12 janeiro, 2016

Elogio da Amada

Ei-la que vem ubérrima numerosa escolhida
secreta cheia de pensamentos isenta de cuidados
Vem sentada na nova primavera
cercada de sorrisos no regaço lírios
olhos feitos de sombra de vento e de momento
alheia a estes dias que eu nunca consigo
Morde-lhe o tempo na face as raízes do riso
começa para além dela a ser longe
A amada é bem a infância que vem ter comigo
Há pássaros antigos nos límpidos caminhos
e mortes como antes nunca mais
Ei-la já que se estende ampla como uma pátria
no limiar da nossa indiferença
Os nossos átrios são para os seus pés solitários
Já todos nós esquecemos a casa dos pais
ela enche de dias as nossas mãos vazias
A dor é nela até que deus começa
eu bem lhe sinto o calcanhar do amor
Que importa sermos de uma só manhã e não haver
                                                                em volta
árvore mais açoitada pelos diversos ventos?
Que importa partirmos num desmoronar de poentes?
Mais triste mesmo a vida onde outros passarão
multiplicando-lhe a ausência que importa
se onde pomos os pés é primavera?


Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates"
Escrita passa pelo corpo, 
nao há escrita! ... 
A escrita vem de uma perturbação.

https://www.youtube.com/watch?v=eywxQ80EdfA

10 janeiro, 2016

Alma que da minha alma se aproxima
E me desperta do meu sonho em meio
E nos prende e nos cinja o doce enleio
Como a dois lírios prende e enlaça um vime.

(...)

Ângelo de Lima

Poema azul de sophia de mello breyner,
voz de Maria Bethania
 

https://www.youtube.com/watch?v=Wz2n3Yam6po

09 janeiro, 2016

Se não houvesse talvez(es)

Talvez te possa dizer com silêncios, o que a minha alma te diz sempre que te encontro e as minhas poucas palavras não te dizem quando te falo. Habituei-me desse modo a falar-te ao coração, sem que tenhas a necessidade de me ouvir. O que sinto e sou, espontâneo, livre, pouco racional, é de mim para ti. As poucas palavras que solto, são nada perante aquelas que guardo para te dizer baixinho, ao teu ouvido. E sempre que não te dizer nada, é porque o silêncio de uma só palavra, abrange o alcance de te querer num simples beijo.

a.tereso
olhos postos na terra, tu virás


Olhos postos na terra, tu virás
no ritmo da própria primavera,
e como as flores e os animais
abrirás nas mãos de quem te espera.

eugénio de andrade

08 janeiro, 2016

Para não Deixar de Amar-te Nunca

Saberás que não te amo e que te amo
pois que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio, 
o fogo tem a sua metade de frio. 
Amo-te para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda. 
Amo-te e não te amo como se tivesse
nas minhas mãos a chave da felicidade
e um incerto destino infeliz. 
O meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo. 

Pablo Neruda, in "Cem Sonetos de Amor"