25 janeiro, 2017

orgulho da serenidade

Escritas de luz investem pela sombra, mais prodigiosas do que meteoros.
A alta cidade irreconhecível cresce sobre o campo.
Certo da minha vida e da minha morte, olho os ambiciosos e queria
entendê-los.
O seu dia é ávido como o laço no ar.
A sua noite é a trégua da ira no ferro, rápido ao atacar.
Falam de humanidade.
A minha humanidade está em sentir que somos vozes da mesma penúria.
Falam de pátria.
A minha pátria é um ganido de guitarra, alguns retratos e uma velha
[espada,
a clara prece do salgueiral nos entardeceres.
O tempo está a viver-me.
Mais silencioso do que a minha sombra, cruzo o tropel da sua excitada
[cobiça.
Eles são imprescindíveis, únicos, merecedores do amanhã.
O meu nome é alguém e qualquer um.
Passo com lentidão, como quem vem de tão longe que não espera chegar.


jorge luís borges

24 janeiro, 2017

Tardei (mas cheguei)

Tardei, tardei, tardei
Mas cheguei, enfim
Pra cada adeus um nó
Cada conta
O fio do rosário que eu
Vim banhar, pra lhe dar

Tardei, tardei, tardei
Só na volta eu vi
Qual senda me levou
Qual me trouxe aqui
Pra encontrar você
Onde está, meu lugar?

Desceu pelo rio
Da terra pro mar
Um fio de prata que me leva

Tardei, tardei, tardei
Que na vinda eu quis
Pela primeira vez
Nunca mais partir
E esperar você
O meu lugar, onde está?

Desceu pelo rio
Da terra pro mar
Um fio de prata que me leva


Rodrigo Amarante

https://www.youtube.com/watch?v=fJ2zWRWOp_s
Desmembramento de um semicírculo

Certo que nos dedicamos
a místicas peregrinações.
Exercitamos a respiração,
lutamos brigas orientais,
praticamos uma e sete vezes
a tradução do poema chileno.
Mas no fundo sabemos
que o que importa mesmo
é roçar a superfície negra
da pele do peito do anjo
que está vivo
que não dorme.


Matilde Campilho

23 janeiro, 2017

Amo-a.
Talvez por isso, em certos dias, quando consigo ficar sozinho, sentado num banco de jardim, passeamos juntos. Temos muito para dizer um ao outro, mas escolhemos caminhar em silêncio. E paramos. Fechamos os olhos e ficamos, lado a lado, apenas sentindo a presença um do outro, apenas escutando a respiração do outro em todo os sons da natureza e da cidade. E, mais do que uma vez, desejei ver em muros, entre as palavras com que os alunos dos liceus escrevem a caligrafia da sua inocência, os nossos nomes juntos: «Zé Luís ama Clarice». Como uma promessa de eternidade para aquilo que todos sabem perdido, exceto nós. Como uma prova em que ninguém acredita, exceto nós.

José Luís Peixoto, in "Abraço"
para além dos signos

Escrever agora é dispersar os reflexos,
abrir as portas de pedra e repousar no ar.
Ajoelhado junto de um barco ou de uma jarra,
um deus respira e é um puro vazio.
Para além dos signos e no início deles
um sorriso, um fulgor das coisas confiantes.
E nos muros e nos dedos, uma areia
que das nuvens descesse e na distância
a forma de um abraço amante, o sonho do outro.

antónio ramos rosa

22 janeiro, 2017

The Present Tense

(...)
In you I'm lost
(...)

21 janeiro, 2017

Deixai-me limpo
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio.

Sophia de Mello Breyner Andresen