04 janeiro, 2015


O olhar é um pensamento.
Tudo assalta tudo, e eu sou a imagem de tudo.
O dia roda o dorso e mostra as queimaduras,
a luz cambaleia,
a beleza é ameaçadora.
- Não posso escrever mais alto.
Transmitem-se, interiores, as formas.

Poema de HERBERTO HELDER (1930) incluido no livro DO MUNDO, na versão publicada em OU O POEMA CONTÍNUO em 2004 por Assírio & Alvim.
Desejos vãos

Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a Árvore tosca e tensa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol, altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras... essas... pisa-as toda a gente!...

Florbela Espanca

26 dezembro, 2014


"De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos". 

Fernando Pessoa( livro o desassossego)

19 dezembro, 2014

Agora que Sinto Amor

Agora que sinto amor 
Tenho interesse no que cheira. 
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro. 
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova. 
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia. 
São coisas que se sabem por fora. 
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça. 
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira. 

Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver. 

Alberto Caeiro, in "O Pastor Amoroso"

12 dezembro, 2014


Silêncio que se vai amar
Todos os amores começam assim. No silêncio de um olhar, no
silêncio de uma mão dependente da outra, de outra mão vadia
a vaguear pela cidade nocturna do teu corpo, no silêncio dos lábios
trincados, trocados, massajados, abraçados e voltados a abraçar.
Todos os amores são silêncio estendido.
E todos os silêncios merecem o amor.

(Excerto)
Pedro Chagas Freitas
Portugal;Azurém,Guimarães 1979
in prometo falhar
Editor: Marcador

04 dezembro, 2014


Viver mais que pensar,
numa relação de sentidos e inexpressividades sonoras,
que se tocam pelo detalhe das pequenas coisas.
Silêncios inacabados,
de ténues precisões tácteis, que se prolongam
pelo movimento dançante.
Envolvência poética,
de crepúsculos íntimos num destino
para a indignação auditiva.
Cheiro de laranja romã,
numa visão edílica do presente, que vivemos.
Somos 5 sentidos,
para que sentido não haja
no silêncio que te alberga o meu coração.

a.tereso

03 dezembro, 2014


recado

ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher 
alimento suficiente para a tua morte
vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer – vai por esse campo 
de crateras extintas – vai por essa porta 
de água tão vasta quanto a noite
deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo – deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração – ouve-me
que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna – o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite
não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira – não esqueças o ouro
o marfim – os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço
al berto in Horto de incêndio, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997