29 janeiro, 2015


Do Amor XL


Aflição de ser eu e não ser outra,
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu , casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha

Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
( A noite como fera se avizinha ).

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.


Hilda Hil st
Brasil (Jaú, São Paulo) 1930-2004
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora

          Até amanhã


Sei agora como nasceu a alegria
como nasce o vento entre barcos de papel,
Como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima

É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado
amanhecer de pássaros no sangue

E subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos no horizonte
onde o mar é divino e sem palavras.

Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.


Eugénio de Andrade
Portugal (Castelo Branco) 1923-2005
in As palavras interditas,
            Até Amanhã
Editor: Assirio & Alvim

26 janeiro, 2015


Para quê voltar a ter voz, se com ela vivo no silêncio...

Sentido sem objetividade e razão, perpetuado pelo ímpio do que te envolve e seduz. Não és tu, nem o tempo que te demora. A irracionalidade aproxima-te e torna-te real, perante o invólucro da noite. Foges a cada shot de tequila para os meus braços. Ai ficas sem que eu queira, pela metade. Ao acordares já cá não estás, e para que te quero? Instantes em fuga, numa memória precária de ilusões que a noite provoca na irrealidade do sonho. Para quê voltar a ter voz, se com ela vivo no silencio de te ter por perto e não te poder dizer o que sou. Para quê, se só te tenho quando tu não está! Sinto mais que palavras. E perante tudo isto, bebo para esquecer. A embriaguez multiplica-se na infidelidade do medo. Resta-me silêncios e palavras vãs... Porque medo eu não tenho!
a.tereso


amor


O amor é o amor- e depois?
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...

O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos- e somos um? somos dois?
espirito e calor!

O amor é o amor e depois?!


 alexandre o'neill 
LASCÍVIA

Quero tê-la nos braços delirante,
Nesse calor que à carne dá o desejo,
Quero-a impetuosa, lúbrica, ofegante,
Insatisfeita ao beijo, ansiando o beijo!

Que você seja só e toda a amante,
Nada mais, nada, sem Rubor nem pejo...
Confusa, estranha, pálida, um instante...
É assim que a quero, e penso, e sinto, e vejo!

E tudo se dará num só momento,
Que durará o nada, o tudo, o nada,
E será a luz, a flor, a força, o vento!

Fará do agora toda a eternidade,
Fará da eternidade todo o agora,
E de nós dois fará uma só vontade!



Oscar Dias Corrêa
Brasil (Itaúna, MG) 1921,
              Rio Janeiro 2005             
in Antologia de poetas brasileiros 
Eu vou lhe contar uma história: Certa vez, um fazendeiro estava muito revoltado com Deus. Nessa época, os homens ainda falavam com Deus, então o fazendeiro chamou Deus para uma conversa e disse: “Você pode ser Deus, mas não sabe nada sobre agricultura. Eu estou cansado de sofrer. Você está mandando vento, sol e chuva na hora errada! Com isso a produção dos grãos nunca é suficiente. Faça do jeito que eu estou lhe pedindo, e você verá que vai aliviar muito, porque as pessoas vão parar de rezar tanto para você. Haverá um tempo de muita fartura.” Deus disse: “Ok!”. Então, o fazendeiro plantou as sementes, e cultivou da forma que ele acreditava que era correta. Quando sentia que precisava de chuva, ele pedia. Quando sentia que precisava de sol, o sol vinha. Ele acreditava que teria a maior colheita de todos os tempos. Mas, quando chegou a hora de abrir a planta para pegar o grão, não havia nenhum grão. Com isso ele ficou ainda mais revoltado e foi conversar novamente com Deus: “Como isso é possível? Tudo estava matematicamente certo. Como não foi possível brotar o grão?” Deus disse: “Você removeu todos os desafios que possibilitam o nascer do grão.

Sem alguns desafios, é impossível fazer o grão brotar. Assim é a vida.”

(Sri Prem Baba)

20 janeiro, 2015


alentejo

Pedi ao céu que não
e fico nua
Febril em mim, habitas
Antes,
a antiga sorte
da tua ausência.
Agora sem ti
sou tua

alentejo II


é teu
o sabor que 
me embriaga
encontra amor
meu corpo
no teu

Ethel Feldman