05 fevereiro, 2017

no tempo em que éramos felizes

no tempo em que éramos felizes não chovia.
levantávamo-nos juntos, abraçados ao sol.
as manhãs eram um céu infinito. o nosso amor
era as manhãs. no tempo em que éramos felizes
o horizonte tocava-se com a ponta dos dedos.
as marés traziam o fim da tarde e não víamos
mais do que o olhar um do outro. brincávamos
e éramos crianças felizes. às vezes ainda
te espero como te esperava quando tu chegavas
com o uniforme lindo da tua inocência. há muito
tempo que te espero. há muito tempo que não vens.

josé luís peixoto

03 fevereiro, 2017

Há um tempo em que é preciso
abandonar as roupas usadas,
que já tem a forma do nosso corpo,
e esquecer os nossos caminhos,
que nos levam sempre aos mesmos lugares. 
É o tempo da travessia:
e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado,
para sempre, à margem de nós mesmos.

Fernando Pessoa
ausência

Eu haverei de erguer a vasta vida
que ainda é o teu espelho:
cada manhã hei-de reconstruí-la.
Desde que te afastaste,
quantos lugares se tornaram vãos
e sem sentido, iguais
a luzes acesas de dia.
Tardes que te abrigaram a imagem,
música em que sempre me esperavas,
palavras desse tempo,
terei de as destruir com as minhas mãos.
Em que ribanceira esconderei a alma
pra que não veja a tua ausência,
que como um sol terrível, sem ocaso,
brilha definitiva e sem piedade?
A tua ausência cerca-me
como a corda à garganta.
O mar ao que se afunda.


31 janeiro, 2017

maresia



Neste mar à minha frente
O sol repousa e os nossos olhos dormem…

– Caem saudades mortas como chuva miúda,
Ou sobem, trémulas, como o vapor das algas,
Ou ficam, extáticas como um bafo de areia,
Calmas, sobre a paisagem,
Como um véu de cambraia deixado…

Não sei se é o calor das algas,
Se é o bafo da areia que baila,
Ou se é a chuva miúda que cai neste dia de sol
Como um véu de cambraia deixado,

Sei que me lembram os signos do zodíaco
Em boa caligrafia,
Uns signos como nem sequer eu tinha imaginado!…

E este calor que dimana da terra e nos confunde com ela,
Nos aquece as pernas de encontro à areia, numa vida exterior
Com mais sangue que a nossa e, sobretudo, cheia
Duma inconsciência que não se parece com nada,
Esta respiração pausada como as ondas, de trás para diante
Fazendo, lentas, e desfazendo
A mesma curva humaníssima e sensível,
Faz-me escrever, devagar, e com letra de menino pequeno
Sobre o chão acamado, esta palavra

AMOR.


antónio pedro

30 janeiro, 2017

Dança

Conhecimento do todo em cada parte, num só movimento em sintonia com as relações sonoras, juntos em cada respirar numa junção inter sensorial do saber estar!

https://www.youtube.com/watch?v=qk00gbDwGqM

29 janeiro, 2017

ESTAR SÓ É ESTAR NO ÍNTIMO DO MUNDO

Por vezes cada objecto se ilumina
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim tão breve e tão profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos dá
a cintilante substância do sítio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono
fluvial e um núbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo


António Ramos Rosa
em "Poemas Inéditos" 

28 janeiro, 2017

O Tempo – arte de fazer algo

No primeiro dia fui conhecer o espaço e perceber os planos que estavam delineados. O Stewart tinha uma lista de afazeres para ajudar. O conhecimento, as primeiras palavras, a interação que só existe conhecendo, levou a uma selecção natural dos afazeres. A prioridade delineada em conjunto foi iniciar a horta em permacultura e a reabilitação de um velho barracão.

Como de costume, e creio ser parte integrante, racionalizei os processos, para os concretizar com calma e tranquilidade, prevendo dificuldades e formas de os cumprir. Observei onde nascia o sol, onde se punha, o Norte, senti a terra, o vento, tentei informar-me sobre o Tempo, função, principais culturas, etc., para desenhar, planear o melhor sistema de cultura para o local onde se pretende ter a horta. O mesmo fiz para a reabilitação das zonas sensíveis do venho “museu”. Mas nesta área não me dei tanto tempo, por me ser demasiado familiar e por o objeto ser um simples barracão de arrumos.

Mas antes de mais, falo na prática. E a importância da prática para a minha vida. Nos primeiros dias, voltei a criar uma natural rotina. Algo que nos sustenta e permite dar-nos ao tempo. Nestes dias, acordei sempre de forma natural por volta das 7h, antes do romper do sol, para meditar um pouco, ler, ou simplesmente ficar. Dava-se meia hora a isso, para depois tomar o pequeno almoço tranquilamente. Sair de casa pelas 9h e começar os afazeres. A preparação das refeições são rotativas, mas como é uma área familiar, muitas vezes tomo a iniciativa por gosto. A alimentação, mais cuidada e bem doseada, também voltou a ter maior critério, assim como a ultima refeição do dia, antes de jantar. As rotinas, ou a exigência com a alimentação, não é mais que darmos valor e cuidar do corpo, dos seus desejos e falências.

Voltei a correr, a deleitar-me com os livros e claro, as caminhadas ao final do dia, ida à floresta tem sido parte integrante neste dia a dia. Algo que também me tenho dedicado, ou por outra voltado a potenciar em mim, é a observação, contemplação, o momento. O estar em mim, onde estou, com sentido e propósito. E se tenho visto bonitos céus, nasceres e pores do sol.


E é por aqui que fico, quase a terminar este primeiro encontro, onde voltei à minha rotina, ao meu descanso pelo desfrute do trabalho, do ser útil para o todo. 

a.tereso