05 setembro, 2016

Tua vontade

Tua vontade...
de estar dentro de mim...
num momento somente para perder-se assim

O calor invadindo nós dois...
antes, durante e depois

Vontade de sentir o gosto...
do teu corpo no meu...
da tua língua a me conhecer...
sempre, até o amanhecer

Desejo de fazer loucuras...
minhas mãos nuas a te procurar...
minha boca quente sempre a te sugar

De nada mais ouvir...
a não ser nossos gemidos de prazer...
na mais louca vontade de querer

Sinto tua vontade sim...
de fazer amor num pedido...
de ficar em mim escondido

Enquanto entre línguas...
bocas... suores... tremores...
descobertas... eu aberta...
recebendo este gozo latente...
guardado ficará na mente...
para que momentos mais tarde...
você deseje novamente...
iniciar tudo outra vez...
descobrindo coisas que somente a gente fez

Lu@
A DEMORA

(...)
Que é do sol que se vive querendo? "Vivo querendo"
O que é este querer que só se quer lento? "Só se quer lento" 
E a lentidão que te vive sorvendo? "Te vive sorvendo"
Mas quem sacia esta sede que te vai bebendo?
Que é do sal que se vive lambendo." Vivo lambendo"
E em suspenso vai-se vivendo
"Vai-se vivendo"
E a leveza?
É a minha teimosia
Como quem finge que nem sequer sente
Se ninguém sabe bem o que fazer
Com a expectativa a flutuar
Nos nossos brandos dias
(...)

Joana Barra Vaz

REFLEXÃO

Há certas almas
como as borboletas,
cuja fragilidade de asas
não resiste ao mais leve contato,
que deixam ficar pedaços
pelos dedos que as tocam.


Em seu vôo de ideal,
deslumbram olhos,
atraem as vistas:
perseguem-nas,
alcançam-nas,
detem-nas,
mas, quase sempre,
por saciedade
ou piedade,
libertam-nas outra vez.

Ela, porém, não voam como dantes,
ficam vazias de si mesmas,
cheias de desalento...

Almas e borboletas,
não fosse a tentação das cousas rasas;
- o amor de néctar,
- o néctar do amor,
e pairaríamos nos cimos
seduzindo do alto,
admirando de longe!...


Gilka Machado
(in Sublimação, 1928)

21 agosto, 2016

explicação necessária



Há certos versos - às vezes poemas inteiros -
que eu próprio não sei o que querem dizer. O que ignoro
retém-me ainda. E tu, tu tens razão em interrogar. Não interrogues.
Já te disse que não sei.
                                         Duas luzes paralelas
vindo do mesmo centro. O ruído da água
que cai, no inverno, da goteira a transbordar
ou o ruído de uma gota de água caindo
de uma rosa no jardim, regado há pouco,
devagar, devagarinho, uma tarde de primavera,
como o soluço de um pássaro. Não sei que quer dizer este ruído; contudo aceito-o.
As coisas que sei explico-tas,
sem negligência.
Mas as outras também acrescentam a nossa vida.
Eu olhava
o seu joelho dobrado, como ela dormia,
levantando o lençol -
não era apenas amor. Este ângulo
era o cume da ternura, e o cheiro
do lençol, a lavado e a primavera, completava
este inexplicável, que eu procurei,
em vão ainda, explicar-te.


yannis ritsos
Existe uma história zen sobre um homem e um cavalo. O cavalo está galopando rapidamente, e parece que o homem que cavalga se dirige a algum lugar importante. Outro homem, em pé ao lado da estrada, grita: "Aonde você está indo?" e o homem a cavalo responde: "Não sei. Pergunte ao cavalo!" Esta é a nossa história. Estamos todos sobre um cavalo, não sabemos aonde vamos e não conseguimos parar. O cavalo é a força de nossos hábitos que nos puxa, e somos impotentes diante dela. Estamos sempre correndo, e isso já se tornou um hábito. Estamos acostumados a lutar o tempo todo, até mesmo durante o sono. Estamos em guerra com nós mesmos, e é fácil declarar guerra aos outros também.

     Precisamos aprender a arte de fazer cessar — parar nosso pensamento, a força de nossos hábitos, nossa desatenção, bem como as emoções intensas que nos regem. Quando uma emoção nos assola, ela se assemelha a uma tempestade, que leva consigo a nossa paz. Nós ligamos a TV e depois a desligamos, pegamos um livro e depois o deixamos de lado. O que podemos fazer para interromper este estado de agitação? Como podemos fazer cessar o medo, o desespero, a raiva e os desejos? É simples. Podemos fazer isso através da prática da respiração consciente, do caminhar consciente, do sorriso consciente e da contemplação profunda - para sermos capazes de compreender. Quando prestamos atenção e entramos em contato com o momento presente, os frutos que colhemos são a compreensão, a aceitação, o amor e o desejo de aliviar o sofrimento e fazer brotar a alegria.

     Mas a força do hábito costuma ser mais forte do que nossa vontade. Dizemos e fazemos coisas que não queremos e depois nos arrependemos. Causamos sofrimento a nós mesmos e aos outros, e de forma geral produzimos grande quantidade de destruição. Podemos ter a firme intenção de nunca mais fazer isso, mas sempre acabamos fazendo de novo. Por quê? Porque a força do hábito "vashana" acaba vencendo e nos levando de roldão.

     Precisamos da energia da atenção plena para perceber quando o hábito nos arrasta, e fazer cessar esse comportamento destrutivo. Com atenção plena, temos a capacidade de reconhecer a força do hábito a cada vez que ela se manifesta. "Alô força do hábito, sei que você está aí!" Nessa altura, se conseguirmos simplesmente sorrir, o hábito perderá grande parte de sua força. A atenção plena é a energia que nos permite reconhecer a força do hábito e impedi-la de nos dominar.

     Por outro lado, o esquecimento ou negligência é o oposto.

     Tomamos uma xícara de chá sem sequer perceber o que estamos fazendo. Sentamo-nos com a pessoa que amamos mas não percebemos que a pessoa está ali. Andamos sem realmente estar andando. Estamos sempre em outro lugar, pensando no passado ou no futuro. O cavalo dos nossos hábitos nos conduz, e somos prisioneiros dele. Precisamos deter este cavalo e resgatar nossa liberdade. Precisamos irradiar a luz da atenção plena em tudo o que fizermos, para que a escuridão do esquecimento desapareça. A primeira função da meditação — shamatha — é fazer parar.

     A segunda função da shamatha é acalmar. Quando sofremos uma emoção forte, sabemos que talvez seja perigoso agir sob sua influência, mas não temos força nem clareza suficientes para nos abstermos. Precisamos aprender a arte de respirar, de inspirar e expirar, parando tudo o que estamos fazendo e acalmando nossas emoções. Precisamos aprender a nos tornar mais estáveis e firmes, como se fôssemos um carvalho, e não nos deixar arrastar pela tempestade de um lado para outro. O Buddha ensinou uma variedade de técnicas para nos ajudar a acalmar corpo e mente, e considerar a situação presente em toda a sua profundidade. Essas técnicas podem ser resumidas em cinco estágios:

     1. Reconhecimento: se estamos zangados, dizemos "reconheço que a raiva está dentro de mim". 
     2. Aceitação: quando estamos zangados, não negamos a raiva. Aceitamos aquilo que está presente em 
     3. Acolher: abraçamos a raiva como faz uma mãe com o filho que chora. Nossa atenção plena acolhe a emoção, e só isso já é capaz de acalmar a raiva e a nós mesmos. 
     4. Olhar em profundidade: quando nos acalmamos o suficiente, conseguimos observar profundamente para entender o que provocou a raiva, ou seja, o que está fazendo o bebê chorar. 
     5. Insight: o fruto do olhar profundo é a compreensão das causas e condições, tanto primárias quanto secundárias, que provocaram a raiva e fizeram nosso bebê chorar. Talvez ele esteja com fome. Talvez o alfinete da fralda o esteja machucando. Talvez nossa raiva tenha surgido quando um amigo nos falou em um tom ofensivo, mas de repente nos lembramos de que essa pessoa não está bem hoje porque seu pai está muito doente. Continuamos a refletir dessa forma até compreendermos a causa de nosso atual sofrimento. A compreensão nos dirá o que fazer ou não fazer para mudar a situação. 

     Depois de nos acalmarmos, a terceira função da shamatha é o repouso. Suponha que alguém nas margens de um rio joga uma pedra para o ar e a pedra cai no rio. A pedra afunda lentamente e chega ao fundo do rio sem esforço algum. Depois que a pedra chega ao fundo do rio, ela descansa, deixando que a água passe por ela. Quando sentamos para meditar podemos nos permitir repousar da mesma forma que essa pedra. Podemos nos deixar afundar naturalmente, na posição sentada — repousando, sem fazer esforço. Temos que aprender a arte de repousar, permitindo que nosso corpo e nossa mente descansem. Se tivermos feridas em nosso corpo e em nossa mente precisamos repousar para que elas possam por si só se curar.

     O ato de se acalmar produz o repouso, e o descanso é um pré-requisito para a cura. Quando os animais selvagens estão feridos, eles procuram um lugar escondido para deitar, e descansam completamente por muitos dias. Não pensam em comida nem em mais nada. Apenas descansam, e com isso obtêm a cura de que precisam. Quando nós seres humanos ficamos doentes, nos preocupamos o tempo todo. Procuramos médicos e remédios, mas não paramos. Mesmo quando vamos para a praia ou para as montanhas com a intenção de descansar, não chegamos realmente a repousar, e voltamos mais cansados do que partimos. Temos que aprender a repousar. A posição deitada não é a única posição de descanso que existe. Podemos descansar muito bem durante meditações sentados ou caminhando. A meditação não deve ser um trabalho árduo. Simplesmente permita que seu corpo e sua mente descansem, como o animal no mato. Não lute. Não há necessidade de fazer nada nem realizar nada. Eu estou escrevendo um livro, mas não estou lutando. Estou descansando. Por favor, leiam este livro de uma forma alegre e relaxante. O Buddha disse: "Meu Dharma é a prática do não-fazer."1 Pratiquem de uma forma que não seja cansativa, mas que seja capaz de proporcionar descanso ao corpo, às emoções e à consciência. Nosso corpo e mente sabem curar a si mesmos se lhes dermos uma oportunidade para isso.

     Parar, acalmar-se e descansar são pré-requisitos para a cura. Se não conseguirmos parar, nosso ritmo de destruição simplesmente vai prosseguir. O mundo precisa imensamente de cura. Os indivíduos, comunidades e países estão cada vez mais necessitados de cura.

Thich Nhat Hanh, A Essência dos Ensinamentos do Buda (Editora Rocco)
(Thich Nhat Hanh. A essência dos ensinamentos de Buda:
como transformar o sofrimento em paz, alegria e liberação.
Coleção Arco do tempo. Tradução de Anna Lobo.
Rio de Janeiro: Rocco, 2001.)

17 agosto, 2016

Um outro tanto
Não sei como consigo
amar-te tanto
se querer-te assim na minha fantasia
é amar-te em mim
e não saber já quando
de querer-te mais eu vou morrer um dia
perseguir a paixão até ao fim é pouco
exijo tudo até perder-me
enquanto, e de um jeito tal que desconhecia
poder amar-te ainda
um outro tanto
Maria Teresa Horta, in “Inquietude”
Num outro lugar

Nunca na minha casa tinha entrado um gato. Os gatos que se viam por perto, era livres, dormiam nos palheiros e caçavam ratos. Claro alguns davam a mão, mas eram poucos. Também porque sempre tivemos cães grandes para guardar a casa. 
Até que um dia decidi ter um gato. Já não havia animais à algum tempo. Estava eu em Braga. Uma febre para a minha Mãe. Animais em Casa! Proporcionou-se a casualidade. Sebastião Estrugido, assim por mim designado nasceu a 30-05-2008, sob signo gémeos e com uma personalidade vincada. Persistente como o dono e com dupla personalidade como tão bem caracteriza este signo. Ainda me lembro como se fosse hoje da sua viagem para Braga.
Quando era pequeno sonhava ser um cão e deambulava pela rua atrás de seu “dono”, “anda estrugido”. Ali passou a sua infância. Creio eu, feliz! Entre três homens que o acarinhavam. Mesmo assim, não se livrou de perder a sua masculinidade, mesmo que nunca se tenha apercebido. Em 2009, com a minha ida para Barcelona foi para casa da minha mãe. Uma nova doença para ela. O meu pai até achou graça, até chegar o Levezinho (cão). A partir de ai só andou comigo no meu coração. Creio que levou “aquele” abandono a sério e fez birra durante algum tempo. 
Quando regressei não me ligou, dei-lhe tempo, até que o (re) conquistei com mimo. Mesmo assim era o meu fiel companheiro sempre que ia para o quintal mimar a terra. Com a chegada do Levezinho (outra doença, pelo menos ao inicio para a minha Mãe, porque era para ter em casa) e com os anos, passou para segundo, terceiro plano. Deixou de dormir na garagem com mordomias, para ir dormir nos anexos. Perdi autoridade ao estar longe. Mesmo assim ainda era mimado quando ia de fim de semana e pelas pessoas que iam lá a casa. 
Com a minha vinda para Londres, foi entregue a quem me tinha dado. Ai passou uns meses com atenção e carinho. Mesmo assim vinha visitar os meus pais, porque era ai também a sua casa. Era devolvido. No dia em que cheguei, voltou a aparecer em casa. Veio receber-me, porque já não aparecia à uns dias. Estava magro e triste. Talvez tenha comido algo envenenado. Ou talvez não. Parecia resistente e persistente como o tinha conhecido. Mas chegou o seu dia. Acredito que tenha partido para um outro corpo e acredito que nos voltaremos a encontrar, num outro lugar.

a.tereso