20 novembro, 2016

Guardei-me para ti...

... como um segredo
Que eu mesma não desvendei:
Há notas nesta guitarra que não toquei,
Há praias na minha ilha que nem andei.
É preciso que me tomes, além do riso e do olhar,
Naquilo que não conheço e adivinhei;
É preciso que me ensines a canção do que serei
E me cries com teu gesto
Que nem sonhei.


Lya Luft

12 novembro, 2016

A relação do ser e do horizonte é circular. É talvez o aberto que cria o horizonte, é talvez a respiração que abre o mundo. Mas o alento não poderia romper sem a linha pura do horizonte e na lâmpada da respiração não se acenderia se o mundo não fosse já o extenso mundo do aberto. Por isso a escuta é a espera vazia aberta ao tempo e à possibilidade de uma palavra livre mas fiel à simplicidade nova de um começo.

António Ramos Rosa in Relâmpago de Nada
Aprender a Ver

Aprender a ver - habituar os olhos à calma, à paciência, ao deixar-que-as-coisas-se-aproximem-de-nós; aprender a adiar o juízo, a rodear e a abarcar o caso particular a partir de todos os lados. Este é o primeiro ensino preliminar para o espírito: não reagir imediatamente a um estímulo, mas sim controlar os instintos que põem obstáculos, que isolam. Aprender a ver, tal como eu o entendo, é já quase o que o modo afilosófico de falar denomina vontade forte: o essencial nisto é, precisamente, o poder não «querer», o poder diferir a decisão. Toda a não-espiritualidade, toda a vulgaridade descansa na incapacidade de opor resistência a um estímulo — tem que se reagir, seguem-se todos os impulsos. Em muitos casos esse ter que é já doença, decadência, sintoma de esgotamento, — quase tudo o que a rudeza afilosófica designa com o nome de «vício» é apenas essa incapacidade fisiológica de não reagir. — Uma aplicação prática do ter-aprendido-a-ver: enquanto discente em geral, chegar-se-á a ser lento, desconfiado, teimoso. Ao estranho, ao novo de qualquer espécie deixar-se-o-á aproximar-se com uma tranquilidade hostil, — afasta-se dele a mão. O ter abertas todas as portas, o servil abrir a boca perante todo o facto pequeno, o estar sempre disposto a meter-se, a lançar-se de um salto para dentro de outros homens e outras coisas...

Friedrich Nietzsche, in "Crepúsculo dos Ídolos"

05 novembro, 2016

Se você não consegue entender o meu silêncio de nada irá adiantar as palavras, pois é no silêncio das minhas palavras que estão todos os meus maiores sentimentos
Oscar Wilde
NEM EU

Não fazes favor nenhum em gostar de alguém
nem eu
nem eu
nem eu
quem inventou o amor nao fui eu
nao fui eu
nao fui eu
nao fui eu nem ninguém
o amor acontece na vida
estavas desprevenida
e por acaso eu também
e como o acaso é importante querida
de nossas vidas a vida fez um acaso também
nao fazes favor nenhum em gostar de alguem

os escombros da poesia

Passos apressados estendem as sombras
pelas veredas que as mulheres percorrem
desde a criação. O oriente oferece-lhes
o fósforo iluminado que desenha na terra
a semelhança de caminhos
mas é a ti que a pele do gamo cobre os ombros
e o sacro tirso pende das garras adormecidas.
Sei que chegaste pelo rufar dos tambores
que se confunde com o ondular das pernas
quando invocas a terra, incitas os cães
e o velho poeta abandona os escombros
para vir juntar-se ao vinho da poesia.
Cavafis escreve que deus abandona antonio
nesse mesmo café. Tentas reter a intimidade
que fizeste tua por instantes e se esvai
pela janela orvalhada onde vislumbras a cidade
que te oferece apenas o abismo das ruas
e algum ódio que escorre docemente pelo copo.
Pergunto-me se saberás escolher o chão que te há-de
sulcar os pés, a madeira seca para o sacrifício?
A cabeça do velho é a tocha que te dá alento
quando as portas do café se fecham uma a uma
e o medo inventa o festim da morte
que repetimos tantas vezes
em noites de incompreensível beleza.
A vocação da poesia enrola-se-te nas pernas
como um animal e já nada o distingue de ti,
nem o gamo, a sua pele sacrificada
nos teus ombros onde o ouro que diz o teu nome
é limalha de sombra em voo rasante sobre nada.

rosa alice branco

30 outubro, 2016

Minha boca...

minha boca
é pouca
pro desejo
que anda à solta

Martha Medeiros