28 janeiro, 2017

Aula de amor

Mas, menina, vai com calma
Mais sedução nesse grasne:
Carnalmente eu amo a alma
E com alma eu amo a carne.

Faminto, me queria eu cheio
Não morra o cio com pudor
Amo virtude com traseiro
E no traseiro virtude pôr.

Muita menina sentiu perigo
Desde que o deus no cisne entrou
Foi com gosto ela ao castigo:
O canto do cisne ele não perdoou.

Bertolt Brecht



27 janeiro, 2017

EM CASA

Por vezes chego a sítios com a sensação de nunca lá ter saído. Ou com a sensação que o tempo não passou, e que ficou tudo inomobidavel até eu voltar a chegar. Acontece o mesmo com pessoas, cheiros, paisagens... será uma identidade individual que nos pertence e entranha no sangue. Uma felicidade insípida e de gratidão. O tronco e os vários braços da nossa árvore têm uma base, uma raiz em comum. Um solo, água e um sem número de elementos. Mesmo que cada braço dê frutos diferentes. A génese do princípio das coisas é o reconhecimento que tudo o que nos constitui é herdado a cada presença, a cada momento a que nos entregamos. A genética herdamo-la e criamo-la nós. Herdamos as raízes mas somos nós que contribuímos para que a árvore cresça e se cumpra. Por onde passo deixo sementes de felicidade e é por isso que quando regresso me sinto em casa. Na verdade sinto-me em casa onde estou, porque me rodeio de árvores que geram frutos. Que nascem e morrem na insustentabilidade de ser. Somos uma semente e é importante nos semearmos uns aos outros em cada existência da nossa presença.

a.tereso
"ontem durante a viagem"

26 janeiro, 2017

já há oito séculos

Já há oito séculos, meu povo, escreves
A história para os outros.
É tempo agora de escreveres a tua

vergílio ferreira

25 janeiro, 2017

orgulho da serenidade

Escritas de luz investem pela sombra, mais prodigiosas do que meteoros.
A alta cidade irreconhecível cresce sobre o campo.
Certo da minha vida e da minha morte, olho os ambiciosos e queria
entendê-los.
O seu dia é ávido como o laço no ar.
A sua noite é a trégua da ira no ferro, rápido ao atacar.
Falam de humanidade.
A minha humanidade está em sentir que somos vozes da mesma penúria.
Falam de pátria.
A minha pátria é um ganido de guitarra, alguns retratos e uma velha
[espada,
a clara prece do salgueiral nos entardeceres.
O tempo está a viver-me.
Mais silencioso do que a minha sombra, cruzo o tropel da sua excitada
[cobiça.
Eles são imprescindíveis, únicos, merecedores do amanhã.
O meu nome é alguém e qualquer um.
Passo com lentidão, como quem vem de tão longe que não espera chegar.


jorge luís borges

24 janeiro, 2017

Tardei (mas cheguei)

Tardei, tardei, tardei
Mas cheguei, enfim
Pra cada adeus um nó
Cada conta
O fio do rosário que eu
Vim banhar, pra lhe dar

Tardei, tardei, tardei
Só na volta eu vi
Qual senda me levou
Qual me trouxe aqui
Pra encontrar você
Onde está, meu lugar?

Desceu pelo rio
Da terra pro mar
Um fio de prata que me leva

Tardei, tardei, tardei
Que na vinda eu quis
Pela primeira vez
Nunca mais partir
E esperar você
O meu lugar, onde está?

Desceu pelo rio
Da terra pro mar
Um fio de prata que me leva


Rodrigo Amarante

https://www.youtube.com/watch?v=fJ2zWRWOp_s
Desmembramento de um semicírculo

Certo que nos dedicamos
a místicas peregrinações.
Exercitamos a respiração,
lutamos brigas orientais,
praticamos uma e sete vezes
a tradução do poema chileno.
Mas no fundo sabemos
que o que importa mesmo
é roçar a superfície negra
da pele do peito do anjo
que está vivo
que não dorme.


Matilde Campilho

23 janeiro, 2017

Amo-a.
Talvez por isso, em certos dias, quando consigo ficar sozinho, sentado num banco de jardim, passeamos juntos. Temos muito para dizer um ao outro, mas escolhemos caminhar em silêncio. E paramos. Fechamos os olhos e ficamos, lado a lado, apenas sentindo a presença um do outro, apenas escutando a respiração do outro em todo os sons da natureza e da cidade. E, mais do que uma vez, desejei ver em muros, entre as palavras com que os alunos dos liceus escrevem a caligrafia da sua inocência, os nossos nomes juntos: «Zé Luís ama Clarice». Como uma promessa de eternidade para aquilo que todos sabem perdido, exceto nós. Como uma prova em que ninguém acredita, exceto nós.

José Luís Peixoto, in "Abraço"