18 dezembro, 2015

um dia disseste: parecia a presença de uma ausência


Um dia disseste: parecia a presença de uma ausência
(ou talvez parecesse a própria ausência da ausência).
Nada faltava sob aquele céu figurado.

Também disseste: só a ficção é real,
só aquilo que invento existe
- o resto não é sequer literatura -,

Outro dia congregaste palavras. Palavras
que tinham caído do silêncio
como cinza espalhada por um voo de aves.
Testamento ou herança, aquele livro começou
a inscrever-se nas estâncias brancas
da memória, enquanto um bisturi de luz
fendia as imagens uma a uma: no teu coração
começou a habitar, talvez ainda mais
e para sempre, um tigre com olhos de fogo.


antoni  clapés

16 dezembro, 2015

e agora: a tua pele.

E agora: a tua pele.
Revejo: é manso o mar.
E sei que o vento corre e que por ele
se colam no teu corpo lembranças de luar.
Descanso: os teus cabelos.
Entrego: já é dia.
Os caules são serenos, e ao vê-los
No côncavo da mão o sol nascia.

pedro tamen
princípio de sol
circulo de leitores
Um ritmo perdido...

Se uma pausa não é fim
e silêncio nâo é ausência,
se um ramo partido não mata uma árvore,
um amor que é perdido,será acabado?
um ouvido que escuta
uma alma que espera...
-uma onda desfeita
É ou já não era?
Nuvem solitária,
silenciosa e breve,
nuvem transparente,
desenho etéreo de anjo distraído...
nuvem,
esquecida em céu de esperança,
forma irreal de sonho interrompido..
nuvem,
luz e sombra,
forma e movimento,
fantasia breve de ânsia de infinito...
nuvem que foste
e já não és:
desejo formulado e incompreendido.

ana hatherly

14 dezembro, 2015

e a noite, onde murmura a nossa origem

E a noite, onde murmura a nossa origem,
Subiu comigo aos cerros do Marão.
E a estrela virgem
Da Anunciação,
Dos seus lábios, cantando e rindo nasce:
Um áureo beijo, a arder e a iluminar...
Seu cabelo aloirava; e à sua face,
Viam-se as lindas cores aflorar.
Brumas, sombras nocturnas, brandamente,
Sumiram-se, no ar...
E seu formoso
Corpo cruel de deusa omnipotente,
Voluptuoso,
De pé, naquela altiva soledade,
Como enlevado, extático, sorrindo,
Domina a planetária imensidade
E o céu infindo...
E aquele riso,
Doirando a serra,
É um anjo que nos mostra o Paraíso,
Além da terra.
Alto sorriso lúcido, escultura
Em luz marmórea...
O busto da esperança que fulgura,
Dentro de nós, no escuro da memória...
Ó riso, árvore de luz, solta folhagem
De azul tremente!
Ó rosto alegre, outeiro em flor, paisagem...
Idílica frescura, água corrente...
[...]
teixeira de pascoaes
1877-1952
senhora da noite
Nada lhe posso dar que já não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens, além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo.
Hermann Hesse
Dá-me a tua mão

Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo 
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia. 
Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

Clarice Lispector

27 novembro, 2015

Não te chamo para te conhecer
Eu quero abrir os braços e sentir-te
Como a vela de um barco sente o vento
Não te chamo para te conhecer
Conheço tudo à força de não ser
Peço-te que venhas e me dês
Um pouco de ti mesmo onde eu habite

Sophia de Mello Breyner Andresen