18 setembro, 2016

Hoje de Manhã Saí Muito Cedo

Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer... 
Não sabia por caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas. 
Assim tem sido sempre a minha vida, e
assim quero que possa ser sempre —
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar. 

Alberto Caeiro

16 setembro, 2016

(...) Mas o vazio tem o valor e a semelhança do pleno. Um meio de obter é não procurar, um meio de ter é o de não pedir e somente acreditar que o silêncio que creio em mim é resposta a meu - a meu mistério. (...)

Clarice Lispector
A Hora da Estrela
Aprendemos o Todo do Amor —
O Alfabeto — as Palavras —
Um Capítulo — depois o Livro imenso —
E — a Revelação — então fechou-se —

Mas uma Ignorância se fitou
No Olhar de Cada um de Nós —
Mais divina do que é a da Infância —
E cada um para o outro, uma Criança —

Tentando definir e explicar
O que Nenhum de nós — compreendia —
Ah, que é tão larga a Sabedoria —
E a Verdade — têm formas tão diversas!

Emily Dickinson

05 setembro, 2016

Tua vontade

Tua vontade...
de estar dentro de mim...
num momento somente para perder-se assim

O calor invadindo nós dois...
antes, durante e depois

Vontade de sentir o gosto...
do teu corpo no meu...
da tua língua a me conhecer...
sempre, até o amanhecer

Desejo de fazer loucuras...
minhas mãos nuas a te procurar...
minha boca quente sempre a te sugar

De nada mais ouvir...
a não ser nossos gemidos de prazer...
na mais louca vontade de querer

Sinto tua vontade sim...
de fazer amor num pedido...
de ficar em mim escondido

Enquanto entre línguas...
bocas... suores... tremores...
descobertas... eu aberta...
recebendo este gozo latente...
guardado ficará na mente...
para que momentos mais tarde...
você deseje novamente...
iniciar tudo outra vez...
descobrindo coisas que somente a gente fez

Lu@
A DEMORA

(...)
Que é do sol que se vive querendo? "Vivo querendo"
O que é este querer que só se quer lento? "Só se quer lento" 
E a lentidão que te vive sorvendo? "Te vive sorvendo"
Mas quem sacia esta sede que te vai bebendo?
Que é do sal que se vive lambendo." Vivo lambendo"
E em suspenso vai-se vivendo
"Vai-se vivendo"
E a leveza?
É a minha teimosia
Como quem finge que nem sequer sente
Se ninguém sabe bem o que fazer
Com a expectativa a flutuar
Nos nossos brandos dias
(...)

Joana Barra Vaz

REFLEXÃO

Há certas almas
como as borboletas,
cuja fragilidade de asas
não resiste ao mais leve contato,
que deixam ficar pedaços
pelos dedos que as tocam.


Em seu vôo de ideal,
deslumbram olhos,
atraem as vistas:
perseguem-nas,
alcançam-nas,
detem-nas,
mas, quase sempre,
por saciedade
ou piedade,
libertam-nas outra vez.

Ela, porém, não voam como dantes,
ficam vazias de si mesmas,
cheias de desalento...

Almas e borboletas,
não fosse a tentação das cousas rasas;
- o amor de néctar,
- o néctar do amor,
e pairaríamos nos cimos
seduzindo do alto,
admirando de longe!...


Gilka Machado
(in Sublimação, 1928)

21 agosto, 2016

explicação necessária



Há certos versos - às vezes poemas inteiros -
que eu próprio não sei o que querem dizer. O que ignoro
retém-me ainda. E tu, tu tens razão em interrogar. Não interrogues.
Já te disse que não sei.
                                         Duas luzes paralelas
vindo do mesmo centro. O ruído da água
que cai, no inverno, da goteira a transbordar
ou o ruído de uma gota de água caindo
de uma rosa no jardim, regado há pouco,
devagar, devagarinho, uma tarde de primavera,
como o soluço de um pássaro. Não sei que quer dizer este ruído; contudo aceito-o.
As coisas que sei explico-tas,
sem negligência.
Mas as outras também acrescentam a nossa vida.
Eu olhava
o seu joelho dobrado, como ela dormia,
levantando o lençol -
não era apenas amor. Este ângulo
era o cume da ternura, e o cheiro
do lençol, a lavado e a primavera, completava
este inexplicável, que eu procurei,
em vão ainda, explicar-te.


yannis ritsos