31 janeiro, 2017

maresia



Neste mar à minha frente
O sol repousa e os nossos olhos dormem…

– Caem saudades mortas como chuva miúda,
Ou sobem, trémulas, como o vapor das algas,
Ou ficam, extáticas como um bafo de areia,
Calmas, sobre a paisagem,
Como um véu de cambraia deixado…

Não sei se é o calor das algas,
Se é o bafo da areia que baila,
Ou se é a chuva miúda que cai neste dia de sol
Como um véu de cambraia deixado,

Sei que me lembram os signos do zodíaco
Em boa caligrafia,
Uns signos como nem sequer eu tinha imaginado!…

E este calor que dimana da terra e nos confunde com ela,
Nos aquece as pernas de encontro à areia, numa vida exterior
Com mais sangue que a nossa e, sobretudo, cheia
Duma inconsciência que não se parece com nada,
Esta respiração pausada como as ondas, de trás para diante
Fazendo, lentas, e desfazendo
A mesma curva humaníssima e sensível,
Faz-me escrever, devagar, e com letra de menino pequeno
Sobre o chão acamado, esta palavra

AMOR.


antónio pedro

30 janeiro, 2017

Dança

Conhecimento do todo em cada parte, num só movimento em sintonia com as relações sonoras, juntos em cada respirar numa junção inter sensorial do saber estar!

https://www.youtube.com/watch?v=qk00gbDwGqM

29 janeiro, 2017

ESTAR SÓ É ESTAR NO ÍNTIMO DO MUNDO

Por vezes cada objecto se ilumina
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim tão breve e tão profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos dá
a cintilante substância do sítio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono
fluvial e um núbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo


António Ramos Rosa
em "Poemas Inéditos" 

28 janeiro, 2017

O Tempo – arte de fazer algo

No primeiro dia fui conhecer o espaço e perceber os planos que estavam delineados. O Stewart tinha uma lista de afazeres para ajudar. O conhecimento, as primeiras palavras, a interação que só existe conhecendo, levou a uma selecção natural dos afazeres. A prioridade delineada em conjunto foi iniciar a horta em permacultura e a reabilitação de um velho barracão.

Como de costume, e creio ser parte integrante, racionalizei os processos, para os concretizar com calma e tranquilidade, prevendo dificuldades e formas de os cumprir. Observei onde nascia o sol, onde se punha, o Norte, senti a terra, o vento, tentei informar-me sobre o Tempo, função, principais culturas, etc., para desenhar, planear o melhor sistema de cultura para o local onde se pretende ter a horta. O mesmo fiz para a reabilitação das zonas sensíveis do venho “museu”. Mas nesta área não me dei tanto tempo, por me ser demasiado familiar e por o objeto ser um simples barracão de arrumos.

Mas antes de mais, falo na prática. E a importância da prática para a minha vida. Nos primeiros dias, voltei a criar uma natural rotina. Algo que nos sustenta e permite dar-nos ao tempo. Nestes dias, acordei sempre de forma natural por volta das 7h, antes do romper do sol, para meditar um pouco, ler, ou simplesmente ficar. Dava-se meia hora a isso, para depois tomar o pequeno almoço tranquilamente. Sair de casa pelas 9h e começar os afazeres. A preparação das refeições são rotativas, mas como é uma área familiar, muitas vezes tomo a iniciativa por gosto. A alimentação, mais cuidada e bem doseada, também voltou a ter maior critério, assim como a ultima refeição do dia, antes de jantar. As rotinas, ou a exigência com a alimentação, não é mais que darmos valor e cuidar do corpo, dos seus desejos e falências.

Voltei a correr, a deleitar-me com os livros e claro, as caminhadas ao final do dia, ida à floresta tem sido parte integrante neste dia a dia. Algo que também me tenho dedicado, ou por outra voltado a potenciar em mim, é a observação, contemplação, o momento. O estar em mim, onde estou, com sentido e propósito. E se tenho visto bonitos céus, nasceres e pores do sol.


E é por aqui que fico, quase a terminar este primeiro encontro, onde voltei à minha rotina, ao meu descanso pelo desfrute do trabalho, do ser útil para o todo. 

a.tereso 


Aula de amor

Mas, menina, vai com calma
Mais sedução nesse grasne:
Carnalmente eu amo a alma
E com alma eu amo a carne.

Faminto, me queria eu cheio
Não morra o cio com pudor
Amo virtude com traseiro
E no traseiro virtude pôr.

Muita menina sentiu perigo
Desde que o deus no cisne entrou
Foi com gosto ela ao castigo:
O canto do cisne ele não perdoou.

Bertolt Brecht



27 janeiro, 2017

EM CASA

Por vezes chego a sítios com a sensação de nunca lá ter saído. Ou com a sensação que o tempo não passou, e que ficou tudo inomobidavel até eu voltar a chegar. Acontece o mesmo com pessoas, cheiros, paisagens... será uma identidade individual que nos pertence e entranha no sangue. Uma felicidade insípida e de gratidão. O tronco e os vários braços da nossa árvore têm uma base, uma raiz em comum. Um solo, água e um sem número de elementos. Mesmo que cada braço dê frutos diferentes. A génese do princípio das coisas é o reconhecimento que tudo o que nos constitui é herdado a cada presença, a cada momento a que nos entregamos. A genética herdamo-la e criamo-la nós. Herdamos as raízes mas somos nós que contribuímos para que a árvore cresça e se cumpra. Por onde passo deixo sementes de felicidade e é por isso que quando regresso me sinto em casa. Na verdade sinto-me em casa onde estou, porque me rodeio de árvores que geram frutos. Que nascem e morrem na insustentabilidade de ser. Somos uma semente e é importante nos semearmos uns aos outros em cada existência da nossa presença.

a.tereso
"ontem durante a viagem"

26 janeiro, 2017

já há oito séculos

Já há oito séculos, meu povo, escreves
A história para os outros.
É tempo agora de escreveres a tua

vergílio ferreira