04 fevereiro, 2015


LABIRINTO OU ALGUNS LUGARES DO AMOR
.
O outono
por assim dizer
                   pois era verão
forrado de agulhas

a cal
rumorosa
do sol dos cardos

sem outras mãos que lentas barcas
vai-se aproximando a água

a nudez do vidro
a luz
a prumo dos mastros

os prados matinais
os pés
verdes quase

o brilho
das magnólias
apertado nos dentes

uma espécie de tumulto
as unhas
tão fatigadas dos dedos

o bosque abre-se beijo a beijo
                                        e é branco.


Eugénio de Andrade 
em Véspera da Água

03 fevereiro, 2015

CASA ABERTA

Os meus segredos gritam alto.
Não tenho necessidade de língua.
O meu coração oferece hospitalidade,
As minhas portas se abrem livremente.
Um épico dos olhos
O meu amor, sem qualquer fantasia.

As minhas verdades estão previstas,
Esta angústia auto-revelada.
Estou despido até aos ossos,
Com a nudez me escudo.
Visto-me a mim mesmo.
Conservo sóbrio o espírito.

A raiva permanecerá,
Os actos dirão a verdade
Em linguagem exacta e pura
Detenho a boca mentindo:
A fúria guia o meu grito mais claro
A uma agonia tonta.


(tradução inédita de Mário Carvalheira)
THEODORE ROETHKE 

02 fevereiro, 2015

BEBIDA

{aos resistentes deste blogue}

bebo onde existe sede.
a mão arrefece com o peso da cabeça.
este silêncio resgata palavras 
para além dos factos magros e esguios.

o meu sangue conhece o amor.
leio Östen Sjöstrand

lia Östen Sjöstrand há cinco minutos atrás.
alguém me chamou e tudo ficou diferente.
não digo que seja apenas este poema.
não é, claramente, apenas este poema.

bebo onde existe sede.

Sylvia Beirute
inédito





Sylvia Beirute é natural de Faro, Algarve, Portugal, e nasceu em 1984. Estuda cinema e teatro. Escreve poesia para mudar o {seu} mundo. É a favor do Acordo Ortográfico, na versão de 1945. Autora do blog http://sylviabeirute.blogspot.pt/.
Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.


(Hilda Hilst, Do desejo, 1998)





Hilda Hilst (1930-2004) nasceu em Jaú, São Paulo, em 1930. Estudou direito no Largo São Francisco, na Universidade de São Paulo e publicou o primeiro livro em 1950. Ainda que seus primeiros trabalhos tenham chamado a atenção de um crítico como Sérgio Buarque de Holanda, ela passaria a reunir sua obra poética a partir do volume Roteiro do silêncio, de 1959. Entre seus trabalhos poéticos mais conhecidos, podemos mencionar os volumes Trovas de muito amor para um amado senhor (1961), Júbilo, memória, noviciado da paixão (1974), Da Morte. Odes mínimas (1980) e Cantares do Sem Nome e de Partidas(1995).

Foi ao fim da década de 60 e início da década de 70, no entanto, que Hilda Hilst transformou-se na escritora plural e versátil que faria dela uma das figuras mais produtivas da literatura brasileira das últimas décadas. Em dois anos, entre 1967 e 69, ela produz seus textos para o teatro. Em 1970, publica o primeiro trabalho em prosa, intituladoFluxo-Floema, que seria seguido por aquele que é um dos livros mais assombrosos do pós-guerra: Qadós (1973), além de A obscena senhora D (1982) e Com meus olhos de cão e outras novelas (1986).

01 fevereiro, 2015

Cama

Uma banquisa
Que vaga pelo mundo
Até haver barulho
E surgir a luz
A derreter os corpos
De focas em humanos

Que reentram em circulação
A rota aquosa
Nas veias alargadas dos dias

Aqui descansam os peixes
Logo abaixo da superfície
Espalham-se, quando a luz desce
Apresentam-se dois à caça
E juntos acampam



tradução de Ricardo Domeneck

NORA GOMRINGER (Alemanha, 1980)


Nora Gomringer nasceu em Neunkirchen, no estado alemão do Sarre (Saarland), em 1980. Cresceu entre a Alemanha, a Suíça e os Estados Unidos, devido às viagens e residências de seu pai, o poeta suíço-boliviano Eugen Gomringer. Estudou Literatura Anglo-americana, Germanística e História da Arte. Estreou em livro no ano 2000, com o volume Gedichte, ao qual se seguiram Silbentrennung (2002), Sag doch mal was zur Nacht(2006) e Klimaforschung (2008), coletâneas de textos e poemas, sempre acompanhados de álbuns sonoros com a oralização de sua maior parte. Está entre os poetas alemães mais ativos no terreno de pesquisa da poesia oral e sua relação com a poesia escrita. Entre os muitos prêmios recebidos por seu trabalho oral e literário, destacaríamos o Prêmio de Poesia Nikolaus Lenau, concedido a Nora Gomringer em 2008. A poeta vive hoje na pequena cidade alemã de Bamberg.
Fios
I.

Haverá realmente
tempo perdido?
Não o dizemos somente
por tempo passado?

Se o que se investe
entrementes
não passasse de gasto,
como haveria
sempre o risco
em retomar sempre
esse rastro?


II.

Haverá realmente
Tempo passado?
Não o dizemos somente
Por tempo perdido?

Se o rastro que falo
Está sempre às voltas,
O único risco
É ser intraduzido –
Às voltas sempre
De um ser-se tão vago.


III.

Parcas de si:

Entre os dedos
Da mão
O fio do
Vivido -

Barcas ao léu:

Mas se ata
Ao tronco
O fio do
Passado.

William Zeytounlian