24 fevereiro, 2015


Encarar a Morte

É talvez sinal de prisão ao mundo dos fenómenos o terror e a dor ante a chegada da morte ou a serena mas entristecida resignação com que a fizeram os gregos uma doce irmã do sono; para o espírito liberto ela deve ser, como o som e a cor, falsa, exterior e passageira; não morre, para si próprio nem para nós, o que viveu para a ideia e pela ideia, não é mais existente, para o que se soube desprender da ilusão, o que lhe fere os ouvidos e os olhos do que o puro entender que apenas se lhe apresenta em pensamento; e tanto mais alto subiremos quando menos considerarmos a morte como um enigma ou um fantasma, quanto mais a olharmos como uma forma entre as formas. 

Agostinho da Silva, in 'Diário de Alcestes' 

"AVÓ", Quero que Saibas

É o teu rosto que encontro. Contra nós, cresce a manhã, o dia, cresce uma luz fina. Olho-te nos olhos. Sim, quero que saibas, não te posso esconder, ainda há uma luz fina sobre tudo isto. Tudo se resume a esta luz fina a recordar-me todo o silêncio desse silêncio que calaste. Pai. Quero que saibas, cresce uma luz fina sobre mim que sou sombra, luz fina a recortar-me de mim, ténue, sombra apenas. Não te posso esconder, depois de ti, ainda há tudo isto, toda esta sombra e o silêncio e a luz fina que agora és. 

José Luís Peixoto, in 'Morreste-me' 

22 fevereiro, 2015


COISAS DE LUZ ANTIGAS

Aquele namorado que tinha
um nome bom: há quanto tempo foi?
A vida resvalante como gelo
e aquele namorado de nome bom
e férias, ficou perdido em luz,
mais de vinte anos.

Deu-me uma vez a mão
um beijo resvalante à hora de deitar
e na pensão. Mas tinha um nome bom.
falava de cinema e calçava de azul
e um bigode curtinho,
que escorregou aceso como gelo
no centro da pensão.

Rasguei as cartas dele
há quinze anos, em dia de gavetas
e de luz, e nem fotografia me ficou
de desarrumação. Mas tinha um nome bom,
falava de cinema e calçava de azul
e resvalou-me quente como gelo
à hora de deitar:

um namorado sem falar
de amor

(que a timidez maior
e o quarto dos meus pais
nessa pensão
no mesmo corredor)

Ana Luísa Amaral
Onde me levas, rio que cantei,

Onde me levas, rio que cantei,
esperança destes olhos que molhei
de pura solidão e desencanto?
Onde me leva?, que me custa tanto.
Não quero que conduzas ao silêncio
duma noite maior e mais completa.
com anjos tristes a medir os gestos
da hora mais contrária e mais secreta.
Deixa-me na terra de sabor amargo
como o coração dos frutos bravos.
pátria minha de fundos desenganos,
mas com sonhos, com prantos, com espasmos.
Canção, vai para além de quanto escrevo
e rasga esta sombra que me cerca.
Há outra fase na vida transbordante:
que seja nessa face que me perca.

Eugénio de Andrade

Saudades...

"Um dia a maioria de nós irá se separar. Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, as descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que compartilhamos.

Saudades até dos momentos de lágrima, da angústia, das vésperas de finais de semana, de finais de ano, enfim... do companheirismo vivido.

Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre. Hoje não tenho mais tanta certeza disso. Em breve cada um vai pra seu lado, seja pelo destino, ou por algum desentendimento, segue a sua vida, talvez continuemos a nos encontrar quem sabe...

Podemos nos telefonar, conversar algumas bobagens... Aí os dias vão passar, meses... anos... até este contato tornar-se cada vez mais raro.

Vamos nos perder no tempo... Um dia nossos filhos verão aquelas fotografias e perguntarão?
Quem são aquelas pessoas? Diremos... Que eram nossos amigos. E... isso vai doer tanto! Foram meus amigos, foi com eles que vivi os melhores anos de minha vida!

A saudade vai apertar bem dentro do peito. Vai dar uma vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente... Quando o nosso grupo estiver incompleto.. . nos reuniremos para um ultimo adeus de um amigo. E entre lágrima nos abraçaremos.

Faremos promessas de nos encontrar mais vezes daquele dia em diante. Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a sua vidinha isolada do passado.

E nos perderemos no tempo... Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida passe em branco, e que pequenas adversidades seja a causa de grandes tempestades. ..

Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!"


Fernando Pessoa
Queria que os portugueses
tivessem senso de humor
e não vissem como génio
todo aquele que é doutor

sobretudo se é o próprio
que se afirma como tal
só porque sabendo ler
o que lê entende mal

todos os que são formados
deviam ter que fazer
exame de analfabeto
para provar que sem ler

teriam sido capazes
de constituir cultura
por tudo que a vida ensina
e mais do que livro dura

e tem certeza de sol
mesmo que a noite se instale
visto que ser-se o que se é
muito mais que saber vale

até para aproveitar-se
das dúvidas da razão
que a si própria se devia
olhar pura opinião

que hoje é uma manhã outra
e talvez depois terceira
sendo que o mundo sucede
sempre de nova maneira

alfabetizar cuidado
não me ponham tudo em culto
dos que não citar francês
consideram puro insulto

se a nação analfabeta
derrubou filosofia
e no jeito aristotélico
o que certo parecia

deixem-na ser o que seja
em todo o tempo futuro
talvez encontre sozinha
o mais além que procuro.

Agostinho da Silva, in 'Poemas'
"Se, por um instante ,Deus se 
esquecesse de que sou uma marionete 
de trapo e me presenteasse com um 
pedaço de vida,possivelmente não diria 
tudo o que penso,mas ,certamente pensaria 
tudo o que digo. 
Daria valor às coisas,não pelo o que valem, 
mas pelo que significam. 
Dormiria pouco,sonharia mais, pois sei que 
a cada minuto que fechamos os olhos, 
perdemos sessenta segundos de luz. 
Andaria quando os demais parassem, 
acordaria quando os outros dormem. 
Escutaria quando os outros falassem 
e gozaria um bom sorvete de chocolate. 
Se Deus me presenteasse com um pedaço 
de vida vestiria simplesmente , me 
jogaria de bruços no solo,deixando 
a descoberto não apenas meu corpo, 
como minha alma. 
Deus meu, se eu tivesse um coração, 
escreveria meu ódio sobre o gelo e 
esperaria que o sol saisse. 
Pintaria com um sonho de Van Gogh 
sobre estrelas um poema de Mário 
Benedetti e uma canção de Serrat 
seria a serenata que ofereceria à Lua. 
Regaria as rosas com minhas lágrimas 
para sentir a dor dos espinhos e o 
encarnado beijo de suas pétalas. 
Deus meu, se eu tivesse um pedaço 
de vida!... 
Não deixaria passar um só dia sem 
dizer às gentes- te amo, te amo. 
Convenceria cada mulher e cada homem 
que são os meus favoritos e viveria 
enamorado do amor. 
Aos homens, lhes provaria como estão 
enganados ao pensar que deixam de se 
apaixonar quando envelhecem, sem saber 
que envelhecem quando deixam de se 
apaixonar. 
A uma criança,lhe daria asas,mas 
deixaria que aprendesse a voar sozinha. 
Aos velhos ensinaria que a morte não 
chega com a velhice, mas com o 
esquecimento. 
Tantas coisas aprendí com vocês, 
os homens... 
Aprendí que todo mundo quer viver no 
cimo da montanha,sem saber que a 
verdadeira felicidade está na forma 
de subir a escarpa. 
Aprendí que quando um recém-nascido 
aperta com sua pequena mão pela 
primeira vez o dedo do pai, 
o tem prisioneiro para sempre. 
Aprendí que um homem só tem o direito 
de olhar um outro de cima para baixo 
para ajudá-lo a levantar-se. 
São tantas as coisas que pude aprender 
com vocês,mas,finalmente não poderão 
servir muito porque quando me olharem 
dentro dessa maleta,infelizmente 
estarei morrendo "
 

GABRIEL GARCIA MARQUEZ
 
https://www.youtube.com/watch?v=1HK3tkw0g5k