21 outubro, 2015

que é que muda em nós quando mudamos?

99 – Que é que se muda em nós quando mudamos? De idade, de uma condição, às vezes mesmo de um local? Podem manter-se os mesmos valores, ideologia, relação com a vida. e todavia, aí mesmo, alguma coisa pode mudar. É a mudança que se opera no indizível de nós, onde mora a organização disso tudo, ou seja, o equilíbrio disso tudo. Os valores reordenam-se numa outra ordenação, num outro escalonamento, num modo diverso de os perspectivarmos. Os valores podem permanecer, mas não na face que era a sua ou o lugar que era o seu. E com isso em nós a porção de alma que lhes démos. Ou a aceleração do ritmo da nossa excitação. Não se entenderá assim que a mesma obra seja diferente como a arrumação diferente dos móveis de uma sala? Porque uma obra é o que é, mais o modo de a fazermos ser o que nela somos nós. Mas esse modo é o que ela é afinal. Que é que muda em nós quando mudamos? Uma forma diferente de sermos o mesmo. As vagas do mar. Um céu que se descobre. A pele que se enruga. O ângulo do olhar.
vergílio ferreira
pensar

20 outubro, 2015

Se me aproximar

Se me aproximar devagar será que vais fugir?
ou se vou conseguir mais um tempo ao teu lado?
para te entreter mais um pouco ou te fazer sorrir
para ti ou pelo sonho vamos juntos viajar.
Medo é desculpa em leve chuva
e querer morrer de amor não é historia de outro tempo.
Mas se formos novos de novo
Mas se formos juntos
vamos poder respirar


TIAGO BETTENCOURT E MÁRCIA

19 outubro, 2015

As Coisas

A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro,
Um livro e em suas páginas a desvanecida
Violeta, monumento de uma tarde
Sem dúvida inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas, taças, cravos,
Servem-nos, como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão para além de nosso esquecimento;
Nunca saberão que partimos em um momento.
Jorge Luis Borges

17 outubro, 2015

bailarinos imóveis

Lanço o tema
com uma cadência
de velha e doce
canção de amor ─
Não há mal
na emoção
nem em recordar tudo
o que se pode ou quer.
Deixa que a música frágil, abafada
derrame o seu fascínio
e enfeitice quem quiser,
bailarinos imóveis à lua.

robert creeley
poesia do mundo

Acho tão Natural que não se Pense

Acho tão natural que não se pense 
Que me ponho a rir às vezes, sozinho, 
Não sei bem de quê, mas é de qualquer cousa 
Que tem que ver com haver gente que pensa ... 
Que pensará o meu muro da minha sombra? 
Pergunto-me às vezes isto até dar por mim 
A perguntar-me cousas. . . 
E então desagrado-me, e incomodo-me 
Como se desse por mim com um pé dormente. . . 
Que pensará isto de aquilo? 
Nada pensa nada. 
Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem? 
Se ela a tiver, que a tenha... 
Que me importa isso a mim? 
Se eu pensasse nessas cousas, 
Deixaria de ver as árvores e as plantas 
E deixava de ver a Terra, 
Para ver só os meus pensamentos ... 
Entristecia e ficava às escuras. 
E assim, sem pensar tenho a Terra e o Céu. 

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXXIV" 
Heterónimo de Fernando Pessoa

16 outubro, 2015

A noite cai nos teus olhos

A noite cai nos teus olhos
De um verde malicioso
E há qualquer fluido que vai
Vibrando silencioso...
Inda é cedo. Mais um pouco.
─ Não vês como as rosas
Se mostram nitidamente?!
Mais um pouco...
Deixa que a noite dissolva
Tudo na mesma aparência
Que tem a minha tristeza
Quando tu andas distante
Ou vens pra ficar ausente!...
E teimas? ─ Pois bem: adeus!
Parece que te macei...
Mas fica; o dia vem longe;
Sim, não sejas indeciso...
Esquece que te beijei.

António Botto
Portugal (Concavada, Abrantes) 1897
Brasil (Rio de Janeiro) 1959
in Canções e outros poemas
Um outro tanto

Não sei como consigo
amar-te tanto
se querer-te assim na minha fantasia
é amar-te em mim
e não saber já quando
de querer-te mais eu vou morrer um dia
perseguir a paixão até ao fim é pouco
exijo tudo até perder-me
enquanto, e de um jeito tal que desconhecia
poder amar-te ainda
um outro tanto

Maria Teresa Horta, in “Inquietude”