibilidade de dialogo e de corpo inexcedíveis. Por isso se nos torna difícil ver uma Lisboa tardia sem a sua presença, o seu sorriso e as suas histórias envolventes. Sem os seus textos para os catálogos de artistas amigos. As inúmeras leituras públicas sempre repletas de gente jovem, que acorria para ouvir o homem a quem «crescera uma pérola no coração». Mas quem melhor o conhecia era o mar e os barcos que «faziam escala à sua porta».
Outubro de 1997
1 – Há bastante tempo que não publicavas e no entanto este livro, até pelo título, tem um carácter de urgência. Porquê?
Telegrama 1: Todos os meus livros tiveram sempre um carácter de urgência. Porque ao terminar um livro nunca tive a certeza que um outro se seguisse. Cada um deles está intrinsecamente ligado a um momento da minha vida. A vida e os livros acontecem…Stop.
2 – Há os poemas «inferno», «sida», «febre», «fantasma», «senhor da asma». É um livro triste, trágico quase apocalíptico?
Telegrama 2: Não podia ser de outra maneira. Veja-se os tempos que correm, tempos de manipulação e de enxertia, tempos de metamorfose maligna e hipocrisia. Já não há cidadãos, mas contribuintes – o que quer dizer que o corpo foi substituído por uma série de algarismos. Stop.
3 – A segunda parte, «Morte de Rimbaud» foi dito em voz alta no Coliseu dos Recreios de Lisboa. Ao escreveres existe alguma vontade de que as tuas palavras sejam para ser ditas em voz alta?
Telegrama 3: Sempre defendi a oralidade. É uma tradição da poesia portuguesa. Não publico poemas sem os lerem voz alta muitas vezes. «Morte de Rimbaud» foi escrito propositadamente para o espectáculo Filhos de Rimbaud e para ser dito em voz alta. Tentei ser claro. Stop.
4 – Coloquiais e íntimos, poemas como pequenos segredos ou conversas afectivas. Esta tua poesia parece nascer da necessidade de uma confidência. A poesia é feita para todos?
Telegrama 4: Se calhar é porque toda a minha escrita é um dialogo comigo mesmo… Uma viagem em direcção ao silêncio. Não sei… Não. A poesia não é feita para ninguém em especial, mas uma vez publicada é para quem a lê. Talvez este livro seja um livro para ler também em voz alta. Stop.
5 – O que é que a tua vida deve à poesia?
Telegrama 5: A poesia tem-me levado ao despojamento daquilo que é lixo e me atrapalha a vida. Cada vez mais me parece que a poesia é a única linguagem capaz de atingir o rosto de um deus e feri-lo moralmente, nem que fosse por um milésimo de segundo. Stop.
In Hablar/Falar de Poesia, n.º 1, 1997


Al Berto

Raiz da Aldeia

Perco as palavras quando me aproximo. Convido-te para dançar, para que possa dialogar contigo. Sou tímido. A dança liberta-me o corpo e as formas de expressão. Fico sem palavras e conjugações gramaticais, mas dou-me em pequenos movimentos. Semicerro os olhos para que a realidade me transporte para uma outra dimensão. Os meus dedos entrelaçam-se com o teus, e sinto o teu vestido no meu corpo. Encosto a minha cabeça na tua e encaixo o meu queixo no teu ombro. Sou mais que silêncios e gestos. Sou mais que palavras e formas escritas. É a intimidade que partilho e é a pureza dos sentimentos que procuro quando me entrego numa dança.

a.tereso 
(1-07-2013)