11 fevereiro, 2016

Conheci o bem e o mal,
O pecado e a virtude, a justiça e a injustiça;
Julguei e fui julgado,
Passei pelo nascimento e pela morte,
Pela alegria e pela dor, pelo céu e pelo inferno;
E finalmente compreendi
Que eu estou em tudo
E que tudo está em mim.


Hazrat Inayat Khan

10 fevereiro, 2016

DÁ-ME A TUA MÃO

Dá-me a tua mão. 
Deixa que a minha solidão 
prolongue mais a tua
— para aqui os dois de mãos dadas
nas noites estreladas,
a ver os fantasmas a dançar na lua. 
Dá-me a tua mão, companheira,
até o Abismo da Ternura Derradeira. 

José Gomes Ferreira, in “Poeta Militante I”

02 fevereiro, 2016

PAIXÃO

Com a paixão faço
e armo
a construir-me no excesso
Apunhalo o coração
enveneno
o peito aberto
A paixão é meu
destino
meu final e meu começo
Morrer de amor
e de amar
é a morte que eu mereço

Maria Teresa Horta, in As palavras do corpo

01 fevereiro, 2016

amor dos fogos

...vêm sôfregos os peixes da madrugada
beber o marítimo veneno das grandes travessias
trazem nas escamas a primavera sombria do mar
largam minúsculos cristais de areia junto à boca
e partem quando desperto no tecido húmido dos sonhos
... vem deitar-te comigo no feno dos romances
para que a manhã não solte o ciúme
e de novo nos obrigue a fugir...
... vem estender-te onde os dedos são aves sobre o peito
esquece os maus momentos a falta de notícias a preguiça
ergue-te e regressa
para olharmos a geada dos astros deslizar nas vidraças
e os pássaros debicam o outono no sumo das amoras...
... iremos pelos campos
à procura do silente lume das cassiopeias...

al berto

31 janeiro, 2016

Açúcar Ou Adoçante

Entra pra ver
Como você deixou o lugar
E o tempo que levou pra arrumar
Aquela gaveta
Entra pra ver
Mas tira o sapato pra entrar
Cuidado que eu mudei de lugar
Algumas certezas
Pra não te magoar
Não tem porquê
Pra ajudar teu analista:
"Desculpa"

Mas se você quiser
Alguém pra amar
Ainda
Mas se você quiser
Alguém pra amar
Ainda
Hoje não vai dar
Não vou estar
Te indico alguém

Cicero
https://www.youtube.com/watch?v=B4-nz0GPiJs

30 janeiro, 2016

Amor

Cala-te, a luz arde entre os lábios,
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
essa perna é tua?, esse braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente á tua boca,
abre-se a alma à lingua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi facil, nunca,
também a terra morre.

eugénio de andrade

29 janeiro, 2016


(...) Em tanto lugar eu poderia lembrar-te. Mas volto sempre ao começo da irradiação de ti. Há assim um pacto obscuro entre tudo o que foste até à morte e a eternidade da tua juventude. Porque é lá que tu moras, no incorruptível, no intocáv...el do teu ser, na perfeição que um deus achou enfim perfeita quando te entregou à vida para existires por ti. Mas como seres jovem e eu conhecer-te, fora da cidade do Sol? da colina desdobrada à sua luz? do espaço de um acorde de guitarra a toda a volta no ar? É bom poder dizer-te quanto te lembro aí.

Vergílio Ferreira in Cartas a Sandra