12 janeiro, 2017

Não tens cheiro, nem nome
nem me dás sossego
na noite imensa de olhos abertos
suspiro sobre teu corpo de estrela...
e me pergunto existes?

Ivana Pascoal

10 janeiro, 2017

Viagens em Viagem de um Ser pequeno!
Diário de bordo para nova viagem, onde o instantâneo perde expressão e ganha tempo o "eu" em nós, natureza que nos complementa. Que o presente se inscreva e predomine no instante em que a vida acontece. O amor, a simplicidade, o Ser que somos é para além da irrealidade. Serei voluntário deste modus vivendi que a brisa escolheu para onde me levar.
Será hoje, no sonho que iniciarei uma nova viagem. Uma realidade presente, oblíqua e de significado táctil. Sinto que parto com sentido e sem olhar para trás. Irei para onde me leva o respirar, para uma realidade palpável e consciente. Que saiba ser simples e dedicado a cada obstáculo e oportunidade, para crescer e pequenizar este ego que ainda me faz frágil e medroso. 
Que o sensorial, aos poucos torne este ser mecânico mais humano e integrante nesta Natureza. Que possa simplesmente ser, em consciência e verdade, com a leveza com que as flores brotam no campo...

“Quando o Amor nos habita, tudo se torna sagrado. Não há "Terra Santa", há uma forma de caminhar sobre a Terra. É a nossa forma de caminhar sobre a Terra que a torna sagrada. É a nossa forma de habitar a nossa Casa que faz dela um templo. É a nossa maneira de Amar no nosso leito que faz dele um lugar sagrado”.

Jean-Yves Leloup, 
Uma arte de amar para os nossos tempos

05 janeiro, 2017


Plena mulher, maçã carnal, lua quente,
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas colunas?
que antiga noite o homem toca com seus sentidos?
Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos e dois corpos
por um só mel derrotados.


Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia
corre pelos tênues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo noturno,
até ser e não ser senão na sombra de um raio.


Pablo Neruda
Horas Rubras

Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos rubros e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes 
Onde há risos de virgens desmaiadas... 
Oiço olaias em flor às gargalhadas...
Tombam astros em fogo, astros dementes,
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p'las estradas... 
Os meus lábios são brancos como lagos...
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras... 
Sou chama e neve e branca e mist'riosa...
E sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras! 


Florbela Espanca, 
in "Livro de Sóror Saudade"

03 janeiro, 2017

LEÓNIDAS

És tu a minha mulher? A minha mulher feita para aguardar o encontro do presente? A hipnose da fénix cobiça a tua juventude. A pedra das horas investe-a da sua hera.

És tu a minha mulher? O ano do vento onde guerreia uma nuvem antiga faz nascer a rosa, a rosa da violência.
A minha mulher feita para aguardar o encontro do presente.

O combate afasta-se e deixa-nos um coração de abelha sobre as nossas terras, a sombra desperta, o pão ingénuo. O serão esgueira-se lentamente para a imunidade da Festa.

A minha mulher feita para aguardar o encontro do presente.

rené char

Tradução de Margarida Vale de Gato.
Textos extraídos do livro Furor e mistério, de René Char (Relógio D'Água)
cheirar-te pela manhã

Cheirar-te pela manhã
Como se cheira uma maçã
(sem que o Goethe venha à baila)
Quando o sol se levanta
Já ninguém recusa uma boa foda…
Um beijo teu é quase um aríete
A demolir os meus alicerces.
A vizinha insiste com a vassoura
No estuque de um sonho nosso…
És o único despertador
Que eu vou tolerando!

narciso pinto sarro
(da paixão à cova)