02 janeiro, 2017

carta em novembro

Amor, o mundo
De repente muda, muda de cor. A luz da rua
Perpassa por entre as vagens do laburno
Que lembram a cauda dos ratos, às nove da manhã.
É o Árctico.
Este pequeno círculo
Negro, com estas trigueiras e sedosas ervas – cabelo de bebé.
Há uma cor verde no ar,
Suave, voluptuosa,
Conforta-me com amor.
Estou corada e quente.
Se calhar isto é absurdo,
Sou tão estupidamente feliz,
As minhas galochas
Dão passos ruidosos, atravessam o vermelho maravilhoso.
É a minha propriedade.
Duas vezes ao dia percorro-a, cheirando-lhe
O bárbaro azevinho em conchas
De verdete, ferro puro,
E a parede de velhos cadáveres.
Amo-os.
Amo-os como à história.
As maçãs são douradas,
Imagine-se –
As minhas setenta árvores
A prender as suas bagas vermelho-douradas
Num espesso e mortal caldo cinzento,
Com um milhão
De folhas de metal douradas e sem vida.
Ó amor, Ó celibato.
Mais ninguém senão eu
Caminha com água pela cintura.
As insubstituíveis
Riquezas sangram e afundam-se, as bocas das Termópilas.

sylvia plath

12 dezembro, 2016

"O desejo habita a ansiedade e se perde no consumismo imediato. A sociedade está marcada pela ansiedade, reina uma inabilidade de experimentar profundamente o que nos chega, o que importa é poder descrever aos demais o que se está fazendo.
Em tempos de Facebook e Twitter não há desagrados, se não gosto de uma declaração ou um pensamento, deleto, desconecto, bloqueio. Perde-se a profundidade das relações; perde-se a conversa que possibilita a harmonia e também o destoar. Nas relações virtuais não existem discussões que terminem em abraços vivos, as discussões são mudas, distantes. As relações começam ou terminam sem contato algum. Analisamos o outro por suas fotos e frases de efeito. Não existe a troca vivida.
(...)
O amor é mais falado do que vivido. Vivemos um tempo de secreta angústia. Filosoficamente a angústia é o sentimento do nada. O corpo se inquieta e a alma sufoca. Há uma vertigem permeando as relações, tudo se torna vacilante, tudo pode ser deletado: o amor e os amigos.
Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo”.

Zygmunt Bauman
O AMOR SEGUNDO STENDHAL

Os amores, há-os de vários tipos. Stendhal, para alguns o inventor do amor, enumera quatro tipologias diferentes: o amor-paixão, o amor-gosto, o amor físico e o amor-vaidade.
O amor-paixão, segundo ele, “o da religiosa portuguesa, o de Heloísa por Abelardo” é o mais arrebatador, é aquele que “nos leva para além de todos os nossos interesses”. Já o amor-gosto, é um amor conforme nossas disposições, cor-de-rosa, afeito às nossas necessidades, que não admite qualquer mácula. Conveniente, de certo modo.
O amor físico (ah, o amor físico!), é o amor baseado nos prazeres carnais. Próprio, sobretudo, da adolescência. Stendhal escreve em “Do amor” que “é por aí que se começa aos dezesseis anos”.
Depois, o amor-vaidade, maioria na sua época (séc. XIX), em que o homem “deseja e tem uma mulher à moda, como se tem um lindo cavalo, como coisa indispensável ao luxo de um jovem”, pois que, prossegue, “a vaidade mais ou menos lisonjeada, mais ou menos espicaçada, dá lugar a vivos sentimentos”.
Stendhal, permissivo, ainda admite a existência de oito ou dez variantes. E como se não bastasse, sua coragem (ou audácia) vai ainda mais longe. O amor tem uma espécie de etapas ou de encadeamento. A saber, sete.
Primeira: a admiração (que pode ocupar o período de um ano). Segunda: o prazer do beijo, do beijar e ser beijado (espaço de um mês até a terceira). Terceira: a esperança. Por menor que seja, essa esperança será o suficiente para o nascimento do amor. Nessa fase, “estudam-se as perfeições”. E é aí que a mulher deve entregar-se, “para um maior prazer físico”. O espaço de tempo entre a terceira e quarta fase é um piscar de olhos.
Na quarta fase nasce o amor. Segundo ele, “o prazer em ver, palpar, sentir com todos os sentidos e tão de perto quanto possível, um ser adorável e que nos ama”. A quinta fase, que não se separa temporalmente da quarta, é a primeira cristalização. Ou seja, a atribuição de mil perfeições, de todas as qualidades àquele que amamos. Cristalização é, nas palavras de Stendhal, “a operação do espírito pela qual se descobre, face a tudo o que se lhe apresenta, as novas perfeições do ser amado”. O ser amado é, então, senhor de todas as perfeições que imaginamos.

Bom selvagem
"É à criança que temos de considerar o bom selvagem, estragando-a, deformando-a, inutilizando-a o menos que nos seja possível, defendendo o seu tesouro de sonho, jogo e criação, a sua espontaneidade e a sua malícia sem maldade, o seu entendimento sem análise e o seu amar do mundo sem a preocupação das sínteses; e foi afinal desta criança feita Deus, ou Deus se revelando, para um novo Evangelho, que nos falou Alberto Caeiro, o poeta que se afirmou no que toca aos jeitos de viver, o mais português de todos os poetas portugueses.”

Agostinho da Silva, Educação em Portugal, 1970


Agostinho da Silva acreditava numa educação livre e sem peias ou cangas castradores ou que limitassem a vocação criadora e inovadora das crianças. Acreditava que importava nutrir a criança que temos em nós, por forma a criar sociedades mais dinâmicas, participativas e criativas. Julgava que as crianças mereciam o mesmo respeito que os adultos, na sua individualidade e direito à diferença.
DUO AVC

Poderá uma brincadeira entrar no mundo tangível dos sentimentos, tornar real o apetite e disfrute na plenitude do Amor?
O duo AVC surge de uma brincadeira, de duas almas crianças e sonhadoras, que dialogam por silêncios, pequenos gestos, que se deleitam no convívio e na partilha de instantes com íntimos transeuntes pessoanos. 
Indivíduos anónimos que se tocam, sentem e partilham numa forma de estar no “aqui e agora”, numa meditação musical e poética em redor dos sentimentos profundos que enleiam o corpo e a alma, manifestações de disfrute na Natureza que os envolve.
Uma dialética Kantiana na precisão do tempo útil e vago, para que tempo para nós haja como expressão e fusão de uma vida plena.
AVC como sigla de dois nomes e uma fuga à morte lenta, corrente neste mundo (a)ritmado e disperso, sem cuidado nem consciência para com o eu presente e o eu envolvente. 
Personificação mental para uma dor incisa no coração, de alerta para uma problemática contemporânea de doença associada ao ritmo de vida que levamos. Um alerta para uma melhor definição das nossas prioridades, um alerta sobre a alimentação e modo de vida consciente, um modo de nos conhecermos e nos expressarmos no AMOR.
AVC´s é o associar destas duas pequenas almas, a outras maiores, complementares e dissonantes neste movimento em espiral, que pretende trazer inocentemente outra forma de olhar a vida atualmente.
Interessa-nos partilhar, coabitar, viver e presentear a vida. Uma vida vivida, sentida e gratificante. Uma vida sem tempo, na plenitude do AMOR.

Duo

24 novembro, 2016

sonho

Penso que devo ter adormecido por algum tempo;
Pois quando acordei tinhas vindo e partido.
Apenas algumas flores permaneciam –
Flores que não podiam sequer dizer quem eram…
E uma fragrância vaga e suave no ar.
Esta noite tenho de sonhar um sonho mais longo
Para que as flores falem
E a sua fragrância estenda uma trémula ponte
Entre nós.

p. s. rege
O amor não é um encontro romântico entre dois amantes. (...) ...o amor é como a união entre dois seres cuja força reunida permite a um deles, ou a ambos, a entrada em comunicação com o mundo da alma e a participação no destino como uma dança com a vida e a morte.

Clarissa Pinkola Estés