Poema de HERBERTO HELDER(1930) incluido no livro DO MUNDO, na versão publicada em OU O POEMA CONTÍNUO em 2004 por Assírio & Alvim.
Desejos vãos
Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!
Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a Árvore tosca e tensa
Que ri do mundo vão e até da morte!
Mas o Mar também chora de tristeza...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!
E o Sol, altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras... essas... pisa-as toda a gente!...
Florbela Espanca
26 dezembro, 2014
"De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos".
Fernando Pessoa( livro o desassossego)
19 dezembro, 2014
Agora que Sinto Amor Agora que sinto amor Tenho interesse no que cheira. Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro. Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova. Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia. São coisas que se sabem por fora. Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça. Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira. Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver. Alberto Caeiro, in "O Pastor Amoroso"
12 dezembro, 2014
Silêncio que se vai amar Todos os amores começam assim. No silêncio de um olhar, no silêncio de uma mão dependente da outra, de outra mão vadia a vaguear pela cidade nocturna do teu corpo, no silêncio dos lábios trincados, trocados, massajados, abraçados e voltados a abraçar. Todos os amores são silêncio estendido.
E todos os silêncios merecem o amor.
(Excerto) Pedro Chagas Freitas Portugal;Azurém,Guimarães 1979 in prometo falhar Editor: Marcador
04 dezembro, 2014
Viver mais que pensar,
numa relação de sentidos e
inexpressividades sonoras,
que se tocam pelo detalhe
das pequenas coisas.
Silêncios inacabados,
de ténues precisões tácteis,
que se prolongam
pelo movimento dançante.
Envolvência poética,
de crepúsculos íntimos num
destino
para a indignação auditiva.
Cheiro de laranja romã,
numa visão edílica do
presente, que vivemos.
Somos 5 sentidos,
para que sentido não haja
no silêncio que te alberga o
meu coração.
a.tereso
03 dezembro, 2014
recado
ouve-me que o dia te seja limpo e a cada esquina de luz possas recolher alimento suficiente para a tua morte vai até onde ninguém te possa falar ou reconhecer – vai por esse campo de crateras extintas – vai por essa porta de água tão vasta quanto a noite deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te e as loucas aveias que o ácido enferrujou erguerem-se na vertigem do voo – deixa que o outono traga os pássaros e as abelhas para pernoitarem na doçura do teu breve coração – ouve-me que o dia te seja limpo e para lá da pele constrói o arco de sal a morada eterna – o mar por onde fugirá o etéreo visitante desta noite não esqueças o navio carregado de lumes de desejos em poeira – não esqueças o ouro o marfim – os sessenta comprimidos letais ao pequeno-almoço
al berto in Horto de incêndio, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997