12 dezembro, 2016

DUO AVC

Poderá uma brincadeira entrar no mundo tangível dos sentimentos, tornar real o apetite e disfrute na plenitude do Amor?
O duo AVC surge de uma brincadeira, de duas almas crianças e sonhadoras, que dialogam por silêncios, pequenos gestos, que se deleitam no convívio e na partilha de instantes com íntimos transeuntes pessoanos. 
Indivíduos anónimos que se tocam, sentem e partilham numa forma de estar no “aqui e agora”, numa meditação musical e poética em redor dos sentimentos profundos que enleiam o corpo e a alma, manifestações de disfrute na Natureza que os envolve.
Uma dialética Kantiana na precisão do tempo útil e vago, para que tempo para nós haja como expressão e fusão de uma vida plena.
AVC como sigla de dois nomes e uma fuga à morte lenta, corrente neste mundo (a)ritmado e disperso, sem cuidado nem consciência para com o eu presente e o eu envolvente. 
Personificação mental para uma dor incisa no coração, de alerta para uma problemática contemporânea de doença associada ao ritmo de vida que levamos. Um alerta para uma melhor definição das nossas prioridades, um alerta sobre a alimentação e modo de vida consciente, um modo de nos conhecermos e nos expressarmos no AMOR.
AVC´s é o associar destas duas pequenas almas, a outras maiores, complementares e dissonantes neste movimento em espiral, que pretende trazer inocentemente outra forma de olhar a vida atualmente.
Interessa-nos partilhar, coabitar, viver e presentear a vida. Uma vida vivida, sentida e gratificante. Uma vida sem tempo, na plenitude do AMOR.

Duo

24 novembro, 2016

sonho

Penso que devo ter adormecido por algum tempo;
Pois quando acordei tinhas vindo e partido.
Apenas algumas flores permaneciam –
Flores que não podiam sequer dizer quem eram…
E uma fragrância vaga e suave no ar.
Esta noite tenho de sonhar um sonho mais longo
Para que as flores falem
E a sua fragrância estenda uma trémula ponte
Entre nós.

p. s. rege
O amor não é um encontro romântico entre dois amantes. (...) ...o amor é como a união entre dois seres cuja força reunida permite a um deles, ou a ambos, a entrada em comunicação com o mundo da alma e a participação no destino como uma dança com a vida e a morte.

Clarissa Pinkola Estés

20 novembro, 2016

Eu sou a terra, eu sou a vida

Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.
Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranqüila ao teu esforço.
Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.
Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor...

Cora Coralina
Guardei-me para ti...

... como um segredo
Que eu mesma não desvendei:
Há notas nesta guitarra que não toquei,
Há praias na minha ilha que nem andei.
É preciso que me tomes, além do riso e do olhar,
Naquilo que não conheço e adivinhei;
É preciso que me ensines a canção do que serei
E me cries com teu gesto
Que nem sonhei.


Lya Luft

12 novembro, 2016

A relação do ser e do horizonte é circular. É talvez o aberto que cria o horizonte, é talvez a respiração que abre o mundo. Mas o alento não poderia romper sem a linha pura do horizonte e na lâmpada da respiração não se acenderia se o mundo não fosse já o extenso mundo do aberto. Por isso a escuta é a espera vazia aberta ao tempo e à possibilidade de uma palavra livre mas fiel à simplicidade nova de um começo.

António Ramos Rosa in Relâmpago de Nada
Aprender a Ver

Aprender a ver - habituar os olhos à calma, à paciência, ao deixar-que-as-coisas-se-aproximem-de-nós; aprender a adiar o juízo, a rodear e a abarcar o caso particular a partir de todos os lados. Este é o primeiro ensino preliminar para o espírito: não reagir imediatamente a um estímulo, mas sim controlar os instintos que põem obstáculos, que isolam. Aprender a ver, tal como eu o entendo, é já quase o que o modo afilosófico de falar denomina vontade forte: o essencial nisto é, precisamente, o poder não «querer», o poder diferir a decisão. Toda a não-espiritualidade, toda a vulgaridade descansa na incapacidade de opor resistência a um estímulo — tem que se reagir, seguem-se todos os impulsos. Em muitos casos esse ter que é já doença, decadência, sintoma de esgotamento, — quase tudo o que a rudeza afilosófica designa com o nome de «vício» é apenas essa incapacidade fisiológica de não reagir. — Uma aplicação prática do ter-aprendido-a-ver: enquanto discente em geral, chegar-se-á a ser lento, desconfiado, teimoso. Ao estranho, ao novo de qualquer espécie deixar-se-o-á aproximar-se com uma tranquilidade hostil, — afasta-se dele a mão. O ter abertas todas as portas, o servil abrir a boca perante todo o facto pequeno, o estar sempre disposto a meter-se, a lançar-se de um salto para dentro de outros homens e outras coisas...

Friedrich Nietzsche, in "Crepúsculo dos Ídolos"