17 outubro, 2015

bailarinos imóveis

Lanço o tema
com uma cadência
de velha e doce
canção de amor ─
Não há mal
na emoção
nem em recordar tudo
o que se pode ou quer.
Deixa que a música frágil, abafada
derrame o seu fascínio
e enfeitice quem quiser,
bailarinos imóveis à lua.

robert creeley
poesia do mundo

Acho tão Natural que não se Pense

Acho tão natural que não se pense 
Que me ponho a rir às vezes, sozinho, 
Não sei bem de quê, mas é de qualquer cousa 
Que tem que ver com haver gente que pensa ... 
Que pensará o meu muro da minha sombra? 
Pergunto-me às vezes isto até dar por mim 
A perguntar-me cousas. . . 
E então desagrado-me, e incomodo-me 
Como se desse por mim com um pé dormente. . . 
Que pensará isto de aquilo? 
Nada pensa nada. 
Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem? 
Se ela a tiver, que a tenha... 
Que me importa isso a mim? 
Se eu pensasse nessas cousas, 
Deixaria de ver as árvores e as plantas 
E deixava de ver a Terra, 
Para ver só os meus pensamentos ... 
Entristecia e ficava às escuras. 
E assim, sem pensar tenho a Terra e o Céu. 

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXXIV" 
Heterónimo de Fernando Pessoa

16 outubro, 2015

A noite cai nos teus olhos

A noite cai nos teus olhos
De um verde malicioso
E há qualquer fluido que vai
Vibrando silencioso...
Inda é cedo. Mais um pouco.
─ Não vês como as rosas
Se mostram nitidamente?!
Mais um pouco...
Deixa que a noite dissolva
Tudo na mesma aparência
Que tem a minha tristeza
Quando tu andas distante
Ou vens pra ficar ausente!...
E teimas? ─ Pois bem: adeus!
Parece que te macei...
Mas fica; o dia vem longe;
Sim, não sejas indeciso...
Esquece que te beijei.

António Botto
Portugal (Concavada, Abrantes) 1897
Brasil (Rio de Janeiro) 1959
in Canções e outros poemas
Um outro tanto

Não sei como consigo
amar-te tanto
se querer-te assim na minha fantasia
é amar-te em mim
e não saber já quando
de querer-te mais eu vou morrer um dia
perseguir a paixão até ao fim é pouco
exijo tudo até perder-me
enquanto, e de um jeito tal que desconhecia
poder amar-te ainda
um outro tanto

Maria Teresa Horta, in “Inquietude”

13 outubro, 2015

Corpo habitado

Corpo num horizonte de água,
corpo aberto
à lenta embriaguez dos dedos,
corpo defendido
pelo fulgor das maçãs,
rendido de colina em colina,
corpo amorosamente humedecido
pelo sol dócil da língua.
Corpo com gosto a erva rasa
de secreto jardim,
corpo onde entro em casa,
corpo onde me deito
para sugar o silêncio,
ouvir
o rumor das espigas,
respirar
a doçura escuríssima das silvas.
Corpo de mil bocas,
e todas fulvas de alegria,
todas para sorver,
todas para morder até que um grito
irrompa das entranhas,
e suba às torres,
e suplique um punhal.
Corpo para entregar às lágrimas.
Corpo para morrer.
Corpo para beber até ao fim –
meu oceano breve
e branco,
minha secreta embarcação,
meu vento favorável,
minha vária, sempre incerta
navegação.

Eugénio de Andrade
Portugal » Castelo Branco 1923-2005
in Obscuro Dominio
O nó na minha garganta vai diminuindo. Palavras juntam-se, grudam-se, atropelam-se umas por cima das outras. Não importa quais sejam. Empurram-se e trepam uma nos ombros das outras. As isoladas, as solitárias acasalam-se, cambaleiam, multiplicam-se. Não importa o que digo. Como um pássaro a esvoaçar, uma frase cruza o espaço vazio entre nós. Pousa nos lábios dele. (p. 78) 

As Ondas, Virginia Woolf

11 outubro, 2015

«À noite na cama Constança aproximava-se,
colava-se rente ao corpo quente de Henrique, tocava-lhe no peito liso
nas ancas magras, no púbis grande e largo, até o acordar e rebolarem
juntos nos lençóis revolvidos pelo sono.
Era o lugar de que esteio? As ancas estreitas e duras, aquele
olhar sem piedade nem remédio que o escuro do quarto devorava
mas ela conhecia tão bem; tão perto da maldade.
Às vezes acordava de madrugada e ficava horas debruçada
sobre ele, a respirar-lhe o cheiro. A beber-lhe o hálito. A lamber-lhe
os ombros até ele acordar e a abraçar, entrar nela e se virem os dois
ao mesmo tempo.
Numa pressa.
Num desatino.
Encharcados em suor.»


Clarice Lispector
in A Paixão segundo G. H.
(Excerto)