14 dezembro, 2015

Dá-me a tua mão

Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo 
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia. 
Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

Clarice Lispector

27 novembro, 2015

Não te chamo para te conhecer
Eu quero abrir os braços e sentir-te
Como a vela de um barco sente o vento
Não te chamo para te conhecer
Conheço tudo à força de não ser
Peço-te que venhas e me dês
Um pouco de ti mesmo onde eu habite

Sophia de Mello Breyner Andresen

26 novembro, 2015

Os Pêssegos
Lembram adolescentes nus:
a doirada pele das nádegas
com marcas de carmim, a penugem
leve, mais encrespada e fulva
em torno do sexo distendido
e fácil, vulnerável aos desejos
de quem só o contempla e não ousa
aproximar dos flancos matinais
a crepuscular lentidão dos dedos.

Eugénio de Andrade
"Não chore pelo amor perdido, seja por causa da morte ou da volubilidade da natureza humana. O amor em si jamais se perde, apenas brinca de esconde-esconde em muitos corações para que, perseguindo-o, você encontre manifestações suas cada vez maiores. Ele continuará a ocultar-se e a decepcionar, até que a procura tenha sido longa o suficiente para você encontrar sua morada no Ser que reside nos mais profundos recessos de sua própria alma e no coração de todas as coisas. Então, você poderá dizer:
“Ó Senhor, quando eu residia na casa da consciência mortal, pensei que amasse parentes e amigos; imaginei que amasse aves, animais e posses. Mas agora que me instalei na mansão da Onipresença, sei que amo só a Ti, manifestado em parentes e amigos, em todas as criaturas e em todas as coisas. Amando apenas a Ti, meu coração expandiu-se para amar aos muitos. Sendo leal em meu amor por Ti, sou leal a todos os que amo. E amo a todos os seres para sempre."

Paramahansa Yogananda, O Romance com Deus

20 novembro, 2015

No presente

Talvez deixe de ser eu,
quando mergulho no trabalho.
Pura realidade mecânica e irreal,
Mundo perfeito o dos sentidos
Que se vai a cada perturbação.

Intangível regresso ao sensorial,
Numa bipolaridade crescente
na permanência física dos desejos
Do corpo sobre a alma.

Sou carne para canhão,
numa repetição animal em série
numa individualidade que se perde,
para ganhar o pão e perder a alma...

Pequenos frames de luz, e sempre
Que eu respiro, saio em fuga
Uma bomba de oxigénio,
que me permite ser e estar
NO PRESENTE!

a.tereso
Incógnita insegurança que se traduz numa leve pressão, ambígua, sem sujeito nem predicado, um sentido sem lugar para o medo, sem vergonha, nem dor... Vida pela vida, num vício de adrenalina sentimental, sem sentimento, com leveza espiritual e transcendência, contraditória aos mecanismos naturais de quem sou. Leviandade dos corpos numa submersão marítima, perante a inoperância do vento, subjugados às necessidades íntimas espontâneas, de troca de afetos e irreflexões. Germinar no sexo, de energias contrárias, que se seduzem e apagam em gestos de carinho. Histórias da vida, de quem sou e sinto, numa morada onde espero pernoitar e ficar. Subsistência no amor, porta aqui do lado, apartado não desistas que ele acaba por chegar!

a.tereso 
é bom o teu abraço,
o calor do teu corpo
e o silêncio da tua boca

é bom encontrar-te em liberdade,
em processo criativo,
com sensualidade e
desejo de envolver
o horizonte longínquo dos sentidos

é bom ver-te
e sentir-te
na (tua) natureza
e em seu redor

é bom sentir o silêncio
dos teus lábios,
a querem os meus,
e o calor do teu corpo
a pedir ardência ao meu

é bom o silêncio que me trazes
e o que me dizes com ele,
guardo-o em mim
e com ele adormeço
para que se torne realidade

o que as palavras não alcançam...

a.tereso