31 janeiro, 2015


supõe


[ii]

supõe
a Vida um velho carregando flores à cabeça.

a jovem morte sentar-se num café
sorrindo, uma moeda segura entre
o polegar e o indicador

(eu digo “comprará flores” para ti
e “a Morte é jovem
a vida usa calças de veludo
a vida tropeça, a vida tem barbas” eu

digo para ti que estás emudecido. - “Vês
a Vida? está ali e aqui,
ou aquilo, ou isto
ou nada ou um velho 3 terços
adormecido, à cabeça
flores, sempre a gritar
para ninguém alguma coisa sobre les
roses les bluets

          sim,
                 comprará?
Les belles bottes - oh escuta
, pás chéres”)

e o meu amor lentamente respondeu Eu acho que sim. Mas
Eu acho que vejo alguém mais

há uma senhora, cujo nome é Emseguida
está sentada junto da jovem morte, é esguia;
gosta de flores.


e. e. cummings
xix poemas
trad. jorge fazenda lourenço
assírio & alvim
1998

30 janeiro, 2015


Beija-me, minha alma, doce espelho e guia,

beija-me, acaba, dá-me este contento,
e cada beijo teu engendre um cento,
sem que cesse jamais esta porfia.

Beija-me cem mil vezes cada dia,
pra que, chocando alento com alento,
saiam deste int’rior contentamento
doce suavidade e harmonia.

Ai, boca, venturoso o que te toca!
Ai, lábios, ditoso é o que vos beija!
Acaba, vida, dá-me este contento,

dá-me já tal gosto com tua boca.
Beija-me, vida: tudo em mim lateja.
Aperta, morde, chupa, mas com tento.


Publicou José Bento em 1997, na Assírio & Alvim, com o título Jardim de Poesias Eróticas do Siglo de Oro, uma escolha pessoal de 51 poesias retiradas dos 144 poemas reunidos em Poesía erótica del siglo de Oro.

29 janeiro, 2015


Do Amor XL


Aflição de ser eu e não ser outra,
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu , casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha

Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
( A noite como fera se avizinha ).

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.


Hilda Hil st
Brasil (Jaú, São Paulo) 1930-2004
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora

          Até amanhã


Sei agora como nasceu a alegria
como nasce o vento entre barcos de papel,
Como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima

É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado
amanhecer de pássaros no sangue

E subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos no horizonte
onde o mar é divino e sem palavras.

Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.


Eugénio de Andrade
Portugal (Castelo Branco) 1923-2005
in As palavras interditas,
            Até Amanhã
Editor: Assirio & Alvim

26 janeiro, 2015


Para quê voltar a ter voz, se com ela vivo no silêncio...

Sentido sem objetividade e razão, perpetuado pelo ímpio do que te envolve e seduz. Não és tu, nem o tempo que te demora. A irracionalidade aproxima-te e torna-te real, perante o invólucro da noite. Foges a cada shot de tequila para os meus braços. Ai ficas sem que eu queira, pela metade. Ao acordares já cá não estás, e para que te quero? Instantes em fuga, numa memória precária de ilusões que a noite provoca na irrealidade do sonho. Para quê voltar a ter voz, se com ela vivo no silencio de te ter por perto e não te poder dizer o que sou. Para quê, se só te tenho quando tu não está! Sinto mais que palavras. E perante tudo isto, bebo para esquecer. A embriaguez multiplica-se na infidelidade do medo. Resta-me silêncios e palavras vãs... Porque medo eu não tenho!
a.tereso


amor


O amor é o amor- e depois?
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...

O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos- e somos um? somos dois?
espirito e calor!

O amor é o amor e depois?!


 alexandre o'neill 
LASCÍVIA

Quero tê-la nos braços delirante,
Nesse calor que à carne dá o desejo,
Quero-a impetuosa, lúbrica, ofegante,
Insatisfeita ao beijo, ansiando o beijo!

Que você seja só e toda a amante,
Nada mais, nada, sem Rubor nem pejo...
Confusa, estranha, pálida, um instante...
É assim que a quero, e penso, e sinto, e vejo!

E tudo se dará num só momento,
Que durará o nada, o tudo, o nada,
E será a luz, a flor, a força, o vento!

Fará do agora toda a eternidade,
Fará da eternidade todo o agora,
E de nós dois fará uma só vontade!



Oscar Dias Corrêa
Brasil (Itaúna, MG) 1921,
              Rio Janeiro 2005             
in Antologia de poetas brasileiros