21 janeiro, 2017

Your own Self-Realization is the greatest service you can render the world.
Ramana Maharshi

20 janeiro, 2017

Pontos Cardeais - a Norte da ilha

Faz hoje uns dias que cheguei. E escolhi chegar a Dublin. Podia dizer o que me fez escolher em primeiro lugar este porto e a Irlanda para começar esta descoberta. Mas fica em mim, como uma crença, algo que não se pode racionalizar e colocar em palavras. Por vezes os silêncios são maiores e creio que prefiro em parte nesta viagem viver os silêncios.
Gostei de Dublin, gostei do rio e do céu ao final do dia. Deambular é algo natural em mim, absorver os cheiros, as cores e ver os ritmos das coisas, para sentir a identidade de cada lugar. Facilitou esta interação quem me recebeu, quem me possibilitou ficar. Agradeço ao Tiago e Lisa por abrirem as suas portas e a quem me passou o contacto!

A azáfama da cidade já me dá conta que se repete, que me faz mover a um ritmo que não quero mas que me obriga, que me faz acreditar ser aquele o possível e transitável tempo desta realidade. Cada vez que saio dela, ou desse tempo, dou graças aos instantes em mim e que dou ao outros. Ao cuidado de mim, ao que como e faço. Talvez tenha sido por isso que tenha vindo. Para me cuidar, para duma vez por todas não contradizer o que sou e conscientalizá-lo. Apesar de o fazer de vários modos e maneiras.

O meu primeiro projeto é na Tullyquilly House, na pequena vila de Rathfriland, Norte da Irlanda na quinta do Stewart. Partilho um parágrafo de um texto que me partilhou:

The dream………….. is to create a place where people will come to work, to learn, to share skills and conversations; and help to create a sustainable micro-community where we can eat more from the garden and less from supermarket, make more compost and throw out less plastic, plant more trees and need no oil to burn for heat. Already more electricity is created than is used, more trees are planted than cut for firewood and there is a steady stream of positive people applying to come and share their time here.”

É neste presente em que acredito e é nele que quero viver.
No primeiro dia fui recebido com neve, com a pureza dos céus e com o frio que nos sente e faz sentido. E com um pôr do sol quente, lareira, uma chávena de chá e a simpatia. Assim tem sido. Despende-se tempo para agradecer, partilhar e sorrir. Por nada e para nada. E é para isto que aqui estou.

a.tereso


19 janeiro, 2017

emigrar

Às vezes penso em emigrar. É uma tendência fatal dos Portugueses que se manifesta desde o primeiro bocejo; só que um é de fome e outro de puro aborrecimento: um sugere-o a contracção do estômago onde se digerem côdeas e couve galega; outro, a mente em que se arrefecem pensamentos e suas consolações. Por isso, por esta inclinação movediça, a nossa cultura é estrangeirada; não se recorre ao sabor pátrio, de tanto que ele se traduz em humilhação e impedimento. Mas vai eu, em tentação de romper com muitas amizades, que em serem inimigas me dariam mais proveito, estabeleço planos tão bem gizados que, a traduzirem estratégia guerreira, já tinha por camaradas Aníbal e Alexandre. Todavia, há sempre um nada que me assombra e imobiliza. Não é o respeito por coisas famosas, a História e os grandes cá da terra. São coisas pequenas, devoradoras da paz se as temos por distantes: um dia de chuva na Primavera, com aqueles campos acima do Ave, crivados de malmequer amarelo, desse de que se faziam colares, com cheiro ácido, de botica. […] Às vezes penso, é certo, em emigrar. Entre os que se entendem há demasiada claridade. E preferimos incertezas vulgares a tácitas indiscrições, de gente vizinha e, no geral, amiga. Mas depois mudamos de ideia.

agustina bessa-luís
Tudo tem que ser bem de leve para
eu não me assustar e não assustar os
que amo.
Pedem-me pouco, pedem-me quase nada.
O terrível é que eu tenho muito para dar
e tenho que engolir esse muito e ainda
por cima dizer com delicadeza : obrigada
por receberem de mim um pouquinho de mim.

Clarice Lispector

18 janeiro, 2017

DANÇA
Não percas o momento! Vai... Vêm...

https://www.youtube.com/watch?v=8fSBWjrPRQo
Gosto do céu porque não creio que ele seja infinito.
Que pode ter comigo o que não começa nem acaba?
Não creio no infinito, não creio na eternidade.
Creio que o espaço começa algures e algures acaba
E que longe e atrás disso há absolutamente nada.
Creio que o tempo tem um princípio e terá um fim,
E que antes e depois disso não havia tempo.
Porque há-de ser isto falso? Falso é falar de infinitos
Como se soubessemos o que são de os podermos entender.
Não: tudo é uma quantidade de cousas.
Tudo é definido, tudo é limitado, tudo é cousas.

Alberto Caeiro
Comer é um acto agrícola
Wendell Berry