09 março, 2015

ESTUDO DE NU

Essa linha que nasce nos teus ombros,
Que se prolonga em braço, depois mão,
Esses círculos tangentes, geminados,
Cujo centro em cones se resolve,
Agudamente erguidos para os lábios
Que dos teus se desprenderam, ansiosos.

Essas duas parábolas que te apertam
No quebrar onduloso da cintura,
As calipígias ciclóides sobrepostas
Ao risco das colunas invertidas:
Tépidas coxas de linhas envolventes,
Contornada espiral que não se extingue.

Essa curva quase nada que desenha
No teu ventre um arco repousado,
Esse triângulo de treva cintilante,
Caminho e selo da porta do teu corpo,
Onde o estudo de nu que vou fazendo
Se transforma no quadro terminado.


(José Saramago) *in « Os Poemas Possíveis», 1966

Acostumar
Posso até me acostumar
E deixar você fugir
Posso até me acostumar
Da gente se divertir
Dava tudo por amor
Eu vim de longe
Dava pra sentir
Você dançando só pra mim
Parece brincadeira
Mas eu sei que a gente faz
Um monte de besteira
Por saber que é bom demais
Posso até me acostumar
E deixar você fugir
Posso até me acostumar
Da gente se divertir
Eu vim mas trouxe o sol
E a tempestade lá de longe
Dava pra sentir você passando devagar
Pareceria tarde
Mas você foi me chamar
Morena da cidade
Eu posso até me acostumar

07 março, 2015

LIBERDADE

Contigo,
Rebolo na erva dos prados,
Abraçando o sol ao meio dia.
Não importa a língua que falo,
Ou se a noite já baixou.
Canto árias,
Danço tangos e boleros
Pela terra acabada de lavrar.
Enfio-me nas florestas,
E brinco às escondidas com o lobo mau.

Contigo,
Como amoras silvestres,
E sujo a boca no sumo das laranjas.
Monto cavalos de espuma.
Cubro-me de lama
E banho-me em ribeiros cristalinos.
Ando descalça pelos campos de searas,
E peço à chuva que me molhe,
E às estrelas que mudem de lugar.

Contigo, 
Galgo montanhas
E sei de cor o nome das nuvens.
Atravesso tempestades e vendavais
E adormeço numa cama de musgo.
Deito-me nua ao luar,
E gozo o frio das geadas.
Contigo,
Acendo fogueiras no deserto,
E toco uma balada para o vento.

Contigo, 
Sou um pássaro com asas a crescer.


(Helena Figueiredo) 
in «Ao sabor da pele», 2009

01 março, 2015

Primeiros sintomas.

Já não éramos mais nós mesmos. Já não éramos mais que a lembrança de nós mesmos. Verticais de solidão. É isso que éramos.

Já não estávamos mais que perdidos no meio do nada – veja nossos corpos tão distantes e tão próximos.

Já não éramos – olhe para nós – mais que uma rachadura de ramo a ramo, a degenerescência de uma família que, em um século-fera, se perde, se distancia e não existe mais – veja o ar deixar de viver entre nós, veja até mesmo o ar deixar de viver.

Sozinhos, à frente e atrás, sozinhos, à direita e à esquerda, por todos os lados e cada vez mais sozinhos, já não estávamos mais que perdidos entre o hoje e o amanhã, e era preciso render-se à evidência: provavelmente não havia mais ninguém pensando em nós, e nossas palavras eram quimeras.

Já não éramos mais que centenas, em pé e eretos numa espera sem fim, o crepúsculo ou a aurora – difícil dizer – rodeados pelo eterno som de disparo do tempo que passa, e o medo e a angústia: desaparecer sem mesmo ter aparecido.

Na verdade, já não éramos mais que numerosos demais para podermos nos tocar e, à noite e de madrugada, nos falar inclinando nossos corpos para o lado, uns contra os outros. Suavemente, violentamente, amorosamente.

O escuro e a desconfiança cega, a desconfiança e o medo da fera, o medo e a umidade subindo do solo com os esporos escuros não germinados dos nossos desejos. Era aí onde vivíamos, e tínhamos tanto medo.

Vocês já não eram mais que tão melancólicos e tão pessimistas e limitados, riam de vez em quando alguns de nós. Mas nós não os escutávamos mais, claro.

Onde estava o vento? Onde a luz? Já não éramos mais nem o vento nem a luz. Não estávamos mais nem dentro do vento nem dentro da luz. 

Provavelmente houve – nesse lugar nulo – seres que tinham se emocionado, tinham rido ou chorado. Mas isso era um vocabulário antigo, a emoção, o riso e as lágrimas, que não entendíamos mais.

Já não estávamos mais que dentro do silêncio dos bosques a nos gritar, sem parar ou quase, que nos amamos, nos abraçamos, nos amamos e nos abraçamos, mas isso era uma manobra triste: não se passava mais grande coisa entre nós – veja o ar deixar de viver entre nós, veja até mesmo o ar deixar de viver, repetíamos sem fim.

Não iriam sobrar, no final, senão os vírus e as doenças para nos darem a ilusão de estarmos juntos? Não iria haver mais senão isso, como pontes ou passarelas entre nós? Era isso que pensávamos então, verticais de solidão. E espreitando como mortos de fome a chegada dos primeiros sintomas...

ANTOINE WAUTERS
(Tradução de Paula Glenadel e Lucia Chamarelli, publicada originalmente no quarto número impresso da Modo de Usar & Co., Rio de Janeiro: Berinjela/Artes Vertentes, 2013).

27 fevereiro, 2015

DELÍRIO

O desejo resolvido
A chama arrebatada
O prazer entreaberto
O delírio da palavra

Dou voz liberta aos sentidos
Tiro vendas, ponho o grito
Escrevo o corpo, mostro o gosto
Dou a ver o infinito

Maria Teresa Horta

25 fevereiro, 2015

Os Erros

A confusão a fraude os erros cometidos
A transparência perdida — o grito
Que não conseguiu atravessar o opaco
O limiar e o linear perdidos

Deverá tudo passar a ser passado
Como projecto falhado e abandonado
Como papel que se atira ao cesto
Como abismo fracasso não esperança
Ou poderemos enfrentar e superar
Recomeçar a partir da página em branco
Como escrita de poema obstinado?

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"
Vive o Dia de Hoje!

Não penses para amanhã. Não lembres o que foi de ontem. A memória teve o seu tempo quando foi tempo de alguma coisa durar. Mas tudo hoje é tão efémero. Mesmo o que se pensa para amanhã é para já ter sido, que é o que desejamos que seja logo que for. É o tempo de Deus que não tem futuro nem passado. Foi o que dele nós escolhemos no sonho do nosso absoluto. Não penses para amanhã na urgência de seres agora. Mesmo logo à tarde é muito tarde. Tudo o que és em ti para seres, vê se o és neste instante. Porque antes e depois tudo é morte e insensatez. Não esperes, sê agora. Lê os jornais. O futuro é o embrulho que fizeres com eles ou o papel urgente da retrete quando não houver outro.

Vergílio Ferreira, in "Escrever".