28 dezembro, 2015

O que se opõe ao descuido e ao descaso é o cuidado. Cuidar é mais que um ato; é uma atitude. Portanto, abrange mais que um momento de atenção. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro.
Leonardo Boff
AMOR vrs APEGO

Na minha meditação pensei imenso à cerca do amor, dos relacionamentos amorosos, dos relacionamentos entre os pais e os filhos, nas amizades. Fiz uma introspecção e foi bom ver o quanto os meus relacionamentos haviam mudado para melhor. Perguntei-me o que tinha mudado para haver essa tão significante mudança, a resposta foi automática - liberdade. Muito facilmente dizemos que amamos, falamos do quanto somos loucos por alguém, mas raramente esse amor está livre de exigências, de apego, de ciúmes, de condicionalismos que tornam o ser humano "um prisioneiro" das suas relações. Em tempos fui uma prisioneira dessa ilusão, achava que amava e por isso prendia-me ao outro e queria que o outro se prendesse a mim. Só mais tarde percebi que quanto mais nos agarramos às coisas, mas elas fogem de nós. Só mais tarde percebi também que o sentimento de amor era bem diferente do sentimento que tinha na verdade- apego. Quando exigimos, quando iniciamos frases como "devias", "o certo era", "o amor não é isto", "a tua prioridade devia ser eu", devemos parar para nos ouvirmos a nós próprios.

Amor é liberdade, é paz, é conforto, é uma saudade sem ansiedade, é uma saudade sem medo. É apoiar a pessoa incondicionalmente, deixando-a ser livre para experiênciar as suas escolhas. Mesmo que essa escolha seja por vezes sem a nossa presença, mesmo que essa escolha nem sempre nos pareça a mais correcta, há que existir um distanciamento para compreender que uma coisa é o meu caminho, a minha vida, a forma como eu vejo as coisas, mas essa minha realidade não tem de ser imposta aos outros, pois cada um sente a vida muito à sua maneira. Quando impomos, cegamos naquilo que consideramos ser o lado da razão, mas a razão está em quem sente, está naquele que tem o direito a optar pelo lado esquerdo, sem que alguém o convença que pelo lado direito ele vai cair. E mesmo que caía, o lado direito tinha uma aprendizagem extraordinária que o preparou para o seu tão único caminho. Amar é perceber que não temos o direito de condicionar a vida de ninguém, sejam eles irmãos, pais, filhos, namorados, maridos, esposas. 

Amar.....amar é entregar, é saber que as asas presentes nas costas de cada um devem ser abertas, amar é não só deixar o outro voar, como ajudá-lo a planar , é incentivá-lo a explorar a sua essência, a cumprir os seus sonhos, a largar os seus medos, é deixá-lo SER e não "anulá-lo" a favor das minhas vontades ou receios de "perder", esses sentimentos vêm do apego. E quando realmente se ama, mas se ama mesmo, nós desapegamos, somos felizes porque aquela pessoa é feliz, ficamos tristes quando ela está triste e principalmente quando essa pessoa se impede de viver.

Descobri com os meus 17 anos qual era o sentimento que as pessoas tanto falavam, aquele sentimento que nos fazia disparar o coração e perder o foco. Mas antes de conseguir viver o amor, eu vivi o apego, vivi o medo de perder, a ansiedade de querer mais. Quando junto à mesma pessoa, percebi que amar era SER e deixar Ser descobri o amor e toda a magia que ele nos traz - companheirismo, magia, apoio incondicional, carinho, paz, pacificidade e acima de tudo a felicidade de quem ama e de quem não tem medo de se deixar amar.

Este texto é para te ajudar a diferenciar estas duas emoções, pois uma das emoções é produzida pela mente - apego, a outra emoção é produzida pela alma e a alma só quer amar. É uma partilha de um bocadinho de mim, para o teu eu inteiro.
Se nos livrarmos do apego, perdemos muito peso e tornamo-nos pessoas muito mais felizes.

Bom dia e boa dieta smile emoticon
Rute Caldeira
http://umadietaespiritual.blogspot.pt

27 dezembro, 2015

Abraço (que te dou)

Subtileza do eu profundo,
num delicado gesto que permanece,
aqui, relação do agora em harmonia
com a natureza interior, numa
demonstração real dos sentidos.

Abraço, a dois, num só, conjugação
Gramatical de meridianos, que se tocam
No espírito e na leviandade do SER e
na simplicidade do amar num todo,
com a inocência de uma criança.

a.tereso

25 dezembro, 2015


Neste silêncio...

Olhando nos meus, teus olhos gritavam:
diz, diz que me amas, diz da paixão
que sentes por mim...

Tremendo em silêncio, teus lábios diziam:
beija-me, deixa-me beber teu amor,
passear no teu corpo, fazer-te gozar...

Teus seios eretos, ansiando diziam:
somos teus, para sempre,
suga-nos e bebe nosso sumo de amor!

E à noite, teu corpo tremendo, pedia:
vem e me toma, guarda-te e morre
dentro de mim!

Teu sexo úmido, ansiando, chorava:
vem, te prometo prazeres sem fim,
vem meu amor e renasce em mim!

E eu, surdo da vida e surdo do amor,
não ouvia os teus gritos teu desejo por mim...

E quando o tédio infame, afinal tomou conta
e o descaso doído nos fez companhia,
afinal nossa hora chegou...

E sem gritos nem choros,
sem amor e sem ódios,
sem eu o saber,
levastes minha vida.

E hoje, no imenso vazio,
de um silêncio sem fim,
eu ouço teus gritos
que antes não ouvia...


Artur Ferreira

22 dezembro, 2015

Tu eras também uma pequena folha

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.


Pablo Neruda

21 dezembro, 2015

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor à procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa,
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade

20 dezembro, 2015

Histórias a dois


Em cada vida que eu me cruzei,
Com cada olhar em quem eu me perdi,
Dualidades e emaranhados sentidos,
Na subtileza de quem eu sou e habitei!

Na verdade e em cada beijo transitado,
mulheres do meu corpo insaciado,
numa alma cansada, perdida mas sadia,
fui mais eu. Fui eu! Pela metade.

Amnésia poética, instantes de intimidade
de verosimilhanças profundas, inalcançáveis
abismo de um orgasmo múltiplo, controlado
em que fomos dois, num só! Os dois.

Medo! De ai ficar e nada mais descobrir
Por viver no sonho, e fora dele
a pura realidade é a que se vive
E sair dela é viver no inalcançável...

a.tereso