13 fevereiro, 2015


Amor Desmistificado

O sentimento de um homem apaixonado produz por vezes efeitos cómicos ou trágicos, porque em ambos os casos, é dominado pelo espírito da espécie que o domina ao ponto de o arrancar a si próprio; os seus actos não correspondem à sua individualidade. Isto explica, nos níveis superiores do amor, essa natureza tão poética e sublimadora que caracteriza os seus pensamentos, essa elevação transcendente e hiperfísica, que parece fazê-lo afastar da finalidade meramente física do seu amor. É porque o impelem então o génio da espécie e os seus interesses superiores.

Recebeu a missão de iniciar uma série indefinida de gerações dotadas de determinadas características e constituídas por certos elementos que só se podem encontrar num único pai e numa única mãe; só essa união pode dar existência à geração determinada que a objectivação da vontade expressamente exige. O sentimento que o amante tem de agir em circunstâncias de semelhantes transcendência, eleva-o de tal modo sobre as coisas terrestres e mesmo acima de si próprio, e tranforma-lhe os desejos físicos numa aparência de tal modo suprasensível, que o amor é um acontecimento poético, mesmo na existência do homem mais prosaico, o que o faz cair por vezes em ridículo.

Arthur Schopenhauer, in 'Metafísica do Amor'

10 fevereiro, 2015


ponho-me a amar dolorosamente...


ponho-me a amar dolorosamente
que nunca amei ou amarei
coisas secretas coisas que gemem endoidecidas nesta escrita
que navega para se manter acordada e ao mesmo tempo ausente
dos solenes gestos perdidos na cumplicidade das noites
sem luzes por se apagarem ou se acenderem

aves possuem as visões vivas da ardente paixão
e de repente cheio de suor danço com os dedos em cima da cara
rachando o vertical sangue a cuspe gelatinoso e espalho o veneno
das outras pessoas sobre a ideia sem um fim em si

depois cravo o meu corpo como quem molda um embrulho
de máscaras a enforcarem-se

mas subo radioso pelo peso da alma abaixo contorcendo-se
e ao cair para o inquietante ruído dos pés a atravessar as costelas
uma a uma cruzando-se

por dentro ato as vértebras que se rasgam lindamente
até sacudirem as cordas vocais

aí desprendo os dias dos seus filamentos de açúcar aonde pouso
a cabeça entre os teus peitos e desperto esta triste poesia
que tanto me aprisiona e ama


Filipe Marinheiro
in Noutros Rostos
Editor: Chiado Editora
A MINHA FELICIDADE

Depois de estar cansado de procurar
Aprendi a encontrar.
Depois de um vento me ter feito frente
Navego com todos os ventos.


Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"

09 fevereiro, 2015

despertei a falar-te dessa escassa palavra que é o amor

despertei a falar-te dessa escassa palavra que é o amor
girava nas tuas veias em assobio luminoso

tu cantavas no vermelho de minha garganta orvalhada
como um amanhecer dos beijos sobre as rosas do nosso peito
maravilhado por novas palavras com furor a despertarem

os pássaros que nos apertavam baixinhos nas suas asas de música
contra todas as coisas de um mar a enrodilhar a leveza que a todo
o momento nos sorve e onde aquele fresco amor se concentra
despertava


Filipe Marinheiro
in Noutros Rostos
Editor: Chiado Editora
os paraísos artificiais

Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.

Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores.

Os cânticos das aves - não há cânticos,
mas só canários de 3º andar e papagaios de 5º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.

Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.

A minha terra não é inefável.
A vida da minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.

jorge de sena 

08 fevereiro, 2015


Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.

Que este amor só me veja de partida.

hilda hilst
Acordar

Acordo para dormir, tomo o meu despertar lento.
Sinto o meu destino em tudo aquilo
de que não posso ter medo.
Aprendo indo onde tenho de ir.
A Luz toma a Árvore; mas quem nos pode dizer agora?
O humilde verme sobe um degrau de vento
Acordo para dormir e tomo o meu despertar lento.
A Mãe Natureza tem outra coisa para fazer
para ti e para mim; então toma o ar vivo
e amorosamente aprende indo por onde ir.
Este tremer mantém-me estável. Eu deveria saber.
O que diminui é o sempre. E está perto.
Acordo para dormir e tomo o meu despertar lento.
Aprendo indo onde tenho de ir.

(Tradução inédita de Pedro Kashiba)
THEODORE ROETHKE